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SAUDADES DO CRATO

sábado, 15 de maio de 2010

No século passado viveu em Baturité, o imigrante sírio Elias Salomão comerciante de tecidos na Rua Sete de Setembro, no mesmo local onde muito depois funcionou a loja de Montezuma Peixoto.

Em 1934 o Sr. Elias Salomão, deixa sua Casa Síria, de Baturité, sob a gerência de Sr. Abel Pereira, e segue para o Crato a fim de gerenciar uma loja de Aziz Jereissati.

Quando viajou, Sr. Elias a pedido do seu amigo e compadre major Pedro Mendes, levou o filho deste Mario Mendes, para que, como empregado, aprendesse a arte de comprar e vender, coisa que o sírio já trazia no sangue.

Na abençoada região do Cariri, o recém chegado Mário se seduz com a beleza da Chapada do Araripe, que, como dizia o poeta, era coberta pela floresta donde jorram nascentes de águas puríssimas.

Rapaz de boa aparência e distinto, enquanto se enleva pelo lugar, cativa as colegiais, que não eram poucas, e, por causa delas, fica mais propenso aos namoros do que ao trabalho.

Por esse tempo também se encontrava no Crato, seu primo Heitor Maciel, que fora mandado, pela mãe, dona Emília Maciel, para lá se empregar, naturalmente a contra gosto do filho, como caixeiro nas Casas Pernambucanas, para que, dessa forma, deixasse de mão suas idéias comunistas.

Inconformado com o pouco tempo que lhe sobrava das obrigações para as farras e para a liça de combate aos integralistas apelidados de galinhas verdes, Heitor passou a odiar ao maldito balcão de loja, que não tinha nada a ver com seu gênio que nunca teve de se sujeitar a qualquer tipo de horário.

Mario e Heitor, pouco demoraram no Crato. Mario por se achar já capaz de suceder o pai, que, por sua vez, já queria lhe entregar a loja, e, Heitor, por que: “em sonho, ouviu a sua mãe chorando a lhe chamar”!

Em data combinada os dois pegaram o trem para Baturité. Numa madrugada de céu estrelado, no silencio só perturbado pelo movimento da estação, os dois, já acomodados no carro, passam a relembrar os momentos de liberdade na companhia de tantos e tantas de quem nem sequer se despediram.

Quando o agente ferroviário autorizou a partida com o tocar do sino, ao primeiro sopapo da locomotiva, os dois ficaram se olhando, e, ao mesmo tempo, recitaram parte da poesia do poeta popular Zé de Matos, quando, uma vez, deixou a terra amada:

Adeus! Cidade do Crato.
Quereres da minha vida,
Levo saudades de ti,
Rapadura e rapariga.

ESTRANHA HOMENAGEM

sábado, 24 de abril de 2010

No alvorecer do dia sete de julho de 1942, em Baturité, na residência do cliente, na Rua Quinze de Novembro, lado do sol, poucos metros acima da Rua Hildo Furtado, o contador dava os últimos retoques na Declaração do Imposto de Renda da NOVA AURORA, loja de tecidos, chapéus, camas, colchões e miudezas da Rua Sete de Setembro. O guarda livro era José Maciel, cunhado e primo do dono da casa e da loja o Mario Mendes.

Terminada a missão os dois se aproximam do rádio. Ansiosos. Sintonizados na BBC de Londres, eles queriam escutar as notícias da Guerra da Europa.

A transmissão, direta para o Brasil, estava quase inaudível, por causa dos chiados e da zoada, lá de fora, porque, em plena madrugada, os comboieiros, aos gritos, estralavam os chicotes nas traseiras dos jumentos.

Os pobres animais com pesadíssimos caçoares arriados em cada lado das cangalhas, sem ninguém para controlar excessos, escambichados com tanto peso, traziam da serra produtos agrícolas destinados à feira.

Lá de dentro, da casa, de repente, ouvem-se gemidos nervosos da dona da casa. Ela estava em procedimento de parto. Os gritos de dor superam todos os sons, até que o alarido, pouco a pouco vai sumindo, e, enfim, dá lugar ao choro forte do segundo filho.

Quando dona Maroca Maciel de Paiva, a parteira, trouxe o recém nascido, todo asseado, e vestido num jaleco branco, para os primeiros afagos do pai, foi José Maciel quem primeiro falou:

- Este vai ser contador!

- Disso, não sei – respondeu o pai -, mas seu nome será uma homenagem a mim mesmo, Mario Mendes Junior!

A POLÍTICA ANTIGA DE BATURITÉ (I)

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

No quadriênio 1947-1950 a política do Ceará pega fogo quando a Assembléia, através de voto indireto, elege o inimigo e adversário de véspera, Menezes Pimentel do PSD, para vice do governador Faustino de Albuquerque, da UDN, que, em retaliação, passou a usar a máquina do governo para fazer udenistas os futuros prefeitos. Nesse ambiente de fornalha, a veleidade de Faustino esquenta a concorrência dos caciques municipais, e, em decorrência, abre espaço para políticos emergentes.

Quando os lojistas Mario Mendes e Mesquita Pinheiro, o relojoeiro José Farias, o industrial e comerciante José Ricardo da Silveira, o farmacêutico Oziel Rabelo e o contador José Francelino, retornaram de Paulo Afonso, onde, em excursão, foram conhecer a cachoeira homônima, encontraram Baturité respirando política.

O epicentro dos diz-que-diz-que era o bar no meio do quarteirão sul do mercado, entre a bodega do Zé André e a loja do Antônio Cordeiro, e, de frente ao Barracão das Carnes. Preferido na cidade, o raio do lugar agradava aos comerciantes emergentes que, ali, se misturavam com outros tipos, atraídos pelo serviço impecável do dono e, é claro, pela cerveja Bohemia, esfriada no alguidá debaixo do pote, naquele tempo, em Baturité, só havia geladeira na padaria do português Manoel Simões que não vendia bebidas alcoólicas.

Rompia o segundo trimestre do ano eleitoral de 1950, quando, o aguçado espírito político do Zé Ricardo induz ao grupo excursionista de Paulo Afonso, a formar uma terceira força, capaz de derrotar os tradicionais donos dos colégios eleitorais, que, conflitantes, então, se denegriam em polêmicas e trocas de desaforos, pendengas, até hoje, fincadas na memória mesma do folclore político do lugar:

- João Ramos – dizia o coronel Ananias Arruda – é tão miserável que não pinta, nem, sua casa!

A isso, em cima da bucha, o coronel João Ramos, respondia:

- É melhor ter a casa suja e a consciência limpa, do que a casa limpa e a consciência suja!

Atividade que mais profundamente atinge a vida do interior, a política roceira, não permite, a ninguém, se ausentar dela ao se aproximarem as eleições. No calor da emulação, ao invés de se compor com um coronel, parido de gerações acostumadas a triturar a paciência do povo com a mesmice, ou, por outro lado de outro coronel que a tudo examinava sob o ponto de vista religioso, os chegado da caravana, legitimaram a idéia do Zé Ricardo.

Acudido pelos acenos do PSP, Partido Social Progressista, de Adhemar de Barros e de Olavo Oliveira, a nova força se organiza em diretório, tendo Mario Mendes como Presidente; Francisco Mesquita Pinheiro como Vice; João Paulino Pinheiro, Secretário; Raimundo Castelo Silveira, Tesoureiro; Edivo Campos, José Farias dos Santos, Manoel Castelo Branco, Eliziário Gomes e Emídio Castelo da Silveira, todos como Diretores.

Altivo até a insolência, orgulhoso até o egotismo, sem ter cargo no diretório, Oziel Rabelo, impõe, ao diretório do PSP, o nome do Dr. Álcimo Cavalcante Aguiar, como postulante à prefeitura. O nome de Zé Ricardo ficou para outra vez!

Clique aqui para ver a POLÍTICA ANTIDA DE BATURITÉ II

ZÉ PEREQUETÉ

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Para fugir dos olhos dos pais, e viver de maneira livre, vários jovens de Baturité, por volta de 1936, se cotizaram para fundar uma “república”’ – assim se chamava uma casa só de rapazes solteiros, que, no caso, transformaram a morada no ponto de entrada e saída dos matizes mais hilariantes do agito citadino.
Em Baturité a “republica” funcionou na praça Santa Luzia na mesma casa desocupada pela família de Elias Salomão que se mudara para o Crato seus inquilinos eram Mario Mendes, Mario Pinheiro, Francisco Mesquita Pinheiro, Audísio Lopes, José Francelino, Raimundo Campos e poucos alunos do colégio não residentes na cidade.

Em completa libertinagem, quatro anos durou a republica. Acabou-se quando os proprietários, José Maciel e Licinha, respectivamente genro e filha do Major Pedro Mendes, residentes em Fortaleza, resolveram vender o imóvel. O adquirente Francisco Pinheiro, um dos da casa, a pediu, porque se preparava para casar com Maria do Carmo Maciel Guimarães.

Sem ser morador, mas amigo desde a infância, dos que faziam a “república”, o faceiro Zé Perequeté, tornou-se figura indispensável nos movimentos da casa, principalmente, quando o assunto era seresta. O Zé era um tipo de gago, que cantando, era dono de boa voz.

De caráter refinado, as serenatas patrocinadas pela “república”, funcionavam de modo a se escutar apenas, os acordes dos violões de Audísio Lopes e José Amâncio acompanhando o cantar dos troveiros apaixonados. Naquelas noites de luar, o mais importante era o silencio, falar, só com a boca colada ao ouvido do outro. Emudecidos os amigos, até, tiravam os sapatos para evitar o menor zunzunzum, porque, do lado de fora, eles queriam sentir a namorada, a ouvir a música ao vê-los pelas frestas da janela. Por causa do seu gênio irrequieto e sendo um tagarela de marca maior, a figura do Perequeté passou a ser evitada por ocasião desse tipo de evento.

Ao descobrir uma acertada noite de seresta, para qual não foi convidado, só de mau, ao local onde o cantor recitava uma cantiga na presença dos companheiros emudecidos, o Zé chega de tamanco, o rústico calçado, sendo de pau, através do passo a passo barulhento do destemperado, acorda o dono da casa, que, de espingarda na mão “convida” o bando para ir andando.

Boêmio por vocação, soldado frustrado, por nunca ter se alistado ou servido em força nenhuma, vivia a gaguejar ações militares em guerras e revoluções nas quais nunca lutou; cárceres onde nunca foi preso; intimidade com prisioneiros políticos que nunca conheceu.

Assim em 1932, dizendo-se voluntário da Revolução Constitucionalista de São Paulo, passados alguns dias de sumiço, estando na beira da linha do trem, vestido numa farda emprestada, dizendo-se voltando de uma expedição militar, para a qual nunca partira, ao ser visto com uma gaiola na mão, Zé justifica-se, para o circunstante que o sabia na guerra:

- Não diga a ninguém que me viu… Estou aqui a serviço!

- Como a serviço? – perguntou o outro.

- Ta vendo esta gaiola… Vim pegar umas graúnas para o general comandante da guarnição.

Para outra mentira meteórica, Zé se aproveitou do episódio conhecido como a Intentona Comunista. “Dizia-se” largado como preso político, junto aos moscovitas, Pedro Wilson, Gregório Bezerra, Américo Barreira, Chico Viana e o Braga Alfaiate, de noite, no canto da cela, sentado ao chão, ele cai no sono. De manhã, quando acordou, esfregou os olhos com as duas mãos, e ao abri-los, para sua surpresa, se deparou com uma escritora famosa. Para dizer que ela estava mal sentada dizia:

- Olha lá as coxas dela!

Outra vez, “se viu” na Itália, lutando contra o nazi-facismo de Hitler e Mussolini. Sob o comando do marechal Mascarenhas de Morais ele “participou” da batalha que tomou o Monte Castelo das forças do eixo. Entrincheirado numa pedra, abraçado com um fuzil, em momentos intercalados, tomava posição de tiro:

- Cada tiro que dava, olha a lapa de alemão que caía!

Inapto para o trabalho, enquanto seus amigos seguiram suas carreiras, Zé Perequeté continuou nas farras. No Bar do Darli Paixão, vivia a enaltecer sua esperteza nos negócios, quando, na realidade, tais negócios só lhe traziam prejuízos e perseguição de credores.
Cultuava o humor, até quando se queixava da vida. Mal sucedido no amor, de bar em bar, dissimulava uma dor íntima, perguntando e ao mesmo tempo, respondendo aos amigos do copo:

- Vocês pensam que eu bebo é porque sou corno? Não, é engano. Eu bebo é para esquecer uma mágoa que trago aqui no meu peito!

- Mágoa de que, Zé? – perguntavam-lhe os circunstantes.

- Não sei, já esqueci – concluía, brincando com a própria amargura.

O Zé era assim, o vero fascínio que exercia na cidade vinha da sua capacidade de inventar, mas, a sua gabolice era isenta de charlatanismo ou embuste, na verdade ele não podia, nunca, ser comparado com um irresponsável torpe, mesmo porque, sua “torpeza” jamais ofendeu a alguém.