Para fugir dos olhos dos pais, e viver de maneira livre, vários jovens de Baturité, por volta de 1936, se cotizaram para fundar uma “república”’ – assim se chamava uma casa só de rapazes solteiros, que, no caso, transformaram a morada no ponto de entrada e saída dos matizes mais hilariantes do agito citadino.
Em Baturité a “republica” funcionou na praça Santa Luzia na mesma casa desocupada pela família de Elias Salomão que se mudara para o Crato seus inquilinos eram Mario Mendes, Mario Pinheiro, Francisco Mesquita Pinheiro, Audísio Lopes, José Francelino, Raimundo Campos e poucos alunos do colégio não residentes na cidade.
Em completa libertinagem, quatro anos durou a republica. Acabou-se quando os proprietários, José Maciel e Licinha, respectivamente genro e filha do Major Pedro Mendes, residentes em Fortaleza, resolveram vender o imóvel. O adquirente Francisco Pinheiro, um dos da casa, a pediu, porque se preparava para casar com Maria do Carmo Maciel Guimarães.
Sem ser morador, mas amigo desde a infância, dos que faziam a “república”, o faceiro Zé Perequeté, tornou-se figura indispensável nos movimentos da casa, principalmente, quando o assunto era seresta. O Zé era um tipo de gago, que cantando, era dono de boa voz.
De caráter refinado, as serenatas patrocinadas pela “república”, funcionavam de modo a se escutar apenas, os acordes dos violões de Audísio Lopes e José Amâncio acompanhando o cantar dos troveiros apaixonados. Naquelas noites de luar, o mais importante era o silencio, falar, só com a boca colada ao ouvido do outro. Emudecidos os amigos, até, tiravam os sapatos para evitar o menor zunzunzum, porque, do lado de fora, eles queriam sentir a namorada, a ouvir a música ao vê-los pelas frestas da janela. Por causa do seu gênio irrequieto e sendo um tagarela de marca maior, a figura do Perequeté passou a ser evitada por ocasião desse tipo de evento.
Ao descobrir uma acertada noite de seresta, para qual não foi convidado, só de mau, ao local onde o cantor recitava uma cantiga na presença dos companheiros emudecidos, o Zé chega de tamanco, o rústico calçado, sendo de pau, através do passo a passo barulhento do destemperado, acorda o dono da casa, que, de espingarda na mão “convida” o bando para ir andando.
Boêmio por vocação, soldado frustrado, por nunca ter se alistado ou servido em força nenhuma, vivia a gaguejar ações militares em guerras e revoluções nas quais nunca lutou; cárceres onde nunca foi preso; intimidade com prisioneiros políticos que nunca conheceu.
Assim em 1932, dizendo-se voluntário da Revolução Constitucionalista de São Paulo, passados alguns dias de sumiço, estando na beira da linha do trem, vestido numa farda emprestada, dizendo-se voltando de uma expedição militar, para a qual nunca partira, ao ser visto com uma gaiola na mão, Zé justifica-se, para o circunstante que o sabia na guerra:
- Não diga a ninguém que me viu… Estou aqui a serviço!
- Como a serviço? – perguntou o outro.
- Ta vendo esta gaiola… Vim pegar umas graúnas para o general comandante da guarnição.
Para outra mentira meteórica, Zé se aproveitou do episódio conhecido como a Intentona Comunista. “Dizia-se” largado como preso político, junto aos moscovitas, Pedro Wilson, Gregório Bezerra, Américo Barreira, Chico Viana e o Braga Alfaiate, de noite, no canto da cela, sentado ao chão, ele cai no sono. De manhã, quando acordou, esfregou os olhos com as duas mãos, e ao abri-los, para sua surpresa, se deparou com uma escritora famosa. Para dizer que ela estava mal sentada dizia:
- Olha lá as coxas dela!
Outra vez, “se viu” na Itália, lutando contra o nazi-facismo de Hitler e Mussolini. Sob o comando do marechal Mascarenhas de Morais ele “participou” da batalha que tomou o Monte Castelo das forças do eixo. Entrincheirado numa pedra, abraçado com um fuzil, em momentos intercalados, tomava posição de tiro:
- Cada tiro que dava, olha a lapa de alemão que caía!
Inapto para o trabalho, enquanto seus amigos seguiram suas carreiras, Zé Perequeté continuou nas farras. No Bar do Darli Paixão, vivia a enaltecer sua esperteza nos negócios, quando, na realidade, tais negócios só lhe traziam prejuízos e perseguição de credores.
Cultuava o humor, até quando se queixava da vida. Mal sucedido no amor, de bar em bar, dissimulava uma dor íntima, perguntando e ao mesmo tempo, respondendo aos amigos do copo:
- Vocês pensam que eu bebo é porque sou corno? Não, é engano. Eu bebo é para esquecer uma mágoa que trago aqui no meu peito!
- Mágoa de que, Zé? – perguntavam-lhe os circunstantes.
- Não sei, já esqueci – concluía, brincando com a própria amargura.
O Zé era assim, o vero fascínio que exercia na cidade vinha da sua capacidade de inventar, mas, a sua gabolice era isenta de charlatanismo ou embuste, na verdade ele não podia, nunca, ser comparado com um irresponsável torpe, mesmo porque, sua “torpeza” jamais ofendeu a alguém.