AS BRINCADEIRAS DE BATURITÉ
Na primeira metade dos anos 50, os filmes “westerns”, geralmente protagonizados por Tom Mix, Roy Rogers, John Mac Brow, John Wayne, Charles Starret, e outros astros, sem exceção, desenvolviam enredos de lutas e aventuras de um xerife e seus auxiliares contra um numeroso bando de bandidos e, muitas vezes, versus tribos de índios.
As roupas diferenciadas, a cartucheira com um revolver na altura da mão com o braço estendido, os cavalos, a diligência, e a briga final no “saloon”, eram detalhes que, juntos, deslumbravam a cabeça infantil fiel ao gênero.
Exaltados com a fictícia heroicidade, o pré-adolescente, ao sair do cinema trazia a mesma pose dos atores.
Era como se dizia: saía todo inchado!
Pois bem. Foi da trama destes filmes, onde eram comuns as figuras do mocinho, do menininho, e do inseparável “doidão”, sempre as turras com os bandidos, que floriu a brincadeira do “cow boys”. Pelas cercanias da Praça Santa Luzia o trio heróico era representado respectivamente por João Rodolfo, Maninho e Chiquinho Goiaba, e, a quadrilha pelos outros: Marcelo Victor, Ideovar, Luciano Santana, Bebeto, João Saraiva, Everton Caúla e outros que fossem chegando.
Um dos esconderijos dos “bandidos” era a garagem da casa do português Manoel Simões, pela rua de trás, o mesmo local onde pernoitava e estacionava o ônibus do seu Lulú.
Num dia de brincadeira, estrategicamente oculto em cima do ônibus, na espreita de “prender um adversário”, de repente, o Bebeto ouviu um ruído, e, inadvertidamente, sem ver ninguém, foi logo bradando:
- “Mãos ao alto”.
A resposta não demorou:
- “Mãos o alto” o que? Desça já daí de cima do meu ônibus cabra traquina, senão vou mandar seu pai lhe dar uma sova.
Ninguém se lembra da cara do Bebeto descendo a escada trazeira do carro, e pior, tendo a frente o próprio, para ele temível, seu Lulú, o todo poderoso dono do ônibus… O que há de certo, porém, é que, o ralho foi tão grande que, nunca mais, nenhuma criança se atreveu jamais usar o dito esconderijo.