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CANUTO FERRO DE ALENCAR

terça-feira, 29 de junho de 2010

Canuto Ferro de Alencar
José Maciel

Crônica publicada em “A VERDADE” em 18/04/1972 – Seção “O velho Torrão – n. 166

Eu não saberia dizer o tempo certo em que chegou a Baturité esse sujeito metódico, determinado, constante e simples que foi Canuto Ferro de Alencar.

Também não juraria, mas tenho cá como certo, ter vindo das bandas do Amazonas, terra misteriosa onde se é obrigado a ser e saber de tudo, como acontecia ao magrelo incansável, surgido de surpresa na cidade a qual tomou como sua, servil, e se não deu nenhum privilégio, indiscutivelmente concedeu um notável título de divulgação, através dessa entidade famosa pelo Brasil inteiro – a “Pensão Canuto”.

No sobradinho da Praça Santa Luzia, parede meia com o major Pedro Mendes, outrora pertencente às irmãs Pinto, gente de boa felpa, ligada a história social da Cidade, ali, após esbarros de acomodação, esbarrou seu Canuto, acredito que um pouco antes desses dias tristes que foram os da terrível seca de Quinze.

Entrou e ficou, pois o homem, primando pela constância, instalou no interior do sobradão arcaico a sua miniatura de amazonas, e começou a trabalhar.

A pensão constituía-se em espinha dorsal da economia. A ela, depressa, juntaram-se pequenas indústrias exploradas com persistência e seriedade.

Além dessa habilidade já considerável, Seu Canuto tinha tempo para fazer valer certo jeito de lidar com algarismos. Não sei até onde ia esse pendor, mas admito que quando o conheci dando um expediente no escritório de Raimundo Viana, ocupava-se em contas-correntes.

Tal habilidade explica, certamente, a presença do hoteleiro na Coletoria Federal, ao tempo em que era titular da repartição o Doutor Virgílio Ramos.

Por esse tempo, nos fins de ano, o processo arcaico de arrecadação dos impostos federais tornava o serviço exaustivo, impondo a contratação de auxiliares até que superada a pletora de serviços.
Veio daí, muito provavelmente, o encontra-se Seu Canuto, naquela fase trabalhando na tarefa de arrecadação.

Virgílio Ramos, o Coletor, filho de respeitável e antiga família baturiteense, era um temperamento esquisito. Retraído, cauteloso, não tomava parte em nenhum movimento social, embora fossem gerais os encômios ao seu talento, à sua cultura. Muitas vezes ouvi tais louvores de Júlio Maciel, seu antigo companheiro de pensão, nos tempos de estudante.

Canuto impunha-se, pois, à confiança do Doutor Virgílio e, dessa sorte, tinha, além das outras fontes, esse ganchinho na Coletoria Federal, a que se obrigava exatamente no último trimestre, quando a fumaça das queimadas e o rechino das cigarras anunciavam a proximidade com o ano novo.

Pois bem. Uma tarde, voltando do almoço, apressado o hoteleiro, com os miolos queimando, ao chegar à porta da Coletoria encontrou-a fechada à chave. Não era possível esperar. Aperreado bateu. Nem um sinal de vida. Bateu com mais força e já ia bater outra vez, quando viu por escassa abertura de uma polegada, se tanto, qualquer forma cilíndrica brilhando ao sol. Esticando bem o pescoço, comprovou alarmado – era um cano de revolver. Mais que a pressa, grita: “é o Canuto, doutor…”. Virgílio abre a porta, explicando discretamente “que a época é de muito dinheiro no caixa da repartição… ninguém pode adivinhar… toda cautela é pouco.
Canuto entra, retoma a tarefa e a comédia se encerra.