Único filho homem, e caçula do comerciante Antônio Maciel e de dona Marcelina Bonates Maciel, esse baixinho, muito branco, olhos azuis cintilantes, tímido, introvertido, aparentemente mal humorado, dono de um campo consciente excessivamente amplo, nasceu a 17 de abril de 1896 em Baturité onde estudou as primeiras letras.
A primeira viagem a capital do Estado em 1909, marca sua vida de intelectual. Tinha treze anos. Seu pai o matricula no terceiro ano primário do Instituto Borges, do professor Odorico Castelo.
Em Fortaleza divide seu tempo, entre o semi-internato e a casa de sua prima Maria Maciel, filha de seu tio Manoel Felício, antigo Coronel Franco Atirador da Campanha do Acre, seringalista, assassinado no Amazonas por questões políticas.
Somente um grande sentimentalista como José Maciel pode descrever a dor de um filho caçula longe da mãe e, que, sendo quase homem feito não pode mostrar a “fraqueza” de chorar na frente dos primos, dizendo:
“Maria morava com a mãe e o irmão, Manoel Felício Filho, no Bulevar Visconde do Rio Branco. Ali morei dois anos que alias marcaram minha primeira ausência da casa paterna, ausência povoada de lágrimas escondidas e aflitivas saudades, muito particularmente de minha mãe – o querubim daqueles inocentes dias.”
José Maciel, com quinze anos voltou a Baturité, “muito compenetrado no papel de comerciante, tomando conta da loja do pai, na antiga Rua do Comercio”. Daí em diante, na terra natal, foi figura de destaque em todos os movimentos sócio-culturais que fizeram época na cidade nos anos 20 e 30.
A gratidão pelo professor Odorico Castelo Branco se distingue nos elogios ao mestre: “educador nato, homem de rara têmpora, culto, honesto, digno por todos os títulos”. Naturalmente o grande educador de Fortaleza foi quem o deu a instrução que fez do José Maciel, também, professor de português e francês no Colégio das Irmãs, e, depois, contador, duas atividades garantidoras da boa vida que desfrutava, sem depender de ninguém, na sua cidade.
Grande colaborador das escolas, associações de classes e movimentos de caráter cívico, mas como ninguém é de ferro, no avanço da noite, Maciel, também gostava de se entregar ao agito da Boemia Serrana, agregação recreativa da rapaziada de Baturité, cidades vizinhas e, povoados da serra.
Da boemia Serrana, ficou devendo maiores detalhes. Sobre esse agrupamento, na coluna “DE LONGE” (A VERDADE. 25/101964), circunspeto, ele confia à missão a Augusto Franco: homem daquele tempo, inteligência viva, amigo que foi de Cândido Taumaturgo e Pedro Catão, pessoa certa para entrevistar os remanescentes da turma, e, desse modo, se precaver para que o tempo não sepultasse assuntos, figuras, costumes, glorias e lendas queridíssimas vividas, entre 1900 à 1920, por aquela moçada, contumaz freqüentadora do bar do Zé Bonates, de onde saíam a promover festas dançantes exuberantes.
Os “últimos tamoios” daquela época fagueira, o capitão Pedro Lopes Filho e o poeta Benigno Pereira, este por lirismo e aquele por sisudez, provavelmente, talvez, não colaboraram neste sentido, ou, de outra forma, Augusto Franco, nunca os entrevistou. O certo é que ficaram, mesmo, no blecaute as coisas deliciosas que aqueles moços de gola alta e chapéu de coco viveram.
Humberto de Campos, então visitante ilustre das plagas serranas, naturalmente, se referia aos membros da Boemia Serrana, quando descreveu um grupo de moços que ele viu por ocasião de uma festa religiosa na matriz da Conceição – hoje Guaramiranga:
“Ao amanhecer, as duas ruas da cidade começaram a encher-se de povo. De instante em instante estacava a porta do hotel ou das casas de comércio um grupo de cavaleiros, vindos das fazendas do sertão, ou dos sítios próximos para o culto da padroeira. À sombra de cada arvore, nitriam cavalos selados, patenteando a fortuna do proprietário no luxo bárbaro dos arreios”.
Sendo de fora, o poeta maranhense não podia jamais imaginar quantos perfeitos namoros, noivados e casamentos começaram nos bailes promovidos pelos ditosos cavaleiros da Boemia Serrana, se ele fosse, quem sabe, filho do querido burgo, ninguém melhor contaria as coisas nunca chegadas às gerações consecutivas.
A juventude baturiteense de seu tempo deve a José Maciel a idéia de livrá-la da dependência dos salões das casas de famílias para a realização dos bailes que promovia. Essas festas, antes nas residências, passaram a ser realizados na Associação Comercial de Baturité. Desta, Maciel foi seu eterno orador e secretário.
A Associação Comercial passou a ser o palco dos grandes bailes da cidade inclusive das festas carnavalescas. Abrigou durante muito tempo o Baturité Atlético Clube de saudosa memória. É de fazer chorar as saudades das festas de carnaval, quando, em determinados momentos, os foliões, em cordão, a pular marchinhas, saiam, em cordão, do salão principal cimentado, para, no assoalhado da sala vizinha, através de coreografia rústica, tirava dos passos, barulhos que obedeciam a cadência da música.
À frente dos sonhadores de seu tempo, na época em que ninguém pensava o excursionismo como atividade econômica, pioneiro, José Maciel, falava do potencial turístico do maciço. Além das potencialidades da Serra, defendidas em diversos artigos, José Maciel, era admirador incondicional da Pedra Aguda, na sua crônica publicada no “O Jornal”, em 17/10/58, assim se referia ao rochedo:
“(…) penhasco colossal, monumento ciclópico isolado em meio à planície a pureza atmosférica emprestava ao penedo um azul magnífico’’.
E acrescentava, num recado para as autoridades:
“Amanhã talvez uma estrada bem cuidada comece a levar visitantes ao pé do monólito formidável, para experimentar uma emoção daquela grandiosidade que impõem-nos à alma assustada com fascínio irresistível das coisas eternas.” (…) “E depois quem sabe? Baturité começará a ser um centro de atração turística”.
Na década de 1930, José Maciel se muda para Fortaleza, monta escritório de contabilidade na Rua do Rosário, sendo o primeiro contador da cidade a dominar a contabilidade como ciência.
Pelo enlevo dedicado à história da família, escreve “Um Episódio Memorável”, magistral obra, inédita, relatando minudências sobre as figuras de Miguel Carlos e Helena Maciel, os irmãos heróis da guerra da família Maciel contra os Araújos de Boa Viagem.
Sob a supervisão do filho Pedro Alan Mendes Maciel, advogado, intelectual, residente no Rio de Janeiro, a Editora Aula, daquela cidade, publicou “Minhas Idéias”, crônicas antológicas de José Maciel que salvam da “calígem do tempo”, uma imensidade de assuntos inolvidáveis publicadas durante anos no jornal “A Verdade” de Baturité.
No “O Jornal” de Fortaleza desenvolveu em 1958 um trabalho intitulado “Tipos Populares de Baturité”. Em várias crônicas imortalizou as figuras estranhas do seu tempo com o Seu Asa, a Boneca do Cão, o Seu Chiquinho Narciso, o Come Unha, o João Cururu, o Jorge Sinésio, o José Costa, o Manoel Elias, a Pinca Júlia, gente que, segundo ele, formaram, a seu tempo, o “colorido forte que anima o conjunto de uma sociedade humana”.
Eclético, José Maciel não se deixava levar por modismo e ideologias importadas da época: fascismo, nazismo ou comunismo. Sua idealidade, também, mantinha distância do nacionalismo, às vezes cretino, dos brocardos como “minério de ferro é nosso” e “o petróleo e nosso”. Para ele, as riquezas minerais do presente, ao permanecerem debaixo da terra, inexploradas, corriam o perigo dos sucedâneos, daí a necessidade imediata de exploração, mesmo pelo capital de estrangeiros.
Outro assunto que o preocupava, era o enigma da segurança, o quebra-cabeça de ontem e de hoje, escreveu:
“De cada vez que a maré montante do crime perturba a tranqüilidade laboriosa dos que se afadigam na labuta cotidiana, cresce na alma do povo uma dúvida silenciosa quanto ao que possam ainda fazer as autoridades responsáveis pela segurança pessoal dos cidadãos, ameaçada no sertão como na capital, na rua, como dentro do próprio lar.” Ao mencionar seu pensamento sobre a pena de morte, outro mito atual, assim se pronunciava: “na verdade é doloroso que se condene um homem à morte. Mas (é aqui que surge o dilema) para onde mandará a justiça o homem frio, insensível e cruel, que martiriza um anjo inocentíssimo, uma pobre criança de apenas quatro anos de idade?”.
Na década de 60 transferiu-se de Fortaleza para o Rio de Janeiro, onde, também viveu da contabilidade, mas sem abandonar a atividade literária. Homem de letras, historiador, jornalista, continuou colaborando com os jornais de Fortaleza e, principalmente, com semanário “A verdade” de Baturite assinando as colunas “De Longe”.
Sua esposa, e prima legitima, era dona Felícia Mendes Maciel – LICINHA – filha do major Pedro Mendes Machado e dona Maria Maciel Mendes Machado, portanto cunhado do Mário Mendes, do alto comercio de Baturité e Fortaleza.
José Maciel era irmão de dona Maroca, parteira que acompanhou milhares de partos na década de 1940, mãe do Arivaldo Maciel e José Alci de Paiva. As outras duas irmãs de José Maciel eram Dona Idália e Neném, inuptas, ambas foram professoras em Baturité e depois em Fortaleza.
José Maciel morreu no Rio de Janeiro em 1980, deixando os seguintes filhos:
– José Ephebo Mendes Maciel
-Tânia Maciel D’elia.
– Atila Mendes Maciel
– Pedro Alan Mendes Maciel
– Antonio Wilson Mendes Maciel
Sou filha de ZULINDA SALES BONATES e neta de ZULMAR BONATES DA CUNHA.Meu avô nasceu em 3o/08/1902 em BATURITÉ, era primo de D. Maroca.Tive o prazer de conhecer tio ARIVALDO E TIA VALDÍVIA em02/1982-Fortaleza, Aldeota/rua Leonardo Motta n- 545.Ele esteve em Manaus/ 1984.A útima vez q nos vimos foi 09/1993,daí, minha tia se foi e ele dois anos depois.Moro em Vitória/ES.
Salve Mario Jr!
Acabei de ouvir o seu recado. Obrigado por ter ligado! Lamento muito não poder ter atendido, acabei dormindo mais do que a cama nesse domingo… Obrigado também pelo belo perfil do meu saudoso avô e parabéns pelo blog.
Agora você tem o meu e-mail e nós vamos poder nos comunicar com mais assiduidade.
Beijos e abraços em você, na Verinha e em todos por aí!