Arquivo da Categoria ‘Filhos de Baturité’

SAUDADES DO CRATO

sábado, 15 de maio de 2010

No século passado viveu em Baturité, o imigrante sírio Elias Salomão comerciante de tecidos na Rua Sete de Setembro, no mesmo local onde muito depois funcionou a loja de Montezuma Peixoto.

Em 1934 o Sr. Elias Salomão, deixa sua Casa Síria, de Baturité, sob a gerência de Sr. Abel Pereira, e segue para o Crato a fim de gerenciar uma loja de Aziz Jereissati.

Quando viajou, Sr. Elias a pedido do seu amigo e compadre major Pedro Mendes, levou o filho deste Mario Mendes, para que, como empregado, aprendesse a arte de comprar e vender, coisa que o sírio já trazia no sangue.

Na abençoada região do Cariri, o recém chegado Mário se seduz com a beleza da Chapada do Araripe, que, como dizia o poeta, era coberta pela floresta donde jorram nascentes de águas puríssimas.

Rapaz de boa aparência e distinto, enquanto se enleva pelo lugar, cativa as colegiais, que não eram poucas, e, por causa delas, fica mais propenso aos namoros do que ao trabalho.

Por esse tempo também se encontrava no Crato, seu primo Heitor Maciel, que fora mandado, pela mãe, dona Emília Maciel, para lá se empregar, naturalmente a contra gosto do filho, como caixeiro nas Casas Pernambucanas, para que, dessa forma, deixasse de mão suas idéias comunistas.

Inconformado com o pouco tempo que lhe sobrava das obrigações para as farras e para a liça de combate aos integralistas apelidados de galinhas verdes, Heitor passou a odiar ao maldito balcão de loja, que não tinha nada a ver com seu gênio que nunca teve de se sujeitar a qualquer tipo de horário.

Mario e Heitor, pouco demoraram no Crato. Mario por se achar já capaz de suceder o pai, que, por sua vez, já queria lhe entregar a loja, e, Heitor, por que: “em sonho, ouviu a sua mãe chorando a lhe chamar”!

Em data combinada os dois pegaram o trem para Baturité. Numa madrugada de céu estrelado, no silencio só perturbado pelo movimento da estação, os dois, já acomodados no carro, passam a relembrar os momentos de liberdade na companhia de tantos e tantas de quem nem sequer se despediram.

Quando o agente ferroviário autorizou a partida com o tocar do sino, ao primeiro sopapo da locomotiva, os dois ficaram se olhando, e, ao mesmo tempo, recitaram parte da poesia do poeta popular Zé de Matos, quando, uma vez, deixou a terra amada:

Adeus! Cidade do Crato.
Quereres da minha vida,
Levo saudades de ti,
Rapadura e rapariga.

UNIVERSIDADE VALE DO ACARAÚ EM BATURITÉ

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

UNIVERSIDADE VALE DO ACARAÚ EM BATURITÉ

Mario Mendes Junior

Nas décadas 1930-1950, com a instalação de estabelecimentos religiosos de ensino – jesuítas, salesianos e irmãs de caridade – Baturité, em três décadas, exportou dezenas de milhares de humanistas, nativos e de fora, para alcançar maior instrução nos grandes centros.

Na transição dos séculos XX e XXI, a iniciativa de trazer uma unidade da Universidade Vale do Acaraú ao Maciço de Baturité preencheu uma lacuna no justo lugar que há anos clamava por uma ação que pudesse preservar sua vocação cultural.

A Câmara Municipal, nesta dada, 14/12/2009, ao outorgar o titulo de Cidadão Baturiteense, agradece enquanto reconhece o Sr. Adegildo Ferrer, como o mentor que fez de Baturité a sede da faculdade que já formou centenas de jovens inteligentes que não precisaram mais sair para estudar nas capitais de onde não voltariam.

Para escolher Baturité como sede de Faculdade da UVA, o mestre do ensino superior atendeu a reivindicação da professora Gracinda Calado que, na ocasião, recomendou a também professora Nina Moreira Viana para ajudá-lo no procedimento de implantação e identificação de cursos de acordo com a necessidade do município.

A cidade ao adotar Adegildo Ferrer, agora tem mais um novo filho ilustre, e muito, capaz de mostrar-lhe que A EDUCAÇÃO É O MELHOR CAMINHO PARA O DESENVOLVIMENTO.

Um Certo Cabo Naurício

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A SUSPEIÇAO

A Revolução de 1930, distanciada do ideário tenentista, nomeou o civil Fernandes Távora primeiro interventor do Ceará. Desses que distribuem os privilégios do cargo de acordo com os interesses clientelistas, o dito, tradicional politiqueiro, também fazia uso da intransigência para acusar e perseguir aos que não rezavam pelos “estatutos” de sua facção política.

O diminuto período de oito meses em que esteve à frente do governo só lhe serviu para acossar, desarmar, prender e reabrir processos criminais esquecidos no tempo, principalmente, é claro, quando os incriminados não pertenciam seu grupo oligárquico.

Para falar a verdade, além de prejudicar os outros, tal interveniente nada realizou.

Sem mostrar a cara, em Baturité, ele resolve jogar duro com dois líderes da passeata de janeiro de 1912, durante a qual o delegado Manoel do Rego Falcão, foi morto com um tiro no pescoço. Um crime, perpetrado há justos dezoito anos, sem solução, por absoluta falta de provas da autoria.

Como as aparências do delito respingavam suspeição nos cidadãos Júlio Severiano da Silveira e Francisco Mendes Machado os dois não escaparam da sanha do justiçoso.

Vítima de pistolagem, Julio Severiano da Silveira enquanto bebia no bar do cinema local foi alvejado por um tiro que Antonio Ramos, arrendatário do referido bar, lhe deu à traição. Durante muito tempo prostrado pelo balaço que o atingiu na coluna, Julio, nunca mais se levantou. Depois de sua morte a viúva, dona Honorina Maciel Severiano, renunciando aos recursos familiares, mudou-se para Fortaleza, onde conseguiu, a duras penas, com o suor do seu rosto, educar seus filhos, Dr. Lauro Maciel Severiano e Laysce Severiano Bonfim.

O infortúnio de Francisco Mendes Machado saiu da caneta do implacável interventor: foi exonerado do emprego de Coletor Estadual.

Inapto para o comércio, depois da exoneração Chico Mendes, como era conhecido, fracassa como lojista e, em seguida, como dono de caminhão de cargas, dois negócios montados com a fiança do tio major Pedro Mendes Machado.

Depois de passar maus bocados em Baturité, pai de grande família, Chico Mendes só consegue, mesmo, ter uma vida digna quando se muda para Fortaleza, ocasião em que os sete filhos vão se acomodando em diferentes atividades de labor, principalmente, com a orientação da mãe Noemi.

PRIMEIRO EMPRÊGO

Naurício Maciel Mendes, um dos filhos, de Chico Mendes e Noemi, estudante do Colégio Militar de Fortaleza, devido à nova situação financeira, que criaram para o pai, tranca sua matricula.

Através de ex-professor, major Coutinho, se emprega como desenhista do IFOCS – Instituto Federal de Obras Conta as Secas, sendo lotado na “frente de serviços” destinada a empregar os flagelados da seca de 1932 que construíam a rodovia Fortaleza-Russas.

No ano seguinte, com a suspensão da obra, Naurício perde o emprego, mas, antes de sair de Russas, consegue montar, ali, uma célula da Juventude Comunista, entidade atrelada à Secção de Fortaleza da Juventude Internacional Comunista de Moscou, também, fundada por ele juntamente com os primos Heitor Maciel, Pedro Wilson Mendes e outros.

PELOS CAMINHOS DA FARDA

Uma vez de volta a Fortaleza, inclinado para a carreira militar, Naurício Mendes se alista, como voluntário, no Batalhão Ferroviário de Mato Grosso. No final de 1933, se despede dos parentes e amigos na Ponte Metálica da Praia de Iracema, onde embarca num “Ita” para São Paulo, em busca de conexão para Cuiabá.

Ao desembarcar no porto de Santos, Naurício, por coincidência, se depara com outro ex-professor do Colégio Militar, o capitão Silva Barros que o convence a desistir da incumbência de Mato Grosso. Em atenção aos conselhos do mestre, senta praça como soldado raso na Segunda Formação de Intendência Divisionária de São Paulo, no bairro da Barra Funda, onde, dentro de pouco tempo é promovido a cabo.

O baixo soldo de cabos e sargentos, além da regra do Exército, que, depois de algum tempo os dispensavam de suas fileiras, fez com que Naurício, aos 22 anos, solteiro, resolvesse estudar para os preparatórios de acesso à Escola de Aviação do Exército, e, dessa maneira, continuar trilhando os caminhos da farda.

LUIS CARLOS PRESTES

Na segunda metade da década de trinta, apavorada com a ascensão da Alemanha, a III Internacional Comunista, que antes não admitia parcerias com terceiros, resolveu conviver com frentes alheias ao bolchevismo, desde que, estivessem dispostas a combater o nazismo. Foi por essa brecha que Luis Carlos Prestes, Presidente de Honra da Aliança Nacional Libertadora, mergulhou no Partido Comunista Brasileiro.

O Partidão acreditava na influência de Prestes junto à tropa, para angariar a adesão de boa ala de tenentes, sargentos e cabos do exército dispostos a apoiar uma iminente Greve Geral, futuro embrião de um levante militar. Com o entusiasmo dos relatórios enviados à Moscou, até, a III Internacional via com bons olhos a incentivava do levante no Brasil.

A INTENTONA

Escolhido o dia 23 de novembro de 1935, como o momento certo para começar o movimento, na verdade, os lideres aliancistas se precipitaram. Eles não sabiam, que, por outro lado, Getúlio Vargas, tomava conhecimento de todas as suas ações.

Como o Ditador já aguardava o levante, não somente o sufoca como, ainda, ordena a prisão de centenas de pessoas envolvidas ou não na “subversão”.

Depois dessa Intentona Comunista, o governo pratica uma verdadeira “caça as bruxas” e acende uma página de sangue e muita traição na História do Brasil.

ESTADO DE TERROR

No Rio de Janeiro, então capital do Brasil, dentro do estado de terror, se sobressai a ação de Felinto Muller chefe de polícia de Getúlio, pelo modo violento como conduziu a repressão. Uma insânia que deixou a marca de sadismo da “autoridade” no trato dos considerados inimigos do regime.

Carlos Prestes é preso e sujeito a um isolamento total; sua esposa Olga Benário é deportada, teve uma filha na cadeia, morreu num campo de concentração na Alemanha.

Artur Evert, ex-deputado alemão, que fora enviado ao Brasil pela Internacional Comunista, é descoberto e apreendido pela polícia – durante sua prisão foi tão brutalmente torturado que enlouqueceu. Sua mulher foi estuprada por policiais diante dele. O advogado Sobral Pinto, mesmo sendo anticomunista, tentou melhorar as condições do alemão, na prisão, enquadrando-o na lei de proteção aos animais.

O PRESÍDIO MARIA ZÉLIA EM SAO PAULO

Armando Sales, interventor paulista, pré-candidato à Presidência, na esperança de suceder Getulio Vargas no mandato que terminaria em 1938, para angariar o apoio do ditador adota, no seu Estado, o mesmo esquema de Felinto Muller no Rio.

O quartel general da repressão “armandista” era o Presídio de Maria Zélia. Situado em uma zona ribeirinha e pantanosa, cheia de mosquitos, responsáveis pelo surto de impaludismo nos cortiços das cercanias, portanto, um lugar dos mais insalubres da capital paulista. O vento, a chuva que entravam pelas janelas gradeadas, e as águas que escorriam pelas goteiras do teto tornavam o ambiente, ainda, mais úmido, gerando na prisão, focos de infecção, onde somente alguns presos excepcionalmente fortes resistiam à gripe, ao reumatismo e a ciática -, males contraídos nas péssimas condições carcerárias, agravadas pela má alimentação. Do cardápio, arroz com feijão e café com pão, as sobras de comida eram reaproveitadas nas refeições seguintes.

No Presídio Maria Zélia, porém, o mau trato, era seu o ponto mais forte. Naquele “Estado Maior das Grades”, de tantos, contam-se, a seguir, os tormentos que se sabem: o gráfico Manoel de Medeiros, dali saiu para ser operado de úlcera no estômago – morreu de “moléstia súbita e indeterminada; o martírio carcerário fez o comerciário de nome Barreiros tentar o suicídio no desespero de uma sinusite sem tratamento; por sofrimento o gráfico Meireles contraiu uma ciática; pelo mesmo mal o iugoslavo Yedo Gratz, foi levado a Santos, e, depois, jogado dentro de um navio de volta a sua terra natal; tomados pela agonia Durvalino Peixoto, Marcílio Arruda e outro homem, enfraqueceram na masmorra e acabaram num leprosário onde morreram lentamente.

QUADRO DE AUTORIDADES

A hierarquia do Presídio Maria Zélia, exposta num quadro em letras garrafais no corpo da guarda, era encabeçada pelo próprio interventor Armando Sales, depois pelo Cardoso Melo Neto, a seguir pelo Comandante da Guarda Civil, e, no mais, por uma serie de nomes exóticos, como Kaufman, um alemão, que, imperava ali com a mesma desenvoltura de um oficial nazista. Sua guarda era constituída de mercenários, também estrangeiros, especializados em tortura, chefiados por um russo de nome Gregório Kovalenko, elemento da confiança do interventor.

A PRISÃO DE NAURÍCIO

No dia 21 de dezembro de 1936, Naurício Maciel Mendes, sob a acusação de ser comunista, recebe ordem de prisão do delegado Ergas Botelho, de sangrenta memória, e, é entregue ao Presídio de Maria Zélia onde já encontravam inapelavelmente encarcerados mais 26 rapazes imaturos, como ele, todos presos políticos.

TENTATIVA DE FUGA

Vivendo no maior desamparo, há meses nos cubículos do calabouço, sem a mínima perspectiva de julgamento, era de se prever, que fosse traçado um plano de fuga. Construíram um túnel, e, para escapar, escolheram a madrugada do dia 21 de abril de 1937.

Para atingir o buraco eles tinham que atravessar o pátio do xadrez. Nessa travessia eles são vistos pelo guarda sentinela. Este, de carabina em punho, consegue impedir a evasão. Segue-se o soar do alarme. Daí uma chuva de balas de metralhadoras. Todas disparadas para o ar. A fuga é reprimida de uma vez por todas. A propósito, até aí, nenhum dos prisioneiros foi atingido.

Dominados pela guarda, que já conhecia o plano da fuga – informada por elementos de espionagem infiltrados entre eles – os jovens foram colocados no pátio sob a mira da guarda.

Naquela ocasião, os presos Valdemar Schultz e Celso Nascimento Rosa, estirados por terra, foram obrigados a roer o cimento do piso com os dentes. Postos de pé um guarda os obrigava a pular mediante tiros nos pés. Uma bala atinge o pé esquerdo de Schultz. Outros rapazes foram colocados em fila, revistados e surrados como animais e logo depois, divididos em três grupos. Os dois primeiros grupos foram escoltados às selas sob agressões físicas.

O terceiro grupo, do qual faziam parte, Naurício Mendes, João Verlota e Antonio Danoso Vidal, Augusto Pinto e José Constancio da Costa, escolhidos, pelos guardas estrangeiros, permanecem no pátio. Eles foram apontados pelos espiões como cabeças do movimento.

Gregório Kovalenko, barbaramente, manda espancar Naurício para obter, dele, informações sobre oficiais comunistas dentro das forças armadas. Sabia que Naurício sendo um jovem inteligente e correto, tinha muitos amigos, entre os quais militares com patentes muito acima da sua. Apesar das torturas que lhe abalaram a resistência Naurício honrou seu nome sem a ninguém entregar.

A SINISTRA VIOLÊNCIA

Kaufman, o alemão comandante da guarda, que a tudo assistia, resolve ir à secretaria, para, de lá, telefonar para o chefe de polícia. Depois de dialogar com aquela autoridade, retorna ao palco da tortura. Trazia ódio na cara de bandido. De repente envia um aceno fatal para Gregório Kovalenko.

O verdugo russo, que já tinha uma escolta pronta, ordena o fuzilamento dos cinco apontados. Verlota, Danoso, Augusto e Constâncio, cosidos pelas balas, morreram instantaneamente. Somente Naurício não morreu de pronto. Estirado no chão, arquejante, quando os guardas verificaram que ainda respirava, receberam ordens do carrasco Kovalenko para lhe tirar a sobrevida a coronhadas de fuzil. A sinistra violência lhe mutilou a fronte e lhe arrancou uma orelha.

EPÍLOGO

Meses depois, em Fortaleza, na casa dos pais, num dia de imensa tristeza e revolta, chega pelo correio um recorte de jornal anônimo contando O FUZILAMENTO NO PRESÍDIO MARIA ZÉLIA que terminava dizendo:

“Vitima do “armandismo” paulista, dentre os fuzilados, conta-se em maioria nortistas, e, dentre eles Naurício Mendes Maciel cearense ex-aluno do Colégio Militar, de Fortaleza, que servia na Segunda Formação de Intendência Divisionária de São Paulo, na Barra Funda”
.
Datada de 05/06/37, Dona Noemi, a mãe de Naurício, sobre o filho querido recebe uma carta de Atibaia-Sp, assinada por certa D. Sebastiana, terminava assim:

“… a sepultura do sempre lembrado Naurício tem o n. 177, quadra 77; eu e a moça que ele namorava sempre vamos visitá-la e sempre levamos flores para ele”.

A última lembrança do filho chega pelo vapor “Afonso Pena”: o espólio de Naurício.

O pai diante do tão pouco que restou do “bom queridinho” – assim chamava o filho – amassa no peito, molhado de lagrimas, o papel da carta que detalhava o fuzilamento do filho. O autor da missiva era um amigo, operário de São Paulo, que, ainda, ensaiou um protesto, ao publicar, contra os criminosos, um artigo na imprensa paulista comentando que:

“Só a perversidade sem peias, o ódio do Brasil estrangeirado de São Paulo, poderia produzir tamanha desumanidade! Mataram as alegrias de muitos lares brasileiros. Bandidos!”.

Com o passar dos tempos, soube-se que impune Gregório Kovalenko, ainda vivia numa fazenda no interior de São Paulo, Estado onde, ainda, explorava os trabalhadores humildes do campo.

O Cronista José Maciel (1896-1980)

domingo, 10 de maio de 2009

Único filho homem, e caçula do comerciante Antônio Maciel e de dona Marcelina Bonates Maciel, esse baixinho, muito branco, olhos azuis cintilantes, tímido, introvertido, aparentemente mal humorado, dono de um campo consciente excessivamente amplo, nasceu a 17 de abril de 1896 em Baturité onde estudou as primeiras letras.

A primeira viagem a capital do Estado em 1909, marca sua vida de intelectual. Tinha treze anos. Seu pai o matricula no terceiro ano primário do Instituto Borges, do professor Odorico Castelo.

Em Fortaleza divide seu tempo, entre o semi-internato e a casa de sua prima Maria Maciel, filha de seu tio Manoel Felício, antigo Coronel Franco Atirador da Campanha do Acre, seringalista, assassinado no Amazonas por questões políticas.

Somente um grande sentimentalista como José Maciel pode descrever a dor de um filho caçula longe da mãe e, que, sendo quase homem feito não pode mostrar a “fraqueza” de chorar na frente dos primos, dizendo:

“Maria morava com a mãe e o irmão, Manoel Felício Filho, no Bulevar Visconde do Rio Branco. Ali morei dois anos que alias marcaram minha primeira ausência da casa paterna, ausência povoada de lágrimas escondidas e aflitivas saudades, muito particularmente de minha mãe – o querubim daqueles inocentes dias.”

José Maciel, com quinze anos voltou a Baturité, “muito compenetrado no papel de comerciante, tomando conta da loja do pai, na antiga Rua do Comercio”. Daí em diante, na terra natal, foi figura de destaque em todos os movimentos sócio-culturais que fizeram época na cidade nos anos 20 e 30.

A gratidão pelo professor Odorico Castelo Branco se distingue nos elogios ao mestre: “educador nato, homem de rara têmpora, culto, honesto, digno por todos os títulos”. Naturalmente o grande educador de Fortaleza foi quem o deu a instrução que fez do José Maciel, também, professor de português e francês no Colégio das Irmãs, e, depois, contador, duas atividades garantidoras da boa vida que desfrutava, sem depender de ninguém, na sua cidade.

Grande colaborador das escolas, associações de classes e movimentos de caráter cívico, mas como ninguém é de ferro, no avanço da noite, Maciel, também gostava de se entregar ao agito da Boemia Serrana, agregação recreativa da rapaziada de Baturité, cidades vizinhas e, povoados da serra.

Da boemia Serrana, ficou devendo maiores detalhes. Sobre esse agrupamento, na coluna “DE LONGE” (A VERDADE. 25/101964), circunspeto, ele confia à missão a Augusto Franco: homem daquele tempo, inteligência viva, amigo que foi de Cândido Taumaturgo e Pedro Catão, pessoa certa para entrevistar os remanescentes da turma, e, desse modo, se precaver para que o tempo não sepultasse assuntos, figuras, costumes, glorias e lendas queridíssimas vividas, entre 1900 à 1920, por aquela moçada, contumaz freqüentadora do bar do Zé Bonates, de onde saíam a promover festas dançantes exuberantes.

Os “últimos tamoios” daquela época fagueira, o capitão Pedro Lopes Filho e o poeta Benigno Pereira, este por lirismo e aquele por sisudez, provavelmente, talvez, não colaboraram neste sentido, ou, de outra forma, Augusto Franco, nunca os entrevistou. O certo é que ficaram, mesmo, no blecaute as coisas deliciosas que aqueles moços de gola alta e chapéu de coco viveram.

Humberto de Campos, então visitante ilustre das plagas serranas, naturalmente, se referia aos membros da Boemia Serrana, quando descreveu um grupo de moços que ele viu por ocasião de uma festa religiosa na matriz da Conceição – hoje Guaramiranga:

“Ao amanhecer, as duas ruas da cidade começaram a encher-se de povo. De instante em instante estacava a porta do hotel ou das casas de comércio um grupo de cavaleiros, vindos das fazendas do sertão, ou dos sítios próximos para o culto da padroeira. À sombra de cada arvore, nitriam cavalos selados, patenteando a fortuna do proprietário no luxo bárbaro dos arreios”.

Sendo de fora, o poeta maranhense não podia jamais imaginar quantos perfeitos namoros, noivados e casamentos começaram nos bailes promovidos pelos ditosos cavaleiros da Boemia Serrana, se ele fosse, quem sabe, filho do querido burgo, ninguém melhor contaria as coisas nunca chegadas às gerações consecutivas.

A juventude baturiteense de seu tempo deve a José Maciel a idéia de livrá-la da dependência dos salões das casas de famílias para a realização dos bailes que promovia. Essas festas, antes nas residências, passaram a ser realizados na Associação Comercial de Baturité. Desta, Maciel foi seu eterno orador e secretário.

A Associação Comercial passou a ser o palco dos grandes bailes da cidade inclusive das festas carnavalescas. Abrigou durante muito tempo o Baturité Atlético Clube de saudosa memória. É de fazer chorar as saudades das festas de carnaval, quando, em determinados momentos, os foliões, em cordão, a pular marchinhas, saiam, em cordão, do salão principal cimentado, para, no assoalhado da sala vizinha, através de coreografia rústica, tirava dos passos, barulhos que obedeciam a cadência da música.

À frente dos sonhadores de seu tempo, na época em que ninguém pensava o excursionismo como atividade econômica, pioneiro, José Maciel, falava do potencial turístico do maciço. Além das potencialidades da Serra, defendidas em diversos artigos, José Maciel, era admirador incondicional da Pedra Aguda, na sua crônica publicada no “O Jornal”, em 17/10/58, assim se referia ao rochedo:

“(…) penhasco colossal, monumento ciclópico isolado em meio à planície a pureza atmosférica emprestava ao penedo um azul magnífico’’.

E acrescentava, num recado para as autoridades:

“Amanhã talvez uma estrada bem cuidada comece a levar visitantes ao pé do monólito formidável, para experimentar uma emoção daquela grandiosidade que impõem-nos à alma assustada com fascínio irresistível das coisas eternas.” (…) “E depois quem sabe? Baturité começará a ser um centro de atração turística”.

Na década de 1930, José Maciel se muda para Fortaleza, monta escritório de contabilidade na Rua do Rosário, sendo o primeiro contador da cidade a dominar a contabilidade como ciência.

Pelo enlevo dedicado à história da família, escreve “Um Episódio Memorável”, magistral obra, inédita, relatando minudências sobre as figuras de Miguel Carlos e Helena Maciel, os irmãos heróis da guerra da família Maciel contra os Araújos de Boa Viagem.

Sob a supervisão do filho Pedro Alan Mendes Maciel, advogado, intelectual, residente no Rio de Janeiro, a Editora Aula, daquela cidade, publicou “Minhas Idéias”, crônicas antológicas de José Maciel que salvam da “calígem do tempo”, uma imensidade de assuntos inolvidáveis publicadas durante anos no jornal “A Verdade” de Baturité.

No “O Jornal” de Fortaleza desenvolveu em 1958 um trabalho intitulado “Tipos Populares de Baturité”. Em várias crônicas imortalizou as figuras estranhas do seu tempo com o Seu Asa, a Boneca do Cão, o Seu Chiquinho Narciso, o Come Unha, o João Cururu, o Jorge Sinésio, o José Costa, o Manoel Elias, a Pinca Júlia, gente que, segundo ele, formaram, a seu tempo, o “colorido forte que anima o conjunto de uma sociedade humana”.

Eclético, José Maciel não se deixava levar por modismo e ideologias importadas da época: fascismo, nazismo ou comunismo. Sua idealidade, também, mantinha distância do nacionalismo, às vezes cretino, dos brocardos como “minério de ferro é nosso” e “o petróleo e nosso”. Para ele, as riquezas minerais do presente, ao permanecerem debaixo da terra, inexploradas, corriam o perigo dos sucedâneos, daí a necessidade imediata de exploração, mesmo pelo capital de estrangeiros.

Outro assunto que o preocupava, era o enigma da segurança, o quebra-cabeça de ontem e de hoje, escreveu:

“De cada vez que a maré montante do crime perturba a tranqüilidade laboriosa dos que se afadigam na labuta cotidiana, cresce na alma do povo uma dúvida silenciosa quanto ao que possam ainda fazer as autoridades responsáveis pela segurança pessoal dos cidadãos, ameaçada no sertão como na capital, na rua, como dentro do próprio lar.” Ao mencionar seu pensamento sobre a pena de morte, outro mito atual, assim se pronunciava: “na verdade é doloroso que se condene um homem à morte. Mas (é aqui que surge o dilema) para onde mandará a justiça o homem frio, insensível e cruel, que martiriza um anjo inocentíssimo, uma pobre criança de apenas quatro anos de idade?”.

Na década de 60 transferiu-se de Fortaleza para o Rio de Janeiro, onde, também viveu da contabilidade, mas sem abandonar a atividade literária. Homem de letras, historiador, jornalista, continuou colaborando com os jornais de Fortaleza e, principalmente, com semanário “A verdade” de Baturite assinando as colunas “De Longe”.

Sua esposa, e prima legitima, era dona Felícia Mendes Maciel – LICINHA – filha do major Pedro Mendes Machado e dona Maria Maciel Mendes Machado, portanto cunhado do Mário Mendes, do alto comercio de Baturité e Fortaleza.

José Maciel era irmão de dona Maroca, parteira que acompanhou milhares de partos na década de 1940, mãe do Arivaldo Maciel e José Alci de Paiva. As outras duas irmãs de José Maciel eram Dona Idália e Neném, inuptas, ambas foram professoras em Baturité e depois em Fortaleza.

José Maciel morreu no Rio de Janeiro em 1980, deixando os seguintes filhos:
– José Ephebo Mendes Maciel
-Tânia Maciel D’elia.
– Atila Mendes Maciel
– Pedro Alan Mendes Maciel
– Antonio Wilson Mendes Maciel

ZÉ PEREQUETÉ

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Para fugir dos olhos dos pais, e viver de maneira livre, vários jovens de Baturité, por volta de 1936, se cotizaram para fundar uma “república”’ – assim se chamava uma casa só de rapazes solteiros, que, no caso, transformaram a morada no ponto de entrada e saída dos matizes mais hilariantes do agito citadino.
Em Baturité a “republica” funcionou na praça Santa Luzia na mesma casa desocupada pela família de Elias Salomão que se mudara para o Crato seus inquilinos eram Mario Mendes, Mario Pinheiro, Francisco Mesquita Pinheiro, Audísio Lopes, José Francelino, Raimundo Campos e poucos alunos do colégio não residentes na cidade.

Em completa libertinagem, quatro anos durou a republica. Acabou-se quando os proprietários, José Maciel e Licinha, respectivamente genro e filha do Major Pedro Mendes, residentes em Fortaleza, resolveram vender o imóvel. O adquirente Francisco Pinheiro, um dos da casa, a pediu, porque se preparava para casar com Maria do Carmo Maciel Guimarães.

Sem ser morador, mas amigo desde a infância, dos que faziam a “república”, o faceiro Zé Perequeté, tornou-se figura indispensável nos movimentos da casa, principalmente, quando o assunto era seresta. O Zé era um tipo de gago, que cantando, era dono de boa voz.

De caráter refinado, as serenatas patrocinadas pela “república”, funcionavam de modo a se escutar apenas, os acordes dos violões de Audísio Lopes e José Amâncio acompanhando o cantar dos troveiros apaixonados. Naquelas noites de luar, o mais importante era o silencio, falar, só com a boca colada ao ouvido do outro. Emudecidos os amigos, até, tiravam os sapatos para evitar o menor zunzunzum, porque, do lado de fora, eles queriam sentir a namorada, a ouvir a música ao vê-los pelas frestas da janela. Por causa do seu gênio irrequieto e sendo um tagarela de marca maior, a figura do Perequeté passou a ser evitada por ocasião desse tipo de evento.

Ao descobrir uma acertada noite de seresta, para qual não foi convidado, só de mau, ao local onde o cantor recitava uma cantiga na presença dos companheiros emudecidos, o Zé chega de tamanco, o rústico calçado, sendo de pau, através do passo a passo barulhento do destemperado, acorda o dono da casa, que, de espingarda na mão “convida” o bando para ir andando.

Boêmio por vocação, soldado frustrado, por nunca ter se alistado ou servido em força nenhuma, vivia a gaguejar ações militares em guerras e revoluções nas quais nunca lutou; cárceres onde nunca foi preso; intimidade com prisioneiros políticos que nunca conheceu.

Assim em 1932, dizendo-se voluntário da Revolução Constitucionalista de São Paulo, passados alguns dias de sumiço, estando na beira da linha do trem, vestido numa farda emprestada, dizendo-se voltando de uma expedição militar, para a qual nunca partira, ao ser visto com uma gaiola na mão, Zé justifica-se, para o circunstante que o sabia na guerra:

- Não diga a ninguém que me viu… Estou aqui a serviço!

- Como a serviço? – perguntou o outro.

- Ta vendo esta gaiola… Vim pegar umas graúnas para o general comandante da guarnição.

Para outra mentira meteórica, Zé se aproveitou do episódio conhecido como a Intentona Comunista. “Dizia-se” largado como preso político, junto aos moscovitas, Pedro Wilson, Gregório Bezerra, Américo Barreira, Chico Viana e o Braga Alfaiate, de noite, no canto da cela, sentado ao chão, ele cai no sono. De manhã, quando acordou, esfregou os olhos com as duas mãos, e ao abri-los, para sua surpresa, se deparou com uma escritora famosa. Para dizer que ela estava mal sentada dizia:

- Olha lá as coxas dela!

Outra vez, “se viu” na Itália, lutando contra o nazi-facismo de Hitler e Mussolini. Sob o comando do marechal Mascarenhas de Morais ele “participou” da batalha que tomou o Monte Castelo das forças do eixo. Entrincheirado numa pedra, abraçado com um fuzil, em momentos intercalados, tomava posição de tiro:

- Cada tiro que dava, olha a lapa de alemão que caía!

Inapto para o trabalho, enquanto seus amigos seguiram suas carreiras, Zé Perequeté continuou nas farras. No Bar do Darli Paixão, vivia a enaltecer sua esperteza nos negócios, quando, na realidade, tais negócios só lhe traziam prejuízos e perseguição de credores.
Cultuava o humor, até quando se queixava da vida. Mal sucedido no amor, de bar em bar, dissimulava uma dor íntima, perguntando e ao mesmo tempo, respondendo aos amigos do copo:

- Vocês pensam que eu bebo é porque sou corno? Não, é engano. Eu bebo é para esquecer uma mágoa que trago aqui no meu peito!

- Mágoa de que, Zé? – perguntavam-lhe os circunstantes.

- Não sei, já esqueci – concluía, brincando com a própria amargura.

O Zé era assim, o vero fascínio que exercia na cidade vinha da sua capacidade de inventar, mas, a sua gabolice era isenta de charlatanismo ou embuste, na verdade ele não podia, nunca, ser comparado com um irresponsável torpe, mesmo porque, sua “torpeza” jamais ofendeu a alguém.