Politica de Baturité (II) Revista e Atualizada

        Nos últimos meses de governo do udenista Faustino de Albuquerque (1947-1951) o Ceará se agitava frente à iminente eleição de 1950 – para Presidente da República, senador, deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores. 

        Para presidente  – desta vez com voto secreto  – a seis meses do pleito os favoritos já estavam definidos: pelo PSD, Cristiano Machado, um desconhecido; pela UDN Eduardo Gomes, o brigadeiro antes derrotado por Dutra em 1945; pelo PTB Getúlio Vargas, apoiado por Adhemar de Barros (PSP).

        Para governador do Ceará a UDN saiu com o Edgar Arruda e o PSD com Raul Barbosa e Stênio Gomes (PSP) como vice.

        Em Baturité, como em todo interior, ninguém permite se ausentar da política roceira. Como tudo pode acontecer, depois de  uma excursão à Cachoeira de Paulo Afonso, dentre outros, os próceres do PSP, José Ricardo da Silveira, Mário Maciel Mendes, Francisco Mesquita Pinheiro, Oziel Farias Rabelo e José Farias voltaram da viagem respirando política. 

        Como o mapa político continuava marcado pelos caciques então engajados na UDN e PSD os viajantes resolveram mudar as regras do jogo. Pensando assim, ao invés de se compor com um coronel parido de gerações acostumadas a triturar a paciência do povo com a mesmice, ou, por outro lado de outro coronel que a tudo via sob o ponto de vista religioso, o grupo embarcou na idéia de Zé Ricardo: formar uma terceira força capaz de disputar a prefeitura.

       

        Mostrou-se melhor candidato o Dr. Álcimo Cavalcante Aguiar, chegado a Baturité em 1945. Médico pródigo e humano era o único clínico disponivel na cidade e no campo. Nas quintas feiras consultava de graça a todos que chegassem ao Ambulatório Santo Antonio da Irmã Clemência.

        A candidatura do Dr. Álcimo cresceu entre os comerciantes como José Mesquita, Alfredo Xavier, José Olavo Silveira; empolgou a mocidade liderada por Clélio Silveira Barros, Carlos Simões e Ademar Moraes Barros e, melhor, arrebata populares na sede e distritos.

        No comitê da Rua 15 de novembro, esposas, filhas, amigas do partido, treinavam analfabetos à escrever o nome, assim sem despesa, sem trabalho e sem nada, ganhavam cidadania. Diante de tanta vantagem alguns deles indagavam:

        – “Vocês tão querendo alistar nóis pra quem”?

        – Para o Dr. Álcimo, mas uma vez alistado, pode votar em quem quiser. Rebatia a voluntária.

        Empolgada com a faina do PSP, nesta só não trabalhavam funcionários públicos municipais e estaduais, isso, com medo de perder o emprego.

        No auge da campanha, fato nunca saído da memória do povo: de surpresa chegou à loja do Mario Mendes, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. O safoneiro “trazia no seu matulão”, Humberto Teixeira, o parceiro de “Asa Branca”, aspirante a uma vaga na Câmara Federal pelo PSP.

        Imagine-se o brilho do comício improvisado, em frente à loja Nova Aurora. Num dia de feira, entre discursos inflamados a matutada viu o Gonzagão cantar resfulegando a sanfona. Brincando com um serrano que passava montado numa burra, o cantor sai com o recado:

        – “Te apeia Mané Besta! Pra quando tu chegá em casa… Dizer… eita muié… lavei a égua… num é que vi o Gonzaga cantá!”.

        Da conquista o caminho é excitante, desta a certeza de vitória  chegou a ponto de  Zé Mesquita (PSP), candidato a vereador  mandar amigos descarregar votos em outros candidatos. Ele mesmo já estava eleito!   

          Favorito nas apostas, antes não haviam pesquisas, o Dr. Álcimo deixou de sê-lo quando os antes rivais João Ramos (UDN) e Ananias Arruda (PSD)  coligados entre si investem contra o PSP. Em cima da hora os dois coronéis  adequaram seus interesses mútuos no nome de Hermenegildo Furtado Filho, comerciante fora da política, mas visto como o  único candidato a prefeito capaz de enfrentar a fúria concorrente.  De Hermenegildo, além do mais, a afinidade com Ananias não desgostava aos próceres João Ramos, Raimundo Viana, Francisco Saraiva Xavier (1), este postulante a um assento na Assembléia Legislativa. 

          No dia 3 de outubro, o eleitor mais distante da sede encheu a casa do Mario Mendes que lhe preparou farto almoço.  Enquanto comiam recebiam envelopes contendo chapas pessepistas. Da casa cheia - cozinha, quintal e quartos  -  afinal o mesmo povo vindo de longe fez de Mario (PSP) o vereador mais votado.

           Falar em Dr. Álcimo, este, não obstante a nobreza do seu opositor, perdeu a eleição vítima do trabalho de boca de urna. O troca-troca de chapas correu frouxo. O Dr. Saraiva, com o “três oito” na cintura e o bolso cheio de cédulas  liderava o mau costume.

        Da apuração a diferença pró Hildo Furtado foi superior a 1800 votos. Da coligação se elegeram os vereadores: Francisco Rosuel Dutra Ramos, Raimundo de Sales, Raimundo Arruda, Rufino de Sousa Barros, Raimundo Viana, Francisco Francelino de Oliveira; do PSP Mário Mendes, Oziel Farias Rabelo, José Aloísio Justa.

        Hermenegildo Furtado (2), promessa de grande prefeito, antes de assumi, morreu vítima de acidente de carro.

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            (1) Francisco Saraiva Xavier, médico, elegante de estatura acima da média tinha a pele cor de oliva que lhe dava um ar de sultão.

           Ganhou reputação de bom cirurgião operando, sem parar, dezenas de pacientes de todo Maciço no consultório da Rua 15 de novembro.   

           Saraiva casou-se com Leni, moça bonita, educada,  desejada e admirada pelo seu porte de diva  do cinema e, mais ainda, por ser uma Dutra-Ramos, família que, por si só, possuía a força econômica e política para torná-lo deputado.

           O Dr. Saraiva apesar de cratense elegeu-se deputado pelo eleitorado de Baturite. 

           Na política, impulsivo e impetuoso,  ao se impor pelo talento inato, se distinguiu pela intrepidez.

           (2) A morte prematura de Hildo provocou nova eleição, nesta Miguel Edgy, venceu a José Ricardo.

A Política de Baturité (I) Revista e Atualizada

         

           No governo (1947-1951) do Faustino Albuquerque (UDN) a política pegou fogo quando  a Assembléia elegeu Menezes Pimentel (PSD) para seu Vice-Governador.

         Em desforra à atitude do colegiado, Faustino (UDN) decidiu jogar duro contra os rivais. Fez uso da máquina do estado para derrotar o PSD nas próximas eleições municipais. Nesta intenção, designou Raimundo Raul Correia Lima para cumprir segundo mandato (1947-1948) como prefeito de Baturité.

         A primeira gestão (1944) a relação de Raul Correia com Ananias Arruda não foi de convívio, mas de confronto. Dessa maneira de tanto encarar o Comendador o saldo não deu outro: em menos de cinco meses foi exonerado.

         Como se vê Raimundo Raul tinha pretextos para execrar o manda-chuva. De tal modo, com o poder na mão, “disse prá que veio”: com Raimundo Viana vencer o antigo rival.    

         Em livro da sua lavra Raul conta como ajudou Viana a deitar abaixo o contendor: nomeou dezenas de professoras e ajustou Chico e Sales a emancipação de Capistrano. Revela, ainda, como se valeu da glória udenista do coronel João Ramos Filho, bem como do genro deste, o Dr. Francisco Saraiva Xavier, afoito aspirante à Deputado Estadual.

         Daquele pleito a amplidão do nome do capitalista ensejou ao líder católico partir à frente da contenda antes entregue ao prócer Hildo Furtado. Ainda assim o povo persistiu inovador: elegeu Raimundo Viana.

Coisas do Além

                      

            A interessante estória abaixo tirei do e-mail recebido do conterrâneo João Alberto Figueiredo. Gira em torno de dois tipos populares ainda presentes no inconsciente coletivo da urbe: 

            Zé Pinto morava pros lados da Igreja Matriz, com bodega no mercado. Encostada no portão da Rua 15 de Novembro, defronte à padaria do Sr. Manoel Simões.  

            Zé Vicente morado da Vila Operária do Labirinto. Tinha carpintaria na travessa Sul da Igreja de Santa Luzia, vizinho do mecânico Genésio, o faz tudo do Maciço.

            Apesar de figurar no rol dos 10 municípios mais progressistas do país, nos anos 1950, Baturité ainda costumava enterrar defuntos em redes. Passado algum tempo para ensejar ferretro condigno o Círculo Operário disponibilizou um caixão – apenas emprestado para conduzir o morto  até o Campo Santo. Dessa forma sobrevinha aos familiares  o infortúnio de devolver o ataúde para dar lugar ao traslado dos próximos finados. 

            Para suprir o absurdo,  Zé Pinto encomendou à Zé Vicente, a feitura de seis caixões tamanho adulto, verniz preto: para vender a quem tivesse condição de se enterrar em caixão próprio.   De posse da mercadoria agourenta, muito embora necessária, Zé Pinto, por escrúpulos, não se permitiu deixar nenhum caixão exposto. Preferiu esconde-los no forro da bodega.

            Terminado o intróito. Retornemos a estória do João Alberto:

            Certo dia, sua mãe, Dona Puri, pediu que ele, João Alberto, fosse à bodega do seu Zé Pinto comprar açúcar. O menino de pronto atendeu ao pedido, mesmo porque com a caderneta de compra na mão, compraria, também, alguns bombons pois não havia reclamação quanto a isso.

            De calças curtas, alpercata de pneu comprada no Seu Leôncio, João Alberto entra no ambiente sempre escuro da bodega a despeito da claridade do dia.  Aos oito anos, Alberto mal podia alcançar o queixo no balcão preto de sujo. Esticou o pescoço para fazer o pedido. Primeiro o açúcar, mas a boca já salivava pensando nos bombons… De repente, se arrepiou ao ouvir o barulho de coisa se arrastando no forro da bodega… Debaixo da penumbra do forro apavorou-se com uma voz rouca a dizer:

            – Pode empurrar!

            Olhos em chama… cabelo arrupiado… viu um caixão preto descendo… rápido tentou sair pelo lado que dava para dentro do mercado… a porta estava bloqueada com sacos… correu então para a porta da rua onde exatamente, já em pé, se encontrava o caixão. Inocente tinha certeza que dentro do caixão havia um defunto… até sentia odor de cadáver. Desabou na carreira no rumo de casa, com os pés descalços… as alpercatas desapareceram com o impulso na carreira…

             Sem açúcar. Sem bombons. Sem caderneta. Sem nada… apavorado,  somente… deu graças ao ver a  porta de casa aberta, passou direto para o tanque dos altos no final do quintal.

            Dona Puri, ao vêr o filho correndo, às pressas, saiu junto com a empregada em direção ao filho que não conseguia sequer puxar ar dos pulmões para poder chorar.

            – Pelo amor de Deus o que aconteceu, João Alberto! E cadê o açúcar e a caderneta? Perguntou-lhe a mãe.  

            – Eu vi, eu vi, e é verdade! Foram suas primeiras palavras.

            – Viu o que menino? O que foi que você viu? Perguntou Dona Puri jogando na cabeça do filho a água que não quis beber, porquanto ainda resfolegava.

            Quando a criança se acalmou, a mãe já aborrecida pois não via nada no filho que justificasse tanto espanto. 

            Então, já mais calmo, João Alberto contou:

            – Mamãe, seu Zé Pinto guarda gente morta em cima da bodega!

            Na visão e no entender da criança o caixão tinha gente dentro, e se estava dentro do caixão, estava morto!  Isto se constituiu um rebuliço. Dona Puri não entendeu a história do filho porque, ela não sabia que Zé Pinto vendia caixões de defunto prontos que escondera no sótão da bodega.

            Depois de ganhar certo ânimo tudo, mesmo convencido de que não havia ninguém dentro do caixão João Alberto nunca mais quiz pisar na bodega do seu Zé Pinto! Na Rua Quinze nunca mais passou no mesmo lado da bodega.

 

 

O Mestre Pernambuco

O Mestre Pernambuco

Adaptação de Escrito de Edson Andre

            O Mestre Pernambuco não era filho de Baturité sua terra natal era Icó – CE. Homem baixo, tez escura, passos curtos, sem pressa e não abandonava a bengala nem tampouco a bolsa. Esta de estilo bem antigo, daquelas que imitavam maletas dos médicos de sua época. Ao chegar a Baturité, em face da boa conduta além das boas amizades que fez, desfrutou da estima dos baturiteenses.

            Nos idos anos Mestre Pernambuco ficou famoso pela desenvoltura com que marcava as quadrilhas, primeiramente, nas tradicionais festas juninas do Sítio São Joaquim de propriedade do casal Otávio Barros e dona Mariinha.

             Com o mestre já idoso decorreu a fundação do BAC (Baturité Atlético Clube), entidade que agregava a fina nata social de Baturité. Palco de bailes marcantes com orquestras internacionais o clube também realizava em seus salões as festas de São João na Roça. Dali, ainda por muito tempo, era o Mestre Pernambuco responsável pela marcação da quadrilha.

            Mestre Pernambuco, no início do século passado, era quem controlava a entrada e saída dos passageiros do trem que na permanência do trem na estação de Baturité almoçavam no pitoresco Hotel da Dona Sinhá no Putiú.  Depois quando os bailes eram realizados nas residências, notadamente na casa do Major Pedro Mendes Machado, sempre o Mestre Pernambuco era requisitado para porteiro. Na década de 1920 exerceu o cargo de porteiro do cinema do industrial José Pinto do Carmo, assim, neste ofício, se fez profissional, mas sua habilidade não ficou só aí.

            Pernambuco se encarregava da comunicação entre os munícipes: precursor dos convites fúnebres, de bailes, de avisos de feriados municipais decretados por prefeitos bem como das eventuais chegadas de bispos e outras autoridades que chegavam à cidade e eventos outros que posteriormente passaram a ser transmitidos pelos serviços de amplificadoras.

            O pioneiro certo Sr. Osterne, funcionário do Serviço de Saúde, instalou um serviço de alto falante no prédio onde funciona o cartório do Sr. Antonio Nelson de Lima. A seguir o comerciante Edivo Campos montou outro idêntico serviço em cima do Barracão das Carnes, edificação ostentosa,  demolida  injusticavelmente, para dar lugar ao hoje, prédio do Banco do Brasil, por sinal totalmente sem estilo  Outro serviço de irradiação sonora pertenceu ao coronel Ananias Arruda: “A voz da Verdade”. Esta irradiadora tocava somente músicas religiosas, inclusive às 18 horas, quando era lida a Ave Maria de autoria do João da Silva. Fato inusitado: foi na “Verdade”  que Peixoto de Alencar estreou antes de se tornar  radialista e político dos mais respeitados no Ceará.

 

Mestre Pernambuco veio a falecer com 102 ou 103 anos em 1958, ano do Centenário de Baturité. Ele estava sentado em frete à Nova Aurora de Mario Mendes, assistindo os festejos da cidade que escolheu para viver. Morreu solteiro sob as atenções de Eduardo Mendes que cuidava dele em troca da casa onde morava na Boa Vista. No local onde existiu a casa o Capitão Miguel Edgy, quando Secretario de Turismo de Baturité o denominou de Travessa Mestre Pernambuco. Seu sepultamento ocorreu nesta cidade, com grande acompanhamento,  

            Tipo popular de Baturité, Mestre Pernambuco foi muito amigo do seu Antônio Cordeiro, sobrinho do Senador João Cordeiro, do Seu Próspero Barbeiro, de Alfredo Xavier.

Um Passeio Pela Rua 15 de Novembro

 

UM PASSEIO PELA RUA 15 DE NOVEMBRO

Autoria Vinicius Barros Leal

Recortada de  “A VERDADE”

            O Major Pedro Mendes Machado foi uma personalidade marcante na vida social, comercial e representativa de Baturité, na primeira metade do século passado. Era filho do casal Manuel-Isabel Mendes Machado, nasceu em Boa Viagem e chegou à cidade, em 1898, com vinte e quatro anos de idade.

            É provável que sejam seus antecedentes os proprietários da Fazenda Pedra Branca, no Marzagão. Ai, em 1821, nasceu Manuel Mendes Machado, filho do Tenente Jacinto, personagem de destaque nos acontecimentos revolucionários de 1824. Um Tenente Coronel Antonio Mendes Machado foi o precursor, já habitando as redondezas das Itans no começo do século XIX. Sabe-se que Manuel emigrou, ao passo que seu irmão Jacinto Jr. Permaneceu no distrito.

            A casa de residência do Major é a quarta do quarteirão, na Praça Santa Luzia. É de três portas, alta, de construção sólida e elegante. Ali viveu muitos anos a família. O seu primeiro casamento foi com D. Maria Maciel, irmã dos Coronéis Raimundo e Antônio Maciel, de importante família local, filhos todos de Miguel Ferreira Maciel e D. Felícia. Desse matrimônio foram filhos, o Dr. Pedro Wilson, advogado de grande renome no Ceará, Maria Augusta, falecida solteira em 1927, D. Felícia (Licinha), casada com o intelectual conterrâneo e seu primo José Maciel, Áurea, residente em Fortaleza, e Mário Mendes, do alto comercio da capital. O segundo casamento do Major foi com D. Enoi Cordeiro, filha de Francisco Cordeiro de Sousa e de Umbelina (Biloca) Catão, irmã esta, do advogado, Pedro Catão e ambos filhos do antigo juiz Dr. Umbelino Ferreira Catão, pernambucano.

            Percorrendo-se as amarelecidas páginas dos velhos livros do Arquivo Público e das publicações mais antigas, pode-se constatar quão profícua e útil foi a vida do Major Pedro Mendes.   Em quase todos os acontecimentos mais relevantes da cidade ele marcou a sua presença, desde as manifestações políticas da época do rabelismo, quando ele fez parte do diretório municipal do Partido Republicano que obedecia à orientação do Cel. Antônio Ribeiro Montenegro. Depois em outros acontecimentos, como na fundação do Tiro de Guerra 249, em 1917, ocupou uma função de direção e colaborou nesse empenho, ao lado do juiz Dr. Luiz Gonzaga, Eurico Arruda, José Pinto do Carmo, Pedro Catão, João Paulino Neto, e Francisco Campelo Matos.  Por causa desse fato o dia 22 de julho de 1917 ficou na história da cidade. Pela primeira vez a serra foi alcançada por um automóvel. Na incrível aventura tomaram parte, em propaganda do Tiro, os diretores Artur e Alfredo Dutra e João Mendes Brasil. Foi mesmo uma grande façanha aquela viagem até Guaramiranga num fordeco dos primeiros modelos guiado pelo “chauffeur” Gumercindo.

            Em 1919 foi novamente convocado o Major para, em companhia do comerciante Antônio Arruda, representar a cidade no Congresso Agrícola de Quixadá.  Em 1922, na solenidade comemorativa do centenário da Independência, ocupando ele a função muito honrosa de Presidente da Câmara Municipal, nessa qualidade presidiu a mesa, ao lado de muitas autoridades, inclusive do Senador João Cordeiro, personalidade de maior evidência no Estado, tio-avô de sua esposa. No ano seguinte, a 25 de março, na instalação do Grupo Escolar, estabelecimento fundado no ano anterior e que era uma velha aspiração de Baturité, a comitiva de professores de Fortaleza foi condignamente recepcionada e hospedada pelo Presidente da Câmara.

            Em 1930, juntamente com o Sr. Jerônimo de Oliveira, comprou o Major Pedro Mendes a Empresa de Luz, fundada em 1918 por Horário Dutra, por este vendida, em 1921, ao Cel. José Pinto do Carmo e mais tarde a este último retornada. Também nesse ano a Associação Comercial estava em grande efervescência graças ao entusiasmo do Cel. Ananias Arruda, que dinamizava todas as ideias e empreendimentos que visassem conduzir Baturité a um melhor estágio de progresso e liderança regional.  Na primeira diretoria o Major foi eleito vice-presidente na chapa encabeçada pelo comerciante Marçal da Silveira Aguiar. Em trinta surgiu a ideia da fundação de um Banco cooperativo e o Major presidindo então interinamente a Associação, encampou o projeto. O sucesso com a ajuda vigorosa do futuro Comendador foi magnífico, criando-se o Banco Comercial e Agrícola de Baturité, estabelecimento que marcou época na vida econômica da região.

            No comercio local o Major Pedro Mendes exerceu expressiva liderança, tanto no papel de guia e conselheiro dos seus pares, como na significação e volume de seus negócios, na Loja “As Variedades”, na Rua 7 de Setembro.

            Já em idade muito avançada perdeu a visão, mas não a lucidez. A morte brutal de seu filho Dr. Pedro Wilson muito o balou, falecendo a 15 de outubro de 1962, aos 88 anos, deixando uma profunda saudade aos familiares e a quantos baturiteenses reconhecidos pelo seu cavalheirismo e demonstração contínua de um homem de bem, de educação esmerada e de grandes sentimentos.

O Velho Casarão da Praça Valdemar Falcão e seus Residentes

            O casarão da Praça Waldemar Falcão, construção do século XVIII, serviu de residencia do coronel pelo Alfredo Dutra de Souza, filho do pernambucano Manuel Dutra de Souza, proprietário do Sítio Alvaro, Alfredo Dutra, estudioso em especialidades agrícolas e introdutor, por intermédio da Casa Boris Frères, de Fortaleza, de novas espécieis de café, inclusive da Libéria, bem assim da utilização do bucare (Erythrina glauca Willd) como árvore apropriada ao sombreamento dos cafazais.

            Representante mais em alto da fidalguia serrana rico, de hábitos e costumes apurados e posição social saliente, Alfredo Dutra foi o principal vulto da nobreza proveniente dos cafezais baturiteenses e cabeça política dominante durante quatro décadas sobre todo o Maciço de Baturité e demais municípios da sua área de influência. No executivo baturiteemse acumulou dois mandatos como Intendente e mais dois  como Prefeito Municipal. Foi Deputado Estadual em várias legislaturas numa das quais (1919) foi presidente da Assembléia tendo ainda galgado o cargo de Vice-Presidente do Estado.

             Para lhe servir de residência construiu o sobrado onde hoje funciona o Furum. Erguido em terreno declinado, com cerca de 100 metros de fachada sul, a partir do poente com a metade assobradada acessada por escada de cedro maciço em cujo final um hall se abria para as salas, de visita e jantar. Ambas a ostentar rico mobiliário colonial decorado com a riqueza das louças e ornamentos habituais nas residencias da pequena nobreza do café. Além das salas o piso superior também consagrava os dormitórios e outras  dependências necessárias ao serviço doméstico. 

             Casado com dona Amélia Dutra de Souza, esta lhe deu os seguintes filhos: Alfredinho, major Horácio, Otávio, Edgar, Olavo e as filhas Alzira, Adelaide, Odete e Cleonice. Pela iniciativa do major Horácio em 1918 foi criada a Empresa de Luz de Baturité. Com isso a cidade apresentou-se coma a orimeira a possuir energia elétrica, antes mesmo que a Capital.

            De Alfredo Dutra o casarão, por herança, passou para João Ramos Filho, advogado e tabelião da cidade, casado com Dona Adelaide Dutra “uma senhora de porte elegante e altivo”, tendo o casal residido ali até 1962, ano em que se mudou para o Rio de Janeiro´´. (Nina Moreira Viana. Casarão da Família Dutra-Ramos. Crônica de 30.06.2005).

             Do casamento de João Ramos com Dona Adelaide nasceram os seguintes filhos: Francisco Rosuel Dutra Ramos, engenheiro e ex-prefeito de Baturité (Adm. 1955-59), Leni, casada com o Dr. Francisco Saraiva Xavier, Elial Dutra Ramos, oficial do Exército nacional e Emanuel Dutra Ramos, advogado e Promotor Público.

            Um fato marcante na vida de Dr. João Ramos; anos após anos, enquanto viveu no casarão em todas as Sextas Feiras Santas distribuía o “jejum” dos pobres composto de bacalhau, pão, farinha e moedinhas de mil réis. (Nina Moreira Viana. Idem, ibidem).

            Ao deixar, no dia 4 de junho de 1932, do seu quarto mandato na prefeitura, ao que tudo indica, Alfredo Dutra fez do genro João Ramos seu sucessor político. Coincidentemente, na mesma época, o bispo Manuel da Silva Gomes fez de Ananias Arruda presidente da LEC – Liga Eleitoral Católica, espécie de partido político que abriu o caminho da próspera vida do líder católico de Baturité.

            Dos caminhos cruzados recebidos por missão – João Ramos, do sogro e Ananias Arruda do bispo – nasceu a rivalidade onde a astúcia do primeiro não se dobrava a prática beata do segundo.

            Dono do jornal A VERDADE, Ananias Arruda já possuía uma folha de serviços prestados ao lugar. Da sua auréola de líder, bem antes de possuir cargo público, por seu prestígio, a cidade de enchia de padres e religiosas, excelentes na arte de ensinar, que pouco a pouco faziam Baturité se rivalizar com os com os maiores centros de ensino do nordeste.

O velho coronal Dr. João Ramos Filho avaliando uma safra do Sítio Álvaro na Serra de Baturité
         

            De 1932 a 1934 enquanto Baturité vivia um verdadeiro troca-troca de prefeitos de fora, nomeados pelos interventores politicamente neutros, o devotado e inteligente Ananias Arruda obtém maioria, na sede e nos distritos, para eleições de 3/05/1933 para Deputado Federal Constituinte e, outra vez a 14/10/1934 para Deputado Estadual Constituinte.

            Assim sendo, quando, em 1935, os mesmos deputados que formavam a maioria da LEC elegeram Menezes Pimentel a Governador do Ceará, este, por sua vez, nomeia Ananias Arruda prefeito de Baturité.

            Resumindo a história: execrável, sucedendo o sogro, João Ramos agüentou, no cimo do poder, Ananias Arruda até 1947, ano em que a UDN – União Democrática Nacional elegeu Faustino de Albuquerque ao governo, tendo este, por sua vez, ajudado Raimundo Viana a vencer o mesmo Ananias nas eleições seguintes para prefeitos municipais.

            Naquele pleito, entre as farpas que trocavam entre si – coisas de políticos – quando o coronel Ananias, do novo PSD – Partido Social Democrático, taxou o coronel udenista João Ramos de miserável, porque não pintava a fachada de sua casa, o outro respondeu que era melhor ter a casa suja e consciência limpa do que a casa limpa e a consciência suja.

            Piadas ou verdades as são histórias, se aconteceram ou não aconteceram, pelo menos, passaram para o folclore político baturiteense.

            Outra vez no apogeu da fama o casarão volta a brilhar com a figura do legendário Dr. Francisco Saraiva Xavier, um médico elegante, enérgico, de estatura acima da média, postura sempre empenada para frente, cabelo liso e lustroso e de pele da cor de oliva que lhe dava um ar de sultão.

            Ao chegar à cidade montou um consultório na Rua 15 de Novembro onde, dia a dia, operando sem parar ganhou a reputação de médico cirurgião, fama que lhe acarretava, às centenas, pacientes não somente da sede do município, mas de todo maciço e cidades vizinhas.

                   O Dr. Saraiva casou-se com Leni, moça muito bonita, espécie de monumento da cidade, muito desejada e admirada não só pelo fato de ser uma Dutra-Ramos, família mais rica da cidade, mas, também, pelo seu ar de diva do cinema americano.

            Residente em Fortaleza o glamoroso casal causava verdadeiro frisson ao chegar a Baturité com os filhos Delano e Diana num luxuoso automóvel da divisão Mercury da Ford, quando na cidade só existiam jipes e caminhões.

            Nascido em Lavras da Mangabeira, no Cariri, o Dr. Saraiva elegeu-se, duas vezes, deputado da UDN pelo colégio eleitoral de Baturité.

            Em dia de eleição, na companhia do fiel escudeiro Pedro Penicilina, o doutor Saraiva corria uma por uma das sessões eleitorais às vezes para saudar prosélitos e noutras vezes para intimidar, com o revolver à mostra, a quem lhe ameaçasse tirar votos.

            Incluída nos anais da política de Baturité existe, afamada, indisposição do valente deputado contra o apego da Lei do juiz Manoel Sales de Andrade, que não cedeu à intransigência do parlamentar diante da negação de sursis a um cabo eleitoral.

            Da veemência de paixões própria do gênio do Dr. Saraiva, consta da crônica do legislativo cearense, uma passagem em que ele teve que disparar, sem êxito, dois tiros de sua arma, em sessão plenária, contra outro parlamentar que insistia em contrariar seus méritos.

             Impulsivo e impetuoso, como se vê, nosso deputado Dr. Francisco Saraiva Xavier era assim, do tipo que além do talento inato se distinguia, muito mais, pela coragem.

            Em 1962 o casarão foi vendido ao Sr. Raimundo Viana, ano em que o Dr. João Ramos veio a falecer no Rio de Janeiro cidade para onde se mudou com a família.

            Na primeira década deste século o casarão, vetusto monumento patrimonial da região, escapou de ser demolido pelas providências de outro baturiteense ilustre, o Dr. Francisco da Rocha Victor, naquela ocasião Desembargador Presidente do Tribunal de Justiça do Estado, que mandou reformá-lo para, perpetuado, servir de Palácio da Justiça da sua e nossa terra.

Raimundo Raul Correia Lima

Nos últimos anos da ditadura de Getulio Vargas, a 21 de fevereiro de 1944, chegou nomeado prefeito de Baturité, pelo então governador em exercício Dr. Andrade Furtado, o crateusense Sr. Raimundo Raul Correia Lima, trazendo consigo o currículo político com a experiência de ter sido, anteriormente, prefeito, também nomeado, de Aurora e Icó.

Homem modesto, de parcos recursos, para poder se mudar, foi-lhe concedido pelo estado o custeio do transporte da família, inclusive de suas vacas preparadas para embarque na estação de José de Alencar. As vacas serviam para fornecer leite os filhos pequenos.

Chegado a Baturité com a esposa e dois filhos – José e Ana Zélia – o prefeito hospedou-se no Hotel Canuto, isso porque não gozou do privilégio de morar na residência destinada aos prefeitos, porquanto sua nomeação não agradava ao manda-chuva Ananias Arruda dono da aludida casa.

A prefeitura Raimundo Correia recebeu das mãos do professor Tito, moço muito estimado, motivo porque, até, temeu desagradar aos munícipes a quem o antecessor muito aprouvera, contudo, munido de experiência, o novo mandatário enfrenta de cabeça erguida o desafio.

Dos funcionários imediatos, Joel Furtado, José Furtado, Lica e dona Stela, esta, logo deixou a secretaria, talvez, por fidelidade ao coronal Ananias. Efetivos, os outros, de maneira profissional, principalmente diante da regulamentação de carreira que passou a remunerá-los e promovê-los de acordo com a capacidade de cada um, mostraram-se satisfeitos, ainda mais, no dia em que todos os cinqüenta, receberam os dez meses atrasados pelos antecessores, isso, mediante festa com cerveja, banda de música e espocar de foguetes sob as expensas do município. Da qualidade dos funcionários Raimundo Correia louva-se de ter nomeado secretária-tesoureira a Antonieta Alencar, moça inteligente e operosa administrativamente, ao mesmo tempo traça elogios ao Bertulino, de quem acabou compadre e seu Costa, bom eletricista, a Vicente Gregório, subprefeito de Capistrano, trazido de Aurora, de Raimundo Cosme e do Braulino responsável pela limpeza das ruas usando carrinhos de mão e uma carroça.

Naquele tempo, verdadeira apoteose, organizado por Ananias Arruda, acontecia o Primeiro Congresso Eucarístico, fazendo vibrar a cidade, mergulhada em estado de graça, de tal modo que, da população, quem não sabia cantar pelo menos lhe assoviava o hino.

Vendo-se excluído, mas forçado por Andrade Furtado, o prefeito não pôde ficar indiferente diante do acontecimento, porquanto, mandou limpar a cidade providenciou iluminação mais eficiente, estimulou a população a pintar a fachada das casas, colocou o carro da prefeitura à disposição do congresso, mandou melhorar a banda de música, muito embora o Sr. Ananias já tivesse conseguido outra em melhor condição. Na estação do trem, junto às autoridades Dr. Germiniano Jurema, Juiz de Direito, Dr. José Rolim da Nóbrega, Promotor Público, e o Sr. Pedro Silvino, Delegado de Polícia, como Prefeito Municipal recepcionou Bispos, Padres e Seminaristas convidados e, no mais os saudou-os, em discurso, no qual lhes entregava a chave da cidade.

Da lavra de Raimundo Correia, o livro “MINHA HISTÓRIA, TRABALHO, RECORDAÇÕES E PECADO, na parte dedicada a Baturité, mostra quão foi atribulada sua primeira administração, principalmente, pelo perfilhamento versus ao prestigioso Comendador. Das futricas políticas o livro destaca aquelas que o próprio prefeito executava em desfeita ao prestigioso coronel, a saber:

Achou de mandar, como realmente mandou transferir o sargento Delegado da Cidade que, por ordem do comendador, quis suspender, sem sucesso, uma festa na casa do Juiz;
Mandou podar uns fícus benjamins. Daí, acusado de destruir a arborização, acusado pelo Comendador, foi intimado a “justificar a inépcia” junto ao governador.
Acusado de não praticar a religião católica, foi argüido, pelo próprio Governador Pimentel;
Desagradou o Comendador ao facilitar que certo senhor Galvão, exibisse na prefeitura uma peça teatral já proibida por aquele;
Cedeu salão na prefeitura ao poder judiciário hostilizado pelos antecessores.
Prolongou a iluminação elétrica até o Hotel Canuto, para em conseqüência beneficiar a casa do Juiz às escuras por questões políticas;
Finalmente, acabou com o tabu que não permitia que se dançasse nos salões da prefeitura.

Da vida particular Raimundo Correia conta passagens inesquecíveis: nascimento, a 29 de maio de 1945, do quarto filho Francisco; outra ao morar no Sobrado dos Maciéis quando curou a coqueluche dos filhos com tangerina e jejum; outras ao se mudar para a antiga residência do José Pinto do Carmo, foi surpreendido por um incêndio, em seguida debelado por amigos; ainda naquela casa teve um empregado preto de nome Luiz que comprava carnes em seu nome e uma empregada que matou um peru tentando curá-lo de uma doença com água e cal; no quintal da mesma casa possuía uma engorda de porcos para venda.
Da dívida pública herdada, maiores que dois orçamentos, estas foram pagas com muito sacrifício mesmo não devidamente reconhecidas. Das outras realizações ao cortar verbas que oneravam a prefeitura, melhorou a, sempre precária, iluminação pública; instalou no sítio da prefeitura, antiga casa de Pedro Catão um campo de demonstração agrícola e venda de mudas enxertadas; tirou dos pobres necessitados a obrigação de pagar uma dívida ativa que lhes impuseram os antecessores.

Em maio de 1945. Com todo Baturité comemorando a queda de Berlim, com muita festa e o comércio totalmente fechado, a frente de tudo e de todos Raimundo Correia, partidário do acontecimento, não obstante o seu grande conceito na cidade foi demitido da prefeitura sem aviso prévio.
Certificado de que Andrade Furtado referendou sua demissão levado por Ananias Arruda, passou a prefeitura para Edmundo Bastos e, logo em seguida, mudou-se para Fortaleza, isso, com a ajuda da maçonaria e de alguns amigos, pois, na ocasião lhe faltava, até, o dinheiro para o transporte.

Pasmem os de hoje diante da honestidade dos de ontem.

O Quarteirão Sucesso (III)

Entre o armazém do Toinho Cardoso e a sapataria São José de José Pinto Garcez no ponto com largura pelo menos o dobro de qualquer outra do pedaço, JOSÉ RICARDO DA SILVEIRA, sem qualquer tipo de especialização, negociava com tudo que podia existir dentro de um armazém.

Das quantas histórias se contam da vida de JOSÉ RICARDO DA SILVEIRA poucas falam do pioneirismo que tanto sucesso lhe trouxe na luta cotidiana que o fez vencedor em todas as diversas atividades que atuou tanto no comercio, na indústria na agropecuária e na política.

Através do trem José Ricardo recebia de Fortaleza açúcar, gêneros, enlatados, corda cordão, sabão, querosene, gasolina etc., e no mesmo trem mandava para Capital café, milho, feijão couros de animais domésticos e silvestres, mamona, oiticica, castanha e outros produtos da fauna e da flora regional comprados ou trocados em escambo.

Perdido no tempo, ninguém recorda como se dava o abastecimento de gasolina – puxada do tambor por torçal bombeado pela força pulmonar, o frentista fazia o retalho – lata ou meia lata – a despejar no tanque do veículo.

Pioneiro do abastecimento semi-automático foi Zé Ricardo quem instalou, na Rua Sete de Setembro, em frente ao seu armazém, com a bandeira da Shell, a primeira bomba de combustível de Baturité.

Da bomba de gasolina do Zé Ricardo, conta-se, houve um começo de incêndio que não se propagou graças à argúcia do seu Lulu, dono do ônibus que, agilmente, arregimentou gente que ao lançar areia sobre as chamas evitou desastre maior.

Muito atrasado, até a primeira metade da década de 1950, o povo de maneira geral, principalmente os dos arrabaldes, não conheciam sequer um picolé. Os poucos que tivessem saboreado o doce gelado, na certa o fizeram durante o Congresso do Seu Ananias – ocasião em que algum maluco comprou a idéia de trazer picolé para revender no extraordinário evento religioso.

Da viagem, o picolé chegava numa lata cilíndrica, esta, por sua vez, dentro de uma caixa de madeira cheia de gelo, raspa de madeira e sal, coisas certas para manter gélida a temperatura que garantia a vida do artigo – sem derreter.

Acontece que com o balançar do ônibus, pela trepidação própria da estrada de barro, o sal do gelo salgava o picolé que deste modo perdia a qualidade de doce, mas não de gelado.

A cidade passou mesmo a conhecer o verdadeiro delicioso picolé, e não só isso, mas também sorvete, sanduiches, salgados, refrigerantes e cerveja gelada no ponto quando, noutra vez Zé Ricardo, como desbravador, resolve instalar a moderna sorveteria que tomou a metade do seu amplíssimo armazém, a mesma que durante algum tempo passou a ser o local muito freqüentado pela população de posse.

Ainda faz parte do pioneirismo do Zé Ricardo a primeira loja de peças de veículos. Montada na Travessa Mattos a loja de peças e pneus atalhava que os motoristas e mecânicos – Zé Raimundo e Zé Aristides – que antes se dirigiam a Fortaleza para adquirir componentes necessários nos consertos.

Na política Zé Ricardo, em 1950, induziu o grupo de comerciantes amigos – Mario Mendes, Mesquita Pinheiro, Zé Farias, Zé Francelino, Zé Bruno Maciel, Oziel Rabelo, Adauto Pinto – membros de uma excursão que fizeram a Paulo Afonso para lançar candidatura própria do PSP – Partido Social Progressista. Escolhido o candidato Dr. Álcimo Aguiar, este só não se elegeu por causa da inesperada união das forças políticas antagônicas – Ananias Arruada e João Ramos – para derrotá-lo.

Candidato de muitos pleitos à Prefeitura ficou marcado no folclore político da Cidade uma suposta passagem onde o Zé Ricardo chamado para o fechamento de uma campanha, em palanque, crente de que estava munido do discurso elaborado pelo filho Aedo, tendo a frente um microfone e uma multidão aguardando sua palavra, começou a procurar o “improviso” mexendo e remexendo os bolsos do paletó.

Sem conseguir encontrar o tal discursos, como realmente não encontrou, inadvertidamente como a boca colada ao microfone, falou:

- Pois não é que os Filhos da Égua do outro lado roubaram meu discurso!

O certo é que desta ou de outra vez realizou o sonho de ser prefeito. Aconteceu em 1966 quando foi conduzido pelas urnas ao comando do município durante o período compreendido entre 25.03.1967 até o mesmo dia e ano de 1971, ocasião em que deixou toda cidade agradecida pelo muito que realizou.

José Ricardo da Silveira e sua esposa Dona Lourdes, tiveram os seguintes filhos, Aedo, Aécio, Aélio, Mirian, Adilson, Franzé e Inácio dos quais tivemos oportunidade de conviver e ser amigo dos mais velhos.

O Quarteirão Sucesso (II)

 

Subindo em lojas contíguas, vizinha das Casas Pernambucanas, o comercio continuava com a Alfaiataria do Vicente Bigodão – negócio muito proveitoso já que na época, década de 1950, inexistia venda de roupa feita.

O fato de toda casa possuir uma Singer – máquina de costura – estas não atrapalhavam a vida dos profissionais da moda. Na verdade aquelas máquinas – sendo de uso domestico – mais serviam para fazer consertos ou, quando muito as roupas de crianças, pois até as senhoras quando queriam se vestir bem procuravam a modista.

Da alfaiataria quem garantia o sucesso era o público adulto masculino, nicho de consumo, por sinal, o de maior poder de compra que Vicente Bigodão dividia com o único concorrente de sua categoria, o Wilson Alfaiate, filho do mestre Permínio, o “General” da Banda de Baturité.

Nos dias de folga o Bigodão fazia lazer no mato, caçando animais e aves silvestres, hoje um pecado contra a ecologia, ontem sem o discrime de extinção animal. Os companheiros de caçada eram os de sempre: Napoleão, comerciante do Barracão, Zé Mesquita da Vencedora e o industrial Dedim Viana, todos eméritos caçadores que, vestidos à caráter e equipados chegavam a passar noites inteiras na mata.

Junto da alfaiataria negociava o Senhor de Castro com armazém de secos e molhados, tipo de negócio que, também, praticava escambo – troca de comestíveis por matérias primas industriais, couros, mamona, oiticica, coco babaçu, etc., artigos que juntados, vendia em grandes quantidades na capital.

Homem forte, bem apessoado, sempre bem vestido o Senhor de Castro, para se mostrar valente e temido, sem motivo aparente, quase mata a tiros o jovem, também temível, Airton Garcia que, conduzido para a Assistência Municipal de Fortaleza, escapou milagrosamente dos ferimentos à bala. 

Do negócio do Senhor de Castro partiu o incêndio causador de prejuízos em todo quarteirão. Os vizinhos, precipitadamente, numa ação de “salve-se quem puder”, para salvar estoques os colocaram no meio da rua, sendo que daí não coseguiram escapar dos aproveitadores ladrões.

Ao se mudar da cidade, por motivos ignorados, o Senhor de Castro passou o ponto para o irmão Aluisio de Castro, industrial do ramo de serraria que, bem sucedido e influente, teve passagem, também, na política como vereador de diferentes legislaturas.

O comercio continuava com a Barbearia do Seu Próspero. Responsável pela boa aparência masculina, o velho salão viu serviu a muitas gerações. Sobrinho do dono trabalhava no salão Edmundo que, de tezoura e pente na mão, diante do fregues já sentado na cadeira, perguntava: 

– Cabeleira, meia cabeleira, corte de máquina, raspado de navalha ou Príncipe de Gales?

Muitas vezes sem entender o “Boi da Serra” – assim eram chamados os serranos que vinham para a feira - respondia em cima das buchas:

– Crista de Galo! – sem comentário o “cabeleireiro” a sorrir, colocava os óculos, comprado no Zé Farias, sem receita, e começava o serviço.

Ainda da Barbearia do Seu Próspero, vele lembrar o Mudo, engraxate, terrivelmente valente que, só ao se deparar com ele muita gente, assustada, mudava de calçada.

A Barbearia do Seu Prospero sendo multifuncional, franqueava seu quintal para  necessidades urinárias dos permissionários do mercado. O mercado inexplicavelmente, não possuía mictório. No mais era em frente a barbearia que se dava a parada do onibus  de Fortaleza nas chegadas e partidas.

O Quarteirão Sucesso (I)

 

            Na Rua Sete de Setembro, a começar na frente do mercado até o beco do Pompeu a partir desta crônica, bem se verá como era seu comercio.

           No prédio hoje ocupado pela loja do Niltinho, na década de 1950 as Casas Pernambucanas instalou a filial de Baturité. Gerenciava-a o baturiteense João Camarão, moço que aprendeu “arte de vender” como balconista de Édolo Barsi, comerciante italiano radicado na cidade. Naquele tempo para merecer uma filial das Casas Pernambucanas,  a cidade precisava ter  economia que pudesse justificar o investimento junto ao grupo Lundgren, empreendedor do conglomerado de lojas. A filial de Baturité se destacou pelo exelente atendimento dos funcionários: Adolfo, Cesarina, Fransquinha, Manú, bem como do próprio Camarão e Carlos Gomes que transferidos para outras praças fizeram carreira no grupo como gerentes de grandes lojas fora do Ceará.    

                Manú além de bom no balcão era também muito bom no trato com a bola que fez rolar no Estádio do Monte Mor. Ele era ponta direita da fauna dos craques, abaixo, que sustentaram uma invencibilidade do clube durante por mais de cinqüenta jogos, a saber: Iran; Riba e Pupú; Rodolfo, João Batista e Carlos Gomes; Manú, Alberto, Mamede, Pinheirinho e Zé Sergio. (*) O Adolfo, pela competência, desempenhou, durante anos, funções de chefia da RFFESA – Rede Ferroviária Federal, onde se aposentou. A Cesarina trabalhou na loja sob a gerência do Sr. Carlos, cidadão muito branco, de olhos azuis, vindo de fora. Cesarina, ao deixar As Pernambucanas, na loja de tecidos do irmão Ademar de Barros. Ah! Da Fransquinha, como é bom falar dela. Além do papel promoroso de cuidar da mãe, a centenária dona Maria dos Anjos, Fransquinha vive orgulhosa de poder mostrar o magnífico fruto que colheu do casamento com o Renato:  Francisco Xavier, advogado, já ilustre, apesar da pouca idade.  

Ainda a própósito das Casas Pernambucanas, vale dizer, que esta animou, pela primeira o comércio da Santa Terrinha, instalada com loja na Rua Sete de Setembro esquina com o Beco do Pompeu no mesmo prédio que pertenceu ao seu construtor o major Pedro Mendes Machado por volta de 1924.

 Depois, numa segunda vez,  na Travessa Mattos com a Rua Sete de Setembro, em 1942, por causa da origem alemã dos donos – Irmãos Lundgren – As Pernambucanas, então sob a gerência do Chico Campos, foi saqueada por ocasião do quebra-quebra generalizado no Brasil, quando este declarou guerra contra o Eixo Roma-Berlim-Tóquio na 2a. Guerra Mundial. Consta dentre os lideres “patriotas” do saque a figura, sempre presente a tudo: Zé Perequeté.

(*) Fonte João Rodolfo Pinheiro.