UM PROJETO DE HISTÓRIA DO VELHO CASARÃO DA PRAÇA VALDEMAR FALCÃO

Construção típica do século XVIII o velho casarão da Praça Waldemar Falcão, foi construído para servir de residência ao agropecuarista, coronel Alfredo Dutra de Souza, prestigioso chefe político, deputado estadual em várias legislaturas numa das quais (1919) foi presidente da Assembléia Legislativa, vice-presidente do Estado, duas vezes Intendente (assim eram chamados os prefeitos) e mais duas Prefeito de Baturité.

Erguido em terreno declinado, com cerca de 100 metros de fachada sul, a partir do poente, com a metade assobradada, o casarão consagrava o piso superior aos dormitórios e às inúmeras dependências necessárias ao serviço doméstico, de pasmar, a escadaria de cedro maciço no fim do acesso se abria para a proeminência das amplas salas, de visita e jantar, ambas a ostentar rico mobiliário colonial alinhando a riqueza das louças e ornamentos.

Homem rico, de hábitos e costumes apurados e posição social saliente, Alfredo Dutra foi o principal vulto da nobreza proveniente dos cafezais baturiteenses e cabeça política dominante durante quatro décadas sobre todo o Maciço de Baturité e demais municípios da sua área de influência.

Casado com dona Amélia Dutra de Souza, esta lhe deu os seguintes filhos: Alfredinho, major Horácio, Otávio, Edgar, Olavo e as filhas Alzira, Adelaide, Odete e Cleonice. A propósito pioneiramente a Empresa de Luz de Baturité fundada em 1918 pelo filho do coronel, o major Horácio Dutra apresentou a honra de a cidade possuir energia elétrica antes mesmo do que a capital do Estado.

De Alfredo Dutra o casarão, por herança, passou para João Ramos Filho, advogado e tabelião da cidade quando este se casou com sua filha, Dona Adelaide Dutra “uma senhora de porte elegante e altivo”, tendo o casal residido ali até 1962, ano em que se mudou para o Rio de Janeiro. (Nina Moreira Viana. Casarão da Família Dutra-Ramos. Crônica de 30.06.2005).

Do casamento de João Ramos com Dona Adelaide nasceram os seguintes filhos: Francisco Rosuel Dutra Ramos, engenheiro e ex-prefeito de Baturité (Adm. 1955-59), Leni, casada com o Dr. Francisco Saraiva Xavier, Elial Dutra Ramos, oficial do Exército nacional e Emanuel Dutra Ramos, advogado e Promotor Público.

Um fato marcante na vida de Dr. João Ramos; anos após anos, enquanto viveu no casarão em todas as Sextas Feiras Santas distribuía o “jejum” dos pobres composto de bacalhau, pão, farinha e moedinhas de mil réis. (Nina Moreira Viana. Idem, ibidem).
Ao deixar, no dia 4 de junho de 1932, do seu quarto mandato na prefeitura, ao que tudo indica, Alfredo Dutra fez do genro João Ramos seu sucessor político. Coincidentemente, na mesma época, o bispo Manuel da Silva Gomes fez de Ananias Arruda presidente da LEC – Liga Eleitoral Católica, espécie de partido político que abriu o caminho da próspera vida do líder católico de Baturité.

Dos caminhos cruzados recebidos por missão – João Ramos, do sogro e Ananias Arruda do bispo – nasceu a rivalidade onde a astúcia do primeiro não se dobrava a prática beata do segundo.

Dono do jornal A VERDADE, Ananias Arruda já possuía uma folha de serviços prestados ao lugar. Da sua auréola de líder, bem antes de possuir cargo público, por seu prestígio, a cidade de enchia de padres e religiosas, excelentes na arte de ensinar, que pouco a pouco faziam Baturité se rivalizar com os com os maiores centros de ensino do nordeste.

O velho coronal Dr. João Ramos da Silva avaliando uma safra do Sítio Álvaro na Serra de Baturité
De 1932 a 1934 enquanto Baturité vivia um verdadeiro troca-troca de prefeitos de fora, nomeados pelos interventores politicamente neutros, o devotado e inteligente Ananias Arruda obtém maioria, na sede e nos distritos, para eleições de 3/05/1933 para Deputado Federal Constituinte e, outra vez a 14/10/1934 para Deputado Estadual Constituinte.

Assim sendo, quando, em 1935, os mesmos deputados que formavam a maioria da LEC elegeram Menezes Pimentel a Governador do Ceará, este, por sua vez, nomeia Ananias Arruda prefeito de Baturité.

Resumindo a história: execrável, sucedendo o sogro, João Ramos agüentou, no cimo do poder, Ananias Arruda até 1947, ano em que a UDN – União Democrática Nacional elegeu Faustino de Albuquerque ao governo, tendo este, por sua vez, ajudado Raimundo Viana a vencer o mesmo Ananias nas eleições seguintes para prefeitos municipais.

Naquele pleito, entre as farpas que trocavam entre si – coisas de políticos – quando o coronel Ananias, do novo PSD – Partido Social Democrático, taxou o coronel udenista João Ramos de miserável, porque não pintava a fachada de sua casa, o outro respondeu que era melhor ter a casa suja e consciência limpa do que a casa limpa e a consciência suja.

Piadas ou verdades as são histórias, se aconteceram ou não aconteceram, pelo menos, passaram para o folclore político baturiteense.

Outra vez no apogeu da fama o casarão volta a brilhar com a figura do legendário Dr. Francisco Saraiva Xavier, um médico elegante, enérgico, de estatura acima da média, postura sempre empenada para frente, cabelo liso e lustroso e de pele da cor de oliva que lhe dava um ar de sultão.

Ao chegar à cidade montou um consultório na Rua 15 de Novembro onde, dia a dia, operando sem parar ganhou a reputação de médico cirurgião, fama que lhe acarretava, às centenas, pacientes não somente da sede do município, mas de todo maciço e cidades vizinhas.

O Dr. Saraiva casou-se com Leni, moça muito bonita, espécie de monumento da cidade, muito desejada e admirada não só pelo fato de ser uma Dutra-Ramos, família mais rica da cidade, mas, também, pelo seu ar de diva do cinema americano.

Residente em Fortaleza o glamoroso casal causava verdadeiro frisson ao chegar a Baturité com os filhos Delano e Diana num luxuoso automóvel da divisão Mercury da Ford, quando na cidade só existiam jipes e caminhões.

Nascido em Lavras da Mangabeira, no Cariri, o Dr. Saraiva elegeu-se, duas vezes, deputado da UDN pelo colégio eleitoral de Baturité.

Em dia de eleição, na companhia do fiel escudeiro Pedro Penicilina, o doutor Saraiva corria uma por uma das sessões eleitorais às vezes para saudar prosélitos e noutras vezes para intimidar, com o revolver à mostra, a quem lhe ameaçasse tirar votos.
Incluída nos anais da política de Baturité existe, afamada, indisposição do valente deputado contra o apego da Lei do juiz Manoel Sales de Andrade, que não cedeu à intransigência do parlamentar diante da negação de sursis a um cabo eleitoral.

Da veemência de paixões própria do gênio do Dr. Saraiva, consta da crônica do legislativo cearense, uma passagem em que ele teve que disparar, sem êxito, dois tiros de sua arma, em sessão plenária, contra outro parlamentar que insistia em contrariar seus méritos.

Impulsivo e impetuoso, como se vê, nosso deputado Dr. Francisco Saraiva Xavier era assim, do tipo que além do talento inato se distinguia, muito mais, pela coragem.

Em 1962 o casarão foi vendido ao Sr. Raimundo Viana, ano em que o Dr. João Ramos veio a falecer no Rio de Janeiro cidade para onde se mudou com a família.

Na primeira década deste século o casarão, vetusto monumento patrimonial da região, escapou de ser demolido pelas providências de outro baturiteense ilustre, o Dr. Francisco da Rocha Victor, naquela ocasião Desembargador Presidente do Tribunal de Justiça do Estado, que mandou reformá-lo para, perpetuado, servir de Palácio da Justiça da sua e nossa terra.

Raimundo Raul Correia Lima

Nos últimos anos da ditadura de Getulio Vargas, a 21 de fevereiro de 1944, chegou nomeado prefeito de Baturité, pelo então governador em exercício Dr. Andrade Furtado, o crateusense Sr. Raimundo Raul Correia Lima, trazendo consigo o currículo político com a experiência de ter sido, anteriormente, prefeito, também nomeado, de Aurora e Icó.

Homem modesto, de parcos recursos, para poder se mudar, foi-lhe concedido pelo estado o custeio do transporte da família, inclusive de suas vacas preparadas para embarque na estação de José de Alencar. As vacas serviam para fornecer leite os filhos pequenos.

Chegado a Baturité com a esposa e dois filhos – José e Ana Zélia – o prefeito hospedou-se no Hotel Canuto, isso porque não gozou do privilégio de morar na residência destinada aos prefeitos, porquanto sua nomeação não agradava ao manda-chuva Ananias Arruda dono da aludida casa.

A prefeitura Raimundo Correia recebeu das mãos do professor Tito, moço muito estimado, motivo porque, até, temeu desagradar aos munícipes a quem o antecessor muito aprouvera, contudo, munido de experiência, o novo mandatário enfrenta de cabeça erguida o desafio.

Dos funcionários imediatos, Joel Furtado, José Furtado, Lica e dona Stela, esta, logo deixou a secretaria, talvez, por fidelidade ao coronal Ananias. Efetivos, os outros, de maneira profissional, principalmente diante da regulamentação de carreira que passou a remunerá-los e promovê-los de acordo com a capacidade de cada um, mostraram-se satisfeitos, ainda mais, no dia em que todos os cinqüenta, receberam os dez meses atrasados pelos antecessores, isso, mediante festa com cerveja, banda de música e espocar de foguetes sob as expensas do município. Da qualidade dos funcionários Raimundo Correia louva-se de ter nomeado secretária-tesoureira a Antonieta Alencar, moça inteligente e operosa administrativamente, ao mesmo tempo traça elogios ao Bertulino, de quem acabou compadre e seu Costa, bom eletricista, a Vicente Gregório, subprefeito de Capistrano, trazido de Aurora, de Raimundo Cosme e do Braulino responsável pela limpeza das ruas usando carrinhos de mão e uma carroça.

Naquele tempo, verdadeira apoteose, organizado por Ananias Arruda, acontecia o Primeiro Congresso Eucarístico, fazendo vibrar a cidade, mergulhada em estado de graça, de tal modo que, da população, quem não sabia cantar pelo menos lhe assoviava o hino.

Vendo-se excluído, mas forçado por Andrade Furtado, o prefeito não pôde ficar indiferente diante do acontecimento, porquanto, mandou limpar a cidade providenciou iluminação mais eficiente, estimulou a população a pintar a fachada das casas, colocou o carro da prefeitura à disposição do congresso, mandou melhorar a banda de música, muito embora o Sr. Ananias já tivesse conseguido outra em melhor condição. Na estação do trem, junto às autoridades Dr. Germiniano Jurema, Juiz de Direito, Dr. José Rolim da Nóbrega, Promotor Público, e o Sr. Pedro Silvino, Delegado de Polícia, como Prefeito Municipal recepcionou Bispos, Padres e Seminaristas convidados e, no mais os saudou-os, em discurso, no qual lhes entregava a chave da cidade.

Da lavra de Raimundo Correia, o livro “MINHA HISTÓRIA, TRABALHO, RECORDAÇÕES E PECADO, na parte dedicada a Baturité, mostra quão foi atribulada sua primeira administração, principalmente, pelo perfilhamento versus ao prestigioso Comendador. Das futricas políticas o livro destaca aquelas que o próprio prefeito executava em desfeita ao prestigioso coronel, a saber:

Achou de mandar, como realmente mandou transferir o sargento Delegado da Cidade que, por ordem do comendador, quis suspender, sem sucesso, uma festa na casa do Juiz;
Mandou podar uns fícus benjamins. Daí, acusado de destruir a arborização, acusado pelo Comendador, foi intimado a “justificar a inépcia” junto ao governador.
Acusado de não praticar a religião católica, foi argüido, pelo próprio Governador Pimentel;
Desagradou o Comendador ao facilitar que certo senhor Galvão, exibisse na prefeitura uma peça teatral já proibida por aquele;
Cedeu salão na prefeitura ao poder judiciário hostilizado pelos antecessores.
Prolongou a iluminação elétrica até o Hotel Canuto, para em conseqüência beneficiar a casa do Juiz às escuras por questões políticas;
Finalmente, acabou com o tabu que não permitia que se dançasse nos salões da prefeitura.

Da vida particular Raimundo Correia conta passagens inesquecíveis: nascimento, a 29 de maio de 1945, do quarto filho Francisco; outra ao morar no Sobrado dos Maciéis quando curou a coqueluche dos filhos com tangerina e jejum; outras ao se mudar para a antiga residência do José Pinto do Carmo, foi surpreendido por um incêndio, em seguida debelado por amigos; ainda naquela casa teve um empregado preto de nome Luiz que comprava carnes em seu nome e uma empregada que matou um peru tentando curá-lo de uma doença com água e cal; no quintal da mesma casa possuía uma engorda de porcos para venda.
Da dívida pública herdada, maiores que dois orçamentos, estas foram pagas com muito sacrifício mesmo não devidamente reconhecidas. Das outras realizações ao cortar verbas que oneravam a prefeitura, melhorou a, sempre precária, iluminação pública; instalou no sítio da prefeitura, antiga casa de Pedro Catão um campo de demonstração agrícola e venda de mudas enxertadas; tirou dos pobres necessitados a obrigação de pagar uma dívida ativa que lhes impuseram os antecessores.

Em maio de 1945. Com todo Baturité comemorando a queda de Berlim, com muita festa e o comércio totalmente fechado, a frente de tudo e de todos Raimundo Correia, partidário do acontecimento, não obstante o seu grande conceito na cidade foi demitido da prefeitura sem aviso prévio.
Certificado de que Andrade Furtado referendou sua demissão levado por Ananias Arruda, passou a prefeitura para Edmundo Bastos e, logo em seguida, mudou-se para Fortaleza, isso, com a ajuda da maçonaria e de alguns amigos, pois, na ocasião lhe faltava, até, o dinheiro para o transporte.

Pasmem os de hoje diante da honestidade dos de ontem.

O QUARTEIRÃO SUCESSO (III)

Entre o armazém do Toinho Cardoso e a sapataria São José de José Pinto Garcez no ponto com largura pelo menos o dobro de qualquer outra do pedaço, JOSÉ RICARDO DA SILVEIRA, sem qualquer tipo de especialização, negociava com tudo que podia existir dentro de um armazém.

Das quantas histórias se contam da vida de JOSÉ RICARDO DA SILVEIRA poucas falam do pioneirismo que tanto sucesso lhe trouxe na luta cotidiana que o fez vencedor em todas as diversas atividades que atuou tanto no comercio, na indústria na agropecuária e na política.

Através do trem José Ricardo recebia de Fortaleza açúcar, gêneros, enlatados, corda cordão, sabão, querosene, gasolina etc., e no mesmo trem mandava para Capital café, milho, feijão couros de animais domésticos e silvestres, mamona, oiticica, castanha e outros produtos da fauna e da flora regional comprados ou trocados em escambo.

Perdido no tempo, ninguém recorda como se dava o abastecimento de gasolina – puxada do tambor por torçal bombeado pela força pulmonar, o frentista fazia o retalho – lata ou meia lata – a despejar no tanque do veículo.

Pioneiro do abastecimento semi-automático foi Zé Ricardo quem instalou, na Rua Sete de Setembro, em frente ao seu armazém, com a bandeira da Shell, a primeira bomba de combustível de Baturité.

Da bomba de gasolina do Zé Ricardo, conta-se, houve um começo de incêndio que não se propagou graças à argúcia do seu Lulu, dono do ônibus que, agilmente, arregimentou gente que ao lançar areia sobre as chamas evitou desastre maior.

Muito atrasado, até a primeira metade da década de 1950, o povo de maneira geral, principalmente os dos arrabaldes, não conheciam sequer um picolé. Os poucos que tivessem saboreado o doce gelado, na certa o fizeram durante o Congresso do Seu Ananias – ocasião em que algum maluco comprou a idéia de trazer picolé para revender no extraordinário evento religioso.

Da viagem, o picolé chegava numa lata cilíndrica, esta, por sua vez, dentro de uma caixa de madeira cheia de gelo, raspa de madeira e sal, coisas certas para manter gélida a temperatura que garantia a vida do artigo – sem derreter.

Acontece que com o balançar do ônibus, pela trepidação própria da estrada de barro, o sal do gelo salgava o picolé que deste modo perdia a qualidade de doce, mas não de gelado.

A cidade passou mesmo a conhecer o verdadeiro delicioso picolé, e não só isso, mas também sorvete, sanduiches, salgados, refrigerantes e cerveja gelada no ponto quando, noutra vez Zé Ricardo, como desbravador, resolve instalar a moderna sorveteria que tomou a metade do seu amplíssimo armazém, a mesma que durante algum tempo passou a ser o local muito freqüentado pela população de posse.

Ainda faz parte do pioneirismo do Zé Ricardo a primeira loja de peças de veículos. Montada na Travessa Mattos a loja de peças e pneus atalhava que os motoristas e mecânicos – Zé Raimundo e Zé Aristides – que antes se dirigiam a Fortaleza para adquirir componentes necessários nos consertos.

Na política Zé Ricardo, em 1950, induziu o grupo de comerciantes amigos – Mario Mendes, Mesquita Pinheiro, Zé Farias, Zé Francelino, Zé Bruno Maciel, Oziel Rabelo, Adauto Pinto – membros de uma excursão que fizeram a Paulo Afonso para lançar candidatura própria do PSP – Partido Social Progressista. Escolhido o candidato Dr. Álcimo Aguiar, este só não se elegeu por causa da inesperada união das forças políticas antagônicas – Ananias Arruada e João Ramos – para derrotá-lo.

Candidato de muitos pleitos à Prefeitura ficou marcado no folclore político da Cidade uma suposta passagem onde o Zé Ricardo chamado para o fechamento de uma campanha, em palanque, crente de que estava munido do discurso elaborado pelo filho Aedo, tendo a frente um microfone e uma multidão aguardando sua palavra, começou a procurar o “improviso” mexendo e remexendo os bolsos do paletó.

Sem conseguir encontrar o tal discursos, como realmente não encontrou, inadvertidamente como a boca colada ao microfone, falou:

- Pois não é que os Filhos da Égua do outro lado roubaram meu discurso!

O certo é que desta ou de outra vez realizou o sonho de ser prefeito. Aconteceu em 1966 quando foi conduzido pelas urnas ao comando do município durante o período compreendido entre 25.03.1967 até o mesmo dia e ano de 1971, ocasião em que deixou toda cidade agradecida pelo muito que realizou.

José Ricardo da Silveira e sua esposa Dona Lourdes, tiveram os seguintes filhos, Aedo, Aécio, Aélio, Mirian, Adilson, Franzé e Inácio dos quais tivemos oportunidade de conviver e ser amigo dos mais velhos.

O QUARTEIRÃO SUCESSO (II)

O QUARTEIRÃO SUCESSO DE BATURITÉ (II)
Subindo em lojas contíguas, vizinha das Casas Pernambucanas, o comercio continuava com a Alfaiataria do Vicente Bigodão – negócio muito proveitoso já que na época, década de 1950, inexistia venda de roupa feita.

O fato de toda casa possuir uma Singer – máquina de costura – estas não atrapalhavam a vida dos profissionais da moda. Na verdade estas máquinas – sendo de uso domestico – mais serviam para fazer consertos ou, quando muito as roupas de crianças, pois até as senhoras quando queriam se vestir bem procuravam a modista.

Da alfaiataria quem lhe garantia o sucesso era o público adulto masculino e, esse nicho de consumo, por sinal o de maior poder de compra, Vicente Bigodão dividia com o único concorrente de sua categoria, o Wilson Alfaiate, filho do mestre Permínio, o “General” da Banda de Baturité.

Nos dias de folga o Bigodão fazia lazer no mato, caçando animais e aves silvestres – hoje um pecado contra a ecologia, ontem, ainda sem o discrime de extinção animal.

Os companheiros de caçada eram os de sempre: Napoleão, comerciante do Barracão, Zé Mesquita da Vencedora e o industrial Dedim Viana, todos eméritos caçadores que, vestidos à caráter e equipados chegavam a passar noites inteiras na mata.

Junto da alfaiataria negociava o Senhor de Castro com armazém de secos e molhados, tipo de negócio que, também, praticava escambo – troca de comestíveis por matérias primas industriais, couros, mamona, oiticica, coco babaçu, etc. que juntadas em grandes quantidades eram negociadas na capital.

Homem forte, bem apessoado, sempre bem vestido o Senhor de Castro, parecia ser um homem valente e temido. Sabe-se dele que, sem motivo aparente quase mata a tiros o jovem, também temível, Airton Garcia que, conduzido para a Assistência Municipal de Fortaleza, escapou dos ferimentos à bala provocado pelo comerciante.

Do negócio do Senhor de Castro partiu o incêndio causador de prejuízos em todo quarteirão porque os vizinhos, precipitados, numa ação de “salve-se quem puder”, colocaram seus estoques mercadorias no meio da rua facilitando a ação de aproveitadores que lhes furtaram as mercadorias.

Ao se mudar da cidade, por motivos ignorados, o Senhor de Castro passou o ponto para o irmão Aluisio de Castro, industrial do ramo de serraria que, bem sucedido e influente, teve passagem, também, na política como vereador de diferentes legislaturas.

O quarteirão em continuação entra na Barbearia do Próspero, responsável pela boa aparência masculina, o velho salão viu cortados cabelos de muitas gerações.

De uma das cadeiras do salão, o Edmundo, barbeiro de voz baixa e cantada, ao ver sentado o freguês, de tesoura e pente na mão lhe perguntava quais dos cinco tipos de corte desejava:

– Cabeleira, meia cabeleira, corte de máquina, raspado de navalha ou Príncipe de Gales?

Muitas vezes sem entender a pronuncia do último corte, o matuto chamado “Boi da Serra”, nos dias de feira, ao querer retornar à casa mais bonito, respondia em cima das buchas:

– Crista de Galo! – sem comentário o “cabeleireiro” a sorrir, colocava os óculos, comprado no Zé Farias, sem receita, e começava o serviço.

Ainda da Barbearia do Seu Próspero, vele lembrar o Mudo, engraxate, terrivelmente valente que, só ao se deparar com ele muita gente, assustada, mudava de calçada.

Característica multifuncional, a Barbearia do Prospero franqueava seu quintal às necessidades urinárias dos permissionários do mercado que, inexplicavelmente, não possuía sequer um mictório e, no mais, servia de ponto de chegada e partida do ônibus do seu Lulu que fazia a linha de Fortaleza.

O QUERTEIRÃO SUCESSO (I)

O Quarteirão Sucesso de Baturité (I)

Depois de “A Praça Santa Luzia Lado do Sol”, destaque do tumulto dos negócios, na frente do mercado, entre as travessas Bernardino Proença e Hildo Furtado, a partir desta crônica e em capítulos seguidos, veremos como era este pedaço da Rua Sete de Setembro.

Na década de 1950 no primeiro prédio, onde hoje funciona a loja do Niltinho, instalou-se uma filial das Casas Pernambucanas. Gerenciava-a o baturiteense João Camarão, moço que tendo aprendido a “arte de vender” com o lojista Édolo Barsi, depois aproveitou a prática para crescer no importante grupo comercial.

Merecer filial do conglomerado – Casas Pernambucanas de Lundgren Tecidos S.A.-, além de privilegiar, evidenciava a pujança da economia do município, motivo pelo qual os nativos se orgulhavam de pertencer ao seu corpo de funcionários. Quem os viu trabalhando não esquece o atendimento profissional dado, na hora da compra, pelos vendedores Carlos Gomes, Adolfo, Cesarina, Fransquinha e Manú.

Este último, o Manú tão bom no balcão quanto no trato com a bola na hora de fazê-la rolar no Estádio do Monte Mor, era ponta direita da fauna dos craques abaixo que sustentou a invencibilidade do quadro durante mais de cinqüenta jogos, a saber: Iran; Riba e Pupú; Rodolfo, João Batista e Carlos Gomes; Manú, Alberto, Mamede, Pinheirinho e Zé Sergio. (*)

Futebol à parte, ainda, é preciso dizer que a extraordinária vida profissional de João Camarão e Carlos Gomes na Lundgren Tecidos continuou quando ambos gerenciaram outras unidades do grupo muito mais importantes, até, que a de Baturité.

Quanto ao Adolfo este, por competente, desempenhou, durante anos, funções de chefia da RFFESA – Rede Ferroviária Federal, onde se aposentou.

A Cesarina trabalhou na loja enquanto era gerente o Sr. Carlos, pessoa de fora, muito branca de olhos azuis. Ao sair das Pernambucanas, Cesarina foi trabalhar com o irmão Ademar de Barros na loja de tecidos que acabara de montar.

Ah! Da Fransquinha, como é bom falar. Primorosa no papel de filha da centenária dona Maria dos Anjos, hoje orgulhosa, bem que pode mostrar o magnífico fruto que colheu do casamento com o Renato: a pessoa do já ilustre advogado Francisco Xavier.

Vai por muitos anos que, noutra vez, a Lundgren Tecidos S.A., já havia animado o comércio da santa terrinha com uma loja na própria Rua Sete de Setembro com o Beco do Pompeu num prédio construído pelo major Pedro Mendes Machado por volta de 1924.

Depois dali, então na Travessa Mattos com a Rua Sete de Setembro, em 1942, por causa da origem alemã dos donos – As Pernambucanas -, sob a gerência do Chico Campos, foi saqueada durante o quebra-quebra de quando o Brasil declarou guerra contra o Eixo Roma-Berlim-Tóquio na 2ª. Guerra Mundial.

Consta que dentre os lideres “patriotas” responsáveis pelo saque se encontrava o nada menos, sempre presente em todas, Zé Perequeté.

(*) Fonte João Rodolfo Pinheiro.

OS CORDEIROS


Última foto do Senador João Cordeiro

Os Cordeiros

Sem nenhuma estátua levantada para ele, João Cordeiro, pelo que representou na vida da cidade, merece, pelo menos uma pagina na historia de Baturité.

Filho João Cordeiro da Costa e Floriana Angélica da Vera Cruz Cordeiro nasceu em Santana do Acaraú em 31. 08.1842. Nos primeiros anos de vida fez o que fazem todos os meninos da sua terra – brincava com gado de osso, tomava banho no rio, andava montado nos carneiros, bezerros e cavalos, ia ao roçado buscar milho feijão e melancia.

Somente aos 11 anos ingressou na escola; aos 13, rapaz de muito propósito, começou a trabalhar com um parente e de caixeiro logo se tornou gerente de dois armazéns; aos 18 se mudou para Fortaleza e ali se empregou no escritório do Barão da Ibiapaba.

Em 1864, impetuoso, tenta viajar para os Estados Unidos, via São Luis do Maranhão, sem conseguir realizar seu intento volta para Fortaleza. Em 1868, feito guarda-livros, segue para Recife e dali se transfere para Mossoró para assumir o cargo de comprador de algodão da indústria dos irmãos Barão e Visconde de Cauípe, empresa que ele logo a transformou numa exportadora.

De Mossoró retornando à Fortaleza presta serviços de contador para diversas empresas comerciais e industriais. ((Em conseqüência da capacidade de trabalho alcança o cargo de Diretor da Caixa Econômica), líder de classe faz-se Presidente da Associação Comercial do Ceará para o biênio 1877 e 1878).

Durante a seca de 1877/79, na qualidade de Comissário Geral de Socorro Público, foi João Cordeiro quem, oportunamente, proveu às verbas destinadas as obras da Igreja Santa Luzia e Palácio da Câmara de Baturité iniciativa do intendente Pedro Pereira Castelo Branco, para empregar os flagelados que procuravam o solo fértil do lugar para escapar das agruras daquela quadra aterrorizante.

Com relação à Baturité outro episódio marcante se na vida do grande homem, “aconteceu quando a Comissão Executora do Projeto de Construção da Estrada de Ferro de Baturité resolve que a estação de Baturité deveria ser apenas um ramal a partir de Canoas, hoje Aracoiaba, deixando, assim, de ser a meta principal. Ao saber que a Comissão daria início a essa modificação, o valente e prestigioso João Cordeiro reuniu e armou duzentos homens e telegrafou ao governo, dizendo que se tentassem levar avante a infeliz idéia, ele iria arrancar os trilhos. O “governo, então, determinou à Comissão Construtora que executasse a obra como (antes) estava planejada originalmente”. (Mundim de Baturité. (Traquinices & Traquinadas) Livraria Batista Souza & Cia. Rio.)

João Cordeiro se muda para Baturité em janeiro de 1885 na ocasião se instala no Putiú com a firma comercial J. Cordeiro, e em seguida recebe a visita do empresário Isaías Boris, chefe da firma Boris Frères, que lhe abre um crédito de cem contos dinheiro com o qual monta em sociedade com Bernardino Proença a Fábrica Proença de beneficiamento de algodão com a primeira máquina de descaroçamento que se instalou na província, e outra para extração de óleo e fabrico de resíduos.

Na penúltima década do século XIX, empenhados no movimento contra a escravidão dois grupos se controvertiam no Ceará: o dos emancipacionistas – adeptos da libertação lenta e gradual – e o dos abolicionistas – favoráveis à libertação imediata. Como as divergências não admitiam a instituição de um regimento satisfatório para as duas partes surge à necessidade de um mediador.

Em Fortaleza, designado para resolver o assunto, em dia estabelecido, João Cordeiro fez entrar os interessados num recinto batizado por ele de “Sala do Aço” onde todos se acomodaram em torno de uma grande mesa.

Fechada a porta da sala, João Cordeiro, que ocupava a cabeceira, levanta-se, arranca o punhal do cavado do colete e atira-o no meio da mesa onde ficou cravado e recitou o seu alvitre:

“Art. 1º. Um por todos e todos por um. Parágrafo Único – A sociedade libertará os escravos por todos os meios ao seu alcance.”

De todos os divergentes sobraram apenas dez membros para compor a Sociedade Libertadora do Ceará, da qual João Cordeiro saiu Presidente. Estes mesmos dez nunca mais abandonaram o palco do abolicionismo do Ceará.

Par a passo com a luta pela abolição, nos momentos em que mais ressoava a peleja a sociedade presidida por João Cordeiro tinha o apoio da esposa Dona Carolina Cordeiro, vice-presidente da Sociedade Feminina Libertadora do Ceará.

Depois da abolição João Cordeiro despontou na política como Ajudante de Ordens do General Presidente Floriano Peixoto durante a Revolta da Armada, e daí exerce dois mandatos seguidos de Senador da Republica (1892-1897 e 1897-1905) e dois de Deputado Federal (1906-1908 e 1908-1911) e no pequeno intervalo entre os dois mandatos de deputado foi, ainda, prefeito do Território de Alto Juruá, parte do Acre, desta vez a convite do presidente Nilo Peçanha).

Enquanto na política os negocio da família – a fabrica de algodão e um hotel – ficaram a cargo dos sobrinhos Francisco Cordeiro de Souza, João Cordeiro de Souza e Antonio Cordeiro de Souza.

Francisco Cordeiro de Souza foi Intendente Municipal (1905-1908), casado com dona Umbilina (Biloca) Catão, irmã do advogado e historiador Pedro Catão, do casal são lembrados os nomes abaixo que formaram as famílias assinaladas entre parênteses, a saber: Pelágio (Cordeiro Brasil); Umbilino (Cordeiro Vieira); Ita (Cordeiro Oliveira); Araci (Cordeiro Maciel); e Maria Benvinda (Cordeiro Nobre); Enoe se casou com o major Pedro Mendes Machado e com ele não teve filhos; Ari se casou com um membro da família Dutra e também não constituiu família; e dos outros filhos – Juarez, Aluísio e Lincoln – esta pesquisas, ainda, não alcançou os sobrenomes gerados por casamento.

Antônio Cordeiro foi comerciante, estabelecido com loja de tecidos, no mercado de Baturité. Casado com dona Chiquinha Catão Cordeiro, também irmã de Pedro Catão, sendo os dois de Oscar (Cordeiro Portela) Lucia (Cordeiro Campos) e Osmar, deste ultimo a pesquisa também fica devendo o sobrenome completo dos descentes.

Um terceiro sobrinho do senador, João Cordeiro de Souza, gozava da intimidade do tio quando moraram em Baturité, foi ele quem traçou o perfil para o livro biografia – João Cordeiro – Abolicionista e Republicano. Nobre, Freitas. Letras Editora. São Paulo. 1943.

Extraída da memória de Mundinho do Baturité (Mundinho de Baturité (Traquinices e Traquinadas). Barros Filho, Raimundo. Tip. Batista Souza. Rio de Janeiro) é bom recordar, como se passou a velhice do ex-senador: em manga de camisa, com seu bonezinho, no alpendre do Hotel de Dona Biloca, depois de Dona Sinhá. Sempre cercado de muito carinho e consideração dos presentes.

No Livro de Ouro de Baturité, as efemérides abaixo, registram os nomes dos Cordeiros, nas diversas ocasiões que abaixo se seguem:

31.5.1895 – João Cordeiro de Souza assinou a 31.05.1895 a ata da Sessão Solene de Inauguração do Barracão das Carnes.

12.07.1903 – Francisco Cordeiro de Souza registrou sua presença ao assinar a ata da sessão de sua posse como Intendente Interino ocasião em que, ainda, e comemorou o Segundo Centenário do Descobrimento Oficial do Ceará, por Pero Coelho de Souza

15.12.1906 – Francisco Cordeiro de Souza, desta vez assina o ato de posse como Intendente Municipal Definitivo, bem como a ata de inauguração do Matadouro Modelo da Cidade. No mesmo ato encontra-se a assinatura do filho Aloísio Cordeiro.

25.01.1912 – Pelágio Cordeiro assinou a ata da aclamação do Intendente Municipal Joaquim de Alencar Mattos.

08.08.1912 – Enoe Cordeiro e Maria Benvinda Cordeiro assinaram a ata da manifestação da Câmara e do povo de Baturité ao nobre deputado Dr. Gentil Barreira.

18.05.1913 – Pelágio Cordeiro assinou o auto inaugural de assentamento da primeira pedra da Avenida Vinte e Cinco de Março.

28.05.1913 – Francisco Cordeiro de Souza e João Cordeiro de Souza assinaram a Ata da Organização do Partido Republicano de Baturité.

07.09.1922 – O coronel João Cordeiro, na qualidade de ex-senador da Republica, e um dos seus fundadores, presidente do glorioso movimento abolicionista que libertou o Ceará e o Brasil da escravidão, é convidado para tomar assento na mesa das autoridades da Sessão Solene da Municipalidade de Baturité em comemoração cívica ao 1º. Centenário da Independência do Brasil sob a Presidência do major Pedro Mendes Machado sendo secretário ad hoc o advogado Pedro Catão.

29.10.1930 – Francisco Umbelino Cordeiro assinou a ata da tomada de posse do Prefeito Municipal Alfredo Dutra de Souza.

14.01.1931 – Lucia Cordeiro assinou a ata da reunião em homenagem Capitão Juarez Távora por ter sido promovido a General.

Miguel Ferreira Maciel

Grande cronista, o historiógrafo e jornalista, João Brígido, fundador e proprietário do jornal Unitário, por muito tempo, de grande circulação e influência política no Estado, nos seus escritos deixou o contundente recado abaixo para quem insiste em catar nobreza de sangue nas ascendências matutas do sertão:

“Não se ofenda ninguém, todos que têm bisavós nos sertões do nordeste hão de encontrar na ascendência nomes gravados no pé da forca”.

A teoria mesma do genealogista por si pinta a desobrigação de enobrecer pelo sangue – tapuia, branco, ou negro – a figura de Miguel Ferreira Maciel, que faz jus à posteridade por de ter sido “o varão mais fecundo da família”, conforme bem afirmou, um dia, o seu neto cronista José Maciel.

Filhos de sertanejos, do tipo daqueles que nunca receberam sesmarias, Miguel Ferreira Maciel pertence ao mesmo clã de Miguel Carlos e Helena Maciel, irmãos heróis da guerra da família, de 1833, contra os Araújos de Boa Viagem e Quixeramobim.

Na vida, nunca fácil, dos Maciéis, era comum, ser acompanhada do desgosto de se vê fugindo das raízes na certeza de ganhar a vida longe.

A primeira grande arribada se deu em Aracati, em 1792, quando a seca dizimou os rebanhos que lhes garantia o trabalho. Depois durante a guerra da família contra os Araújos em 1833 – tempo em que, ainda era criança -, do Quixeramobim para o Icó, Miguel foi levado pela mãe Luzia Maciel a fim de livrá-lo do sentimento de vingança que se arraigava na raça.

No Icó Miguel cresce brincando com gado de osso, amansando jumentos, dando cangapés nos poços do Rio Salgado, divertimentos e atividades quase exclusivas da cidade que se gabava de ser pólo comercial da província. Muito embora cheio de sobrados e outras construções do século XVII, dona do rico Teatro da Ribeira, da antiga Casa da Cadeia e Câmara, dos diversos templos religiosos, diante de tudo, na primeira metade do século XIX, de Icó não se excluía a fama de ser, também, um lugar violento onde o crime grassava por suas ruas.

Há viver no Icó o sonho do menino Miguel era, um dia, se mudar para uma terra fértil, sem problemas da seca e, melhor ainda, distante da injustiça cruel que subjuga os pequenos.

Criado trabalhando, por este mesmo sonho, lutou e, até, juntou os precários recursos que, junto ao que herdou da mãe, lhe proporcionou o casamento com Felícia Maria, a qual moça com quem dividia suas aspirações desde o namoro. Recém casados, vão-se, os dois, em busca de Baturité.

Tangendo o burro arriado com dois caçoares, puxando pela coleira o inseparável cão de caça, vencido o caminho do Quixelô, o casal aventureiro alcança as areias quentes do Rio Salgado, de quando e vez, refrescadas pelas sombras dos pés de oiticicas que não lhes faltavam no leito seco.

Atingida a confluência do Salgado com o Jaguaribe, prosseguindo a viagem por cima das areias ressequidas, destas, vês por outra, eles tinham de subir nos barrancos para se desviar dos poços que insistiam em se manter cheios mesmo no verão.

Tendo o rio como bússola, os caminheiros chegaram a São Bernardo de Russas, de propósito, sem passar pelos campos do Quixeramobim aonde ainda grassava o rancor remanescente da luta dos seus primos contra os Araújos, muito embora já houvesse notícia de casamentos entre membros dos clãs inimigos.

Na proporção que se aproximam do Maciço de Baturité, chama-lhes a atenção a diversidade de relevo – serras, quebradas e sertão – tudo coberto pelo mesmo tipo de solo, argiloso e vermelho, razão da vegetação heterogênea que, por conseguinte, abriga todos os representantes da fauna cearen-se.

Uma vez no maciço, se estabeleceram no lugar Gitirana a meio caminho do Baturité e Canoas, hoje Aracoiaba, um agradável pé de serra realmente muito parecido com o que sonhara diferente do velho Icó dos senhores de gado, das secas e das disputas violentas.

Baturité já era cabeça de comarca, no auge da sua expressão econô-mica, começava a cultivar café na serra e estava muito próxima de ser elevada à cabeça de comarca.

Assim cheio de confiança o casal tratou de aumentar a família. No ano de 1851, nasceu o primeiro filho Raimundo; em 1856, Antônio; em 1858, Manoel Felício; em 1859, Cândida; e Maria, a mais nova só nasceu em 1872.

“Dom Pedro II era para o Brasil uma espécie de plenipotenciário do bom senso e de seriedade”. (Romero, Silvio, Euclides da Cunha. Rio. Editora Casa do Estudante Brasileiro, 1948.)

Os hábitos modestos e simples transmitidos às crianças retratavam a própria cultura do país – debaixo de liberdade vigiada eles viveram a infância e a juventude tal como desejados, na fazenda, sem conflitos realmente sérios que tivessem merecido registro especial na crônica da família.

Sobre a vida de Miguel Maciel, há um caso contado pôr José Alci Ma-ciel Paiva que mostra o lado severo que usava na educação dos filhos.

Anos antes do advento da estrada de ferro o velho precisava viajar para a Fortaleza a fim de visitar seu primo Antônio Vicente que se encontra-va preso naquela cidade, vindo da Bahia sob acusação de crimes que nunca praticou.

FOTO DE FELÍCIA MARIA

FELÍCIA MARIA MACIEL

AO INVÉS DE FICAR LASTIMANDO O DESTINO DOS PARENTES NAS LUTAS DE QUIXERAMOBIM, A FIEL MATRIARCA TROCOU O RANCOR PELO DESEJO DE CRIAR UMA FAMÍLIA HONRADA LONGE DOS RUMORES QUE INSTIGAVAM OS JOVENS À VINGANÇA.

Assim mandou que os filhos lhe preparasse arriassem o melhor ca-valo trazendo-o já preparando para a longa viagem. Os rapazes, ao cumprir as ordens do pai, depois de lavar o animal no rio atrás da casa da fazenda, inadvertidamente, voltaram em disparada cansando de algum modo e sem necessidade o animal que passaria vários dias viajando. Mesmo notando o despropósito recebeu a montaria dos filhos sem nada reclamar. Não queria destratá-los na frente dos companheiros de viagem.

Objetivo de visitar o primo Antônio Vicente, não atrapalhou o tratar de negócio, quanto ao primo que chegara da Bahia preso por crime que não cometera, encontrou-o no escritório do Dr. João Brígido dos Santos, já solto por infundados os acusatórios que lhe foram imputados.

Cumprida a missão na Capital ao voltar a Baturité, somente depois de descansar da estafante turnê, chamou os filhos para prestar contas dos maus tratos que praticaram com o cavalo antes dele partir. O castigo mere-cido não constou somente de advertências, porque a educação rústica de Miguel não permitia deixar impune tamanho proceder, além destas, ele fez jus com a palmatória aplicando “bolos” nas mãos de cada um.

No terceiro quarto do século XIX, o progresso econômico de Miguel Ferreira Maciel acompanhava a expansão mesma do município. De lá, nin-guém precisava sair para saber o que acontecia no mundo, pois, desde 1859 Baturité já possuía seu jornal.

As notícias da Guerra do Paraguai (1864-1870) mesmo truncadas da-vam conta que além da malária, da epidemia de cólera, das balas dos inimi-gos a guerra fortalecia o exército brasileiro e que a vitória iminente começava a exigir maiores espaços dos soldados na vida nacional.

Quando em 1870 foi fundada em Baturité a primeira Sociedade Liber-tadora do Ceará, Miguel não participou do evento por partir de quem deseja-va a libertação para ser indenizado pelo governo por cada um dos escravos libertados, e, pasmem apoiados por outros que nem sequer tinham escra-vos.

O ano da chegada do primeiro trem a Baturité, por coincidência, foi o mesmo do nascimento de filha Maria. Aconteceu em 1872 com gente che-gando de todo canto em direção ao Putiú para ver o gigante a se locomover “comendo lenha e soltando brasa”.

No último quartel do século acompanha o desenrolar da terrível seca da história (1877-1879) a estiagem marcou profundamente a do homem já maduro. Naquele desprezível triênio, enquanto os filhos mais velhos se en-caminhavam na vida; Raimundo na agricultura, e Antônio no comercio, – ao se vê trabalhando na construção da Igreja de Santa Luzia ou do Palácio da Câmara, obras com a finalidade de empregar os filhos da terra e os flagela-dos da seca que invadiam a cidade – o terceiro, Manoel Felício preferiu emi-grar para o Amazonas.

A Proclamação da Republica para Miguel não foi mais do que um golpe contra Dom Pedro II, a nova forma de governo, embora já fosse esperada por reformas constitucionais, não podia nunca vir por força das armas.

Aproximadamente com oitenta anos morreu sem nunca mais o filho, mas tinha notícias dele como Coronel Franco Atirador lutando contra a Bolívia na Guerra de Libertação do Acre.

Informado pelo filho Antônio também tinha notícias da última expedi-ção do exército que conseguiu destruir o Arraial de Canudos, não deixando ali pedra sobre pedra. Soube também dos prisioneiros degolados coisa de que o primo Conselheiro também não escapou uma vez que seu corpo foi exumado para, também, lhe cortarem a cabeça. Felícia viveu até 1915, assistida por sua filha mais nova Maria Maciel Mendes Machado esposa do Major Pedro Mendes Machado.

Filhos

1. Raimundo Maciel 1851
2. Antonio Maciel, 1856
3. Manoel Felício Maciel, 1858
4. Cândida Maciel, 1863
5. Maria Maciel, 1872

O MERCADO (IV)

MERCADO CENTRAL (IV)

Na esquina sudoeste do Mercado de Baturité, até pouco tempo, sobrevivia um tipo de negócio que através do tempo desafiava todas as regras de modernização mercadológica.

Sob a passividade inerte do sucessor, Rui da Silveira, as mesmas instalações, então mirradas e sombrias, pelo menos há oitenta anos, testemunhavam a existência da respeitável loja especializada em vidros que herdou do pai José Augusto da Silveira.

Naquele tempo quem tinha uma vidraçaria em Baturité certamente também possuía um negócio rendoso haja vista o grande número de vidraças nas portas e janelas das residências dos donos do movimentado comércio, das indústrias de transformação e, até, dos Bancos nativos que a cidade os trazia com orgulho.

Todo agricultável, o território baturiteense abarcava uma parte montanhosa e outra parte – entre a serra e o sertão – de terras de transição cortadas de rios perenes.

Extenso o município era um dos maiores do Estado: limitava-se ao norte e a leste com Redenção; ao sul com Quixadá; a oeste e ao sul com Pacotí; e a leste com Aracoiaba.

No clima da serra brotava o melhor café do Brasil e a abundância de um cem números de frutas; pelos recostos do maciço, rasgados por ferrovia, desde o Putiú até Caio Prado, a riqueza ficava por conta da extração vegetal de oiticica, mamona, maniçoba e carnaúba; da exploração das minas de caulim; das densas capoeiras de algodão e cereais e, ainda, da vasta pecuária.

A fotografia abaixo, que trás ao centro a figura de José Augusto da Silveira, pelo rico estilo das indumentárias, dele e dos seus companheiros, revela a mais radiosa era de esplendor do velho torrão.

Da foto acima dentre os de pé: depois de dois desconhecidos está Chico Pequeno, ao lado deste, outro incógnito seguido de Oscar Cordeiro e Colombo Thaumaturgo. Sentados, depois de mais um ignorado, de terno branco, está Zé Augusto e em seguida Francisco Mesquita Pinheiro.

O MERCADO CENTRAL II

MERCADO CENTRAL (II)

O número de portas abertas do próximo ponto depois do portão – uma para o beco, duas para a Rua Sete, mais outra para acesso ao miolo do mercado – comprometiam a arrumação da loja, do José Duarte, mas em compensação, clareava os fiteiros e balcões cuidadosamente limpos a valorizar os estoques estrategicamente diferenciados para driblar a concorrência.

Homem de bem e de rara educação, José Duarte era branco, alto, passos largos, cabeça erguida, com cabelos penteados para o lado e estatura magra a realçar-lhe as roupas sempre bem cuidadas. Vindo de Saboeiro, chegou a Baturité por influência de José Lino dos Santos, avô do Zé Airles, que, procedente da mesma cidade de Saboeiro, já se encontrava, há mais tempo no maciço situado com terras na serra e sertão.

Ao se casar com dona Joselita Bastos, constituiu Zé Duarte, uma saudável família; de seus filhos, lembro mais nitidamente da Marlene, de admirável beleza; do Joãozinho, pela façanha de uma viagem a pé até Fortaleza; da Marly, a filha do meio, a mais comunicativa; e, ainda, da Ieredir, casada com Ernani Leal, cuja desastrosa morte abalou toda a cidade, de Luiza, hoje atuante nas lides forenses da capital e Francisca.

Baturité deve à abnegação de José Duarte e Osmar Marinho a fundação e construção do Balneário Itamaracá que se manteve como maior centro de lazer da cidade, modelo de administração e ordem, até quando o comando do clube esteve nas mãos dos dois amigos e outros comprometidos.

Passada para os sucessores, a existência do Balneário, pouco a pouco, também, se contaminou com a mesma torrente que, sucessivamente, adota a política de terra arrasada e não se cansa de mutilar o passado ditoso da cidade.

Do velho Balneário o certo é que as administrações seguidas, infelizes e danosamente, deixaram a entidade incapaz de ser freqüentada, até, pelos próprios sócios.

Dos poucos divertimentos que dava a si, Zé Duarte gostava da sinuca. Deste esporte se gabava de ser bom jogador, muito embora, muitos freqüentadores do bilhar comentassem a boca pequena, que ele nunca aprendera a jogar.

Rua acima no próximo ponto negociava o bodegueiro prata de casa Alfredo Xavier de Almeida que apesar de aparentar o contrário – calmo, comedido, sem pressa – era comerciante diligente.

Especialista em nada o estoque da bodega abrangia tudo – caixão de defunto, dobradiças, puxadores, anzol, vara de pescar, chumbo de espingarda, pólvora, corda de violão, mamadeira, chupeta, espelho de bolso, pente, cambito, liga de baladeira, bila, taxinha, prego, parafusos, porca, martelo, marreta, torquês, trado, plaina, alicate, prumo, escala, esquadro, lamparina, candeeiro, querosene, lanterna, pilha, foquito, tinta, cola, goma laca, breu, goma arábica, alvaiate, papel decorado para forro de mala, papel almaço, papel de embrulho, papel de seda, papel crepom, corda, cordinha, cordão, barbante, caderno de pauta, de caligrafia, caderneta, tabuada, carta de abc, caneta, lápis, grafite, tinta Parquer, transferidor, linha, botão, agulha, bobina, bastidor, fitas, fitilhos, cianinha, panela de ferro, panela de alumínio, panela de barro, faca peixeira, prato, copo, talher, pano de passar café –, e, até, coisas folclóricas como bainha de foice, suspensório para cobra etc..

O princípio arcaico do ter tudo, no entanto, com o correr do tempo, fez Alfredo mudar de idéia: modernizou-se, embarcou na especialização e, por isso, acabou sendo dono do único magazine focado na venda de eletrodomésticos há seu tempo.

Alfredo era pai da Irene – que casou com o Chico Victor, o Frango Assado, já falecido; da Iracilda, a mais alta de todas; da Ângela; e da Eneida, esta casada com o Fred; tinha ainda o único filho homem, Roberto, rapaz de futuro garantido no comércio se não fora a morte prematura e trágica num acidente com fogo.

Alfredo morava na Rua Dom Bosco, na mesma residência que, ainda hoje exibe na sacada da janela a proteção de marmorite com as iniciais do antigo dono AXA.

Chegada à casa de Alfredo, minha família residia no Sobrado dos Maciéis que por ser muito grande juntava os próprios filhos da casa com os da redondeza ocasião em que criavam diferentes maneiras de brincar.

Numa brincadeira de barbeiro na qualidade de freguês perdi minha cabeleira pela obra da barbeira, minha prima Aurora, que ao me pelar, ainda me fez chorar quando aplicou uma baforada de álcool nos meus olhos.

Eneida a mais nova das filhas do Alfredo Xavier, loirinha que ostentava lindíssimo cabelinho orgulho da mãe, também foi vítima da mesma brincadeira. Uma vez e, desta vez, atuando como um barbeiro, lhe cortei três dos cachos que lhe adornavam a risonha cabecinha.

Por essa atitude, perdi a amizade das irmãs adolescentes, mas não da própria Eneida e do pai Alfredo, isso naturalmente porque achados que estavam em fases opostas da vida, a criança não se deu conta da maldade e o adulto, por sua vez, optou por contorná-la.

OS BANATES

OS BONATES

Por José Maciel

Penso que, excetuados aqueles de quem descendo pelo lado materno, cujo sangue veio ter ao Brasil possivelmente com um artesão ou mercador filho da península itálica, por aqui chegado aí pelo terceiro século de colonização, não se conhecem outros Bonates por todo território nacional.

Admito que a dificuldade, natural e tão comum ao indígena, de assimilar nomes estrangeiros, levou-o a desfigurar o vocábulo original, tornando cada vez mais árduo encontrar o personativo de onde veio a corruptela – Bonates.

E pode mesmo estar mais distante do que suponho a chegada do alienígena, pois também não seria possível, à falta de documentação, positivar se tal se deu por via direta, isto é, vindo o estranho de sua pátria, ou indiretamente, com a tripulação de alguma nau portuguesa, sabido é que, já em 1530, a vetusta armada de Martim Afonso de Souza teve de parceria com o rei, fidalgos portugueses que confiaram a mercadores italianos seus interesses no empreendimento.

No seu livro “Primeiros Povoadores do Brasil”, J.F. de Almeida Prado, refere-se a Luiz Unhatte (ou Onãte) descendente de Henrique da Cunha.

Unhatte ou Onãt, é como diz o autor, sem saber qual é o nome verdadeiro ou a corruptela. E não é de estranhar que um e outro sejam adulterações desse nome de família que foi um dos diversos em que se dividiu a progênie daquele patriarca luso.

O exemplo serve para ilustrar a confusão reinante, mas não se despreze a semelhança entre Onãte e Bonates.

Do mundo mediterrâneo, particularmente, vieram, como se sabe, os povoadores do Brasil. Dali partiram, por muito tempo, grandes armadas para descobrir e conquistar novas terras. Portugueses, franceses, espanhóis, genoveses, seriam, portanto, como foram, os mais destacados figurantes da história do nosso descobrimento e colonização.

Depois do último conquistador, intensificou-se a corrente migrante de ambiciosos; mercadores e piratas, gente do mar vindas de remotas distâncias.

Aqueles que integraram as grandes frotas da coroa portuguesa tiveram os nomes escritos nos diários e memoriais redigidos, ao tempo, no lírico estilo de Pero Vaz de Caminha. Deles tem falado os cronistas, exaurindo fontes de informação, embora seja de presumir que muito ainda resultará do vasculho insistente dos profissionais da história.

Quanto aos outros, os que aqui aportaram, à revelia do colonizador, a estes só a tradição se reportaria e apenas quando para referir algum acontecimento ligado à vista da colônia.

Faz-se assim, o mistério sobre os fundadores de muitas castas divididas através dos tempos.

Se os estudiosos e eruditos, na sua unanimidade, não tem tido como contornar o silêncio que esconde as origens de tanta linhagem, em vários períodos de nossa história, já se vê que, escrevendo uma crônica para jornal, não vou descobrir o meu longínquo antepassado, mas simplesmente repetir a narrativa singela que ouvi, muitas vezes, quando em intimas reuniões com os do meu sangue.

Contam estes que, ao apagar das luzes do século XVIII, ceio a ter AP Jaguaribe, das bandas do Rio Grande do Norte, um tal de Bonatti, emigrante europeu, italiano de nascimento, trazido a tão distantes paragens certamente pelo mesmo sonho de riqueza que deslocou, durante muito tempo, da Europa meridional, tantos outros audaciosos flibusteiros e andarilhos.

O nome de Batismo desse atiradiço perdeu-se no fumo do tempo, mas sua raça multiplicou-se, desenvolveu-se e, salvo no adotar da corruptela com o vulgo afeiou-lhe o nome, honrou-o, superando vicissitudes sem conta, por quase dois séculos de lutas, sonhos e esperanças.

Naqueles sertões desertos e silenciosos, o forasteiro introvertido sentiu com certeza recordações da primavera de sua pátria e, estimulado pelo sentimentalismo ancestral, começou um romance com a mestiça que, sem tardar, tomou por esposa.

Os anos correram escondendo em sua esteira vertiginosa todo um capítulo, o último da vida do velho Bonatti. E, quando o século XIX ia vencer o sexto lustro, surge em Baturité um Bonates, trazendo no coração anseios de vida mais calma e, na memória, vivas saudades de outros latagões de olhos azuis como ele, desgarrados pelo flagelo, pela aventura, pela seca.

José Bonates da Cunha era recém chegado. Homem humilde, conversador, pilhérico, tinha a tez cobreada e a mandíbula vigorosa da sua raça. Alfaiate de profissão, nas horas vagas exercitava as suas qualidades de pescador emérito.

Na casa que ainda hoje, conserva a mesma arquitetura, ao lado da Prefeitura Municipal de Baturité, criou, esse meu pacífico avô materno, treze filhos hoje desaparecidos.

O último dessa numerosa prole, cujos varões eram em número sete, foi meu tio Antônio Bonates da Cunha, nonagenário falecido, há pouco, no Rio de Janeiro, pai do General Abílio Pontes Cunha, que, pelo casamento com uma jovem que conheceu em São Paulo, ligou duas antigas famílias baturiteenses- Bonates e Ramos.

A geração que sucede não dá sinal de impedir o iminente desaparecimento do belo nome d família, antes apressa essa injustificável abdicação, deixando de usá-lo, como se faz desde há muito, entre bem próximos descendentes do velho alfaiate magricela, alourado, de quem se recordam famosas pescarias.

Bonatti, o vocábulo harmônico, na sua romântica beleza lembra ainda a aventura remota do latino ousado, atravessando o Atlântico, naquelas eras em que o mar constituía um caminho temeroso, para caldear o sangue ariano.

Crônica de José Maciel publicada no UNITÁRIO em 18.10.80