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ESTRANHA HOMENAGEM

sábado, 24 de abril de 2010

No alvorecer do dia sete de julho de 1942, em Baturité, na residência do cliente, na Rua Quinze de Novembro, lado do sol, poucos metros acima da Rua Hildo Furtado, o contador dava os últimos retoques na Declaração do Imposto de Renda da NOVA AURORA, loja de tecidos, chapéus, camas, colchões e miudezas da Rua Sete de Setembro. O guarda livro era José Maciel, cunhado e primo do dono da casa e da loja o Mario Mendes.

Terminada a missão os dois se aproximam do rádio. Ansiosos. Sintonizados na BBC de Londres, eles queriam escutar as notícias da Guerra da Europa.

A transmissão, direta para o Brasil, estava quase inaudível, por causa dos chiados e da zoada, lá de fora, porque, em plena madrugada, os comboieiros, aos gritos, estralavam os chicotes nas traseiras dos jumentos.

Os pobres animais com pesadíssimos caçoares arriados em cada lado das cangalhas, sem ninguém para controlar excessos, escambichados com tanto peso, traziam da serra produtos agrícolas destinados à feira.

Lá de dentro, da casa, de repente, ouvem-se gemidos nervosos da dona da casa. Ela estava em procedimento de parto. Os gritos de dor superam todos os sons, até que o alarido, pouco a pouco vai sumindo, e, enfim, dá lugar ao choro forte do segundo filho.

Quando dona Maroca Maciel de Paiva, a parteira, trouxe o recém nascido, todo asseado, e vestido num jaleco branco, para os primeiros afagos do pai, foi José Maciel quem primeiro falou:

- Este vai ser contador!

- Disso, não sei – respondeu o pai -, mas seu nome será uma homenagem a mim mesmo, Mario Mendes Junior!

O PADEIRO

domingo, 29 de novembro de 2009

O PADEIRO

Cesto, lona, e fregueses, além disso, João Papôco não precisava de nada para sair, lá das bandas da Praça da Matriz até o Putiú vendendo pão.

Não me lembro a que hora ele religiosamente descia. Não esqueço, porém, do canto alto, arrastado, e extremamente agudo com que oferecia o comestível simplório:

- Pãooooooooo….. quenteeee!!! Da Padaria São Vicente!!!!!!

Ao que a negrada continuava em cima das buchas:

- Quem come dele cai os denteees!

Se ele gostava ou não do repique, também, não sei.

O certo, porém, é que ao coro insultante, ele treplicava, o mesmo jargão, desta vez e com a veemência que podia alcançar ele esbraveja o grito:

- Pãooooooooooooo….. quenteeeeeeeee!!!, Da Padaria São Vicenteeeee!!!!!

Pelo que a negrada, do mesmo modo, respondia, com a ênfase de mais adeptos do insultar:

- Quem come dele cai os denteeeeeeeeees!

Incansável, cesto ao ombro, cesto ao chão, ele, pacientemente, ia despachando os fregueses, indiferente aos agravos.

Quem tinha algum dinheiro saciava o bucho com a saudável merenda recém saída do forno. Quem não tinha nenhum, ao invés de encher os olhos de lagrimas pela fome, como consolo, enchiam os pulmões de ar para aumentar o volume do coro que insultava ao João.

O Café Central

domingo, 22 de novembro de 2009

O CAFÉ CENTRAL

No sudeste da Travessa Mattos, em frente ao Mercado, esquina com a Rua Sete Setembro, ponto de convergência da cidade de Baturité, o Café Central, exalava, pelos quatro cantos do comercio a fragrância da rubiácea passada na hora.
Nos dias de feira, o aroma se misturava ao odor das baforadas dos cigarros ordinários dos matutos que, vindos das zonas rurais; dos povoados, das vilas das cidades satélites, efervesciam o comércio com os produtos que traziam para vender no meio da rua.

O vozeirão dos fregueses, os pigarros, os escarros, as batidas da colherinha na xícara para apressar a garçonete, nada, superava os gritos dos donos, seu Fransquim e dona Raimundinha a cobrar eficiência dos empregados.
As mezinhas de ferro fundido espalhadas no salão, com quatro cadeiras em volta, tinham, em cada uma, em cima do tampo de mármore, um açucareiro de vidro com tampa de metal. Estas quando viradas para baixo, derramavam o açúcar grosseiro que adoçava a especialidade da casa: café recém coado, puro, em xícaras pequenas, ou, com leite, em xícaras médias, acompanhado do tradicional pão passado com nata, ou, da fatia de bolo do tipo Luiz Felipe ou Souza Leão, assado na forma que delimitada o corte dos nacos.

Pioneiro o Café Central, uma vez, ensaiou, até, mudar de nome para Sorveteria Rainha, isso se deu, quando começou a fabricar o picolé Rei, produto vendido além do local, nas feiras, nos colégios e noutros pontos estratégicos, por vendedores avulsos que ofereciam a mercadoria gritando o conhecido jargão:

- Doce gelado! Abacaxi, maracujá, oi doce!

A famosa esquina teve seu momento de terror na Segunda Guerra Mundial. Nessa ocasião, ali, funcionava uma filial das Casas Pernambucanas, pertencente ao grupo Lundgren, de origem germânica. Assim, sob a gerência de Chico Campos, a loja sofreu o mesmo quebra-quebra que movimentou a nação quando da Declaração de Guerra, pelo Brasil, ao eixo Roma-Berlim-Tóquio.
Depois do saque das Casas Pernambucanas o ponto comercial sediou uma loja de João Paulino, irmão de Francisco Mesquita Pinheiro, o então dono do prédio, e, também, proprietário da “A Vencedora”, uma loja muito sortida estabelecida na principal esquina do mercado público que explorava o mesmo ramo do irmão – tecidos, chapéus e miudezas.

O Café Central teve seu dia de maior gloria quando o governador Raul Barbosa prestigiou o estabelecimento com sua presença para, lá, tomar uísque com seus correligionários, quando esteve em Baturité para inaugurar a Barragem Tijuquinha na década de 1950.

No local onde funcionou o Café Central está um prédio onde as linhas arquitetônias mostram o bom gosto do empreendedor que o reformou.

O Teco Teco

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O TECO-TECO
Como um assunto puxa outro, a propósito de minha crônica A Rua de Trás, recebi, diretamente de Michigan – Us, um email de João Alberto Figueiredo, que antes habitou naquele pedaço. Lembrava a queda de um teco-teco no canavial do seu Nenzim Lopes. Acontecimento que por incomum, ainda, não caiu no esquecimento.

Nesses tempos, João Alberto, filho de Manoel Figueiredo e Dona Puri acompanhado de seu melhor amigo e vizinho, o Stenio, filho do coletor federal Rubens Santana, procuravam o azulão, um cachorro, talvez.
Pelo lugar onde se encontravam, com certeza, também, saboreavam seriguelas, coisa conhecidamente proibida no sítio de Chagas Mariano e Dona Doria que não permitiam ninguém transpor o muro construído, justamente, para evitar visitas inoportunas deste tipo. Mas, como com menino a coisa é diferente, os dois, mais ou menos, aos oito anos de idade, sem dúvidas estavam ali sem permissão, às escondidas e, principalmente, escapados da vigilância rigorosa das mães.

O estridulado dos sanhaçus em disputa com silencio profundo, pouco a pouco, vai sendo superado pela zuada de mortor falhando, no rumo do canavial. Curiosos os meninos saíram debaixo das fruteiras em busca de uma clareira que pudesse lhes mostrar um pedaço de horizonte. Ao atingirem a plena luz, hipnotizados e deslumbrados, avistaram um teco-teco ainda baixando até cair de vez em cima a plantação de canas..

Sem pensar duas vezes os dois pestinhas, armados de baladeira, e ao atingirem uma distancia segura, sem saber por que começaram a “bombardear” o pássaro de ferro que na realidade já estava abatido.
Ao ver dois sobreviventes cambaleando ate o chão, gritando com eles, os amiguinhos saíram correndo para casa – cada um para sua.

Logo em seguida, ainda com muito medo, João Alberto saiu de casa, desceu pelo quintal, e viu uma multidão em volta da aeronave decerto socorrendo os tripulantes da aeronave que por sua fez tiveram ferimentos, mas, somente o susto.

Dentre os que vieram socorrer o piloto chegou à frente o Fernando Simões – apareceu por lá com uma “Bicicleta a Motor”, atrás dele, outros ciclistas tentando acompanhá-lo com suas bicicletas a pedal mesmo.

O piloto de nome Faria, não sei dizer ao certo, se já tinha alguma amizade com a família Simões ou se esta começou com o socorro do Fernando, mesmo porque, dar acolhida a quem precisa sempre foi uma característica daquela família portuguesa, com certeza.

A Rua de Trás

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

As casas do lado da sombra da Praça Santa Luzia, por um portão nos fundos, se correspondiam com a Rua João Cordeiro, mais conhecida como a Rua de Trás, isso, porque ficava nos fundos da Igreja de Santa Luzia.

Em seguida à ladeira de acesso ao Sítio do Seu Nezim, a Rua de Trás começava num monturo com muitos focus de queima.

Pegada ao munturo a primeira casa era da Dona Olindina, fincada num sítio grande e intransponível, de lá, nunca se via, ninguém, entrando ou saindo.

O sitio logo acima à Dona Olindina, que antigamente pertenceu ao meu avô, Pedro Mendes, este ao contrário daquele, era escancarado para todos e qualquer um. Ali morava o modestíssimo casal Manezinho e Ana criando seus filhos Zé Goiaba e Chiquinho. O casal vivia de prestar serviços domésticos, ele na pensão do seu Canuto e ela nas casas das famílias mais intimas, principalmente da dona Altair do seu Victor. O resultado do trabalho, com certeza mal dava para criar os filhos no meio das criações dos porcos e outros bichos que o Manezinho sempre os tinha.

Depois deste sítio residiam os Garcías. Parentes da minha mãe, antigos donos das Cajazeiras, no distrito de Pesqueiro no Capistrano. Chefe da família Dona Maria Garcia tinha seus agregados. Uma prima a Belinha, uma empregada a Raimunda Matias, e os sobrinhos afilhados Airton, Leni, Ivanirton e Valdeliz, Nicinha e Enide. O Ivanirton era um exímio fabricante de brinquedos. Fazia perfeitas replicas dos caminhões que circulavam em Baturité.

Imediatamente acima destes últimos o vizinho era Antonio Porfírio, casado com Dona Iza Victor, os dois pais de Hildão, que se casou com Enide sobrinha de Dona Maria Garcia, Antonildo que se casou com Olga, Edson, que se destacava por beber muita cachaça e ser meio “imbuanceiro”, sempre armado de amolada peixeira. Os irmãos mais novos eram o Paulo Victor, solteiro vacinado e muito namorador e a única irmã de nome Hilda. O velho Antonio Porfírio era um homem muito bom, calmo, fala mansa de católico dos mais fervorosos. Vivia da agricultura explorando um sítio no começo da Rua São Paulo, atrás do Sobrado dos Maciéis, perto da Boa Vista, onde produzia uvas, macaxeiras e outros produtos.

Meia parede com o Porfírio a rua prosseguia na casa mais bem cuidada do pedaço. Seus donos eram Dona Clarice e Zé Mesquita. Os filhos eram os gêmeos Antonio Augusto e Odília, a Noélia – já falecida -, o muito bom de bola Carlinhos, Titico e mais dois irmãos que por serem menores não tive o prazer de tê-los como colega de infância: o José, Dudé para os íntimos e Fátima. Essa última acabou sendo a administradora da casa quando os pais ficaram velhos em Fortaleza. O Carlinhos, hoje, tem um restaurante na Praça da Rua Érico Mota, muito freqüentado por baturiteenses.

Posteriormente à casa do Zé Mesquita, minha lembrança se confunde. Lembro-se da casa dos Viana, onde, então, não residiam, mas sim o português José Dias da Farmácia Mattos, pai de Gilberto e da Fátima. Não me lembro, também, se foi nesta mesma casa que habitou o coletor federal Rubens Santana, pais do Mário Edson que casou com a Leene Viana, Roberto, depois engenheiro da Reffsa, Luciano, Stênio e Socorrinha, uma linda criança, muito branquinha que falava com a língua pregada, ao responder como se chamava ela falava:

- Malia do Totorro Maciel Tantana.

Mais adiante moravam os Figueiredo, enquanto o marido cuidava do imenso sítio na serra a esposa, Dona Puri, cuidava dos filhos que não eram poucos, o Chico Aviador, amigo do Ivanirton, a Angélica, cujo nome fazia justiça a sua pessoa realmente angelical; o Toinho, meu colega em várias passagens, na infância, juventude e agora na boa idade; o João Alberto e o Pedro Ângelo que pela pouca idade, na época, não se fizeram amigos de infância de nossa geração. .

Posteriormente aos Figueiredo, moravam os Campos. Raimundo, padrinho do meu irmão Bebeto, sua esposa Dona Maria Campos, o casal tinha a filha Auxiliadora, uma linda criaturinha, muito amiga da minha irmã Duduia, e, o filho Francisco, hoje apelidado de Chico Papa, dizem, porque, na família do seu pai, cheia de padres e bispos, só faltava o papa que ficou sendo ele. Moravam com eles os tios, quase irmãos, Wilza, e Aristóbulo, esse um grande companheiro nas brincadeiras, os dois, se diziam de Acopiara, mas por tudo, e, por todos eram considerados baturiteenses.

Ainda subindo um pouco mais me lembro dos Lopes, do Aloísio, de inteligência impar, do Audísio, eles tinham duas irmãs solteiras, todos e todas, de gênese mais velha que a nossa.

Depois dos Lopes tenho na lembrança um rapaz de nome Zé de Deus, outro bom de bola e de outras brincadeiras, dele nunca mais se teve notícias.

Antes de chegar à Fábrica Velha, e para terminar, não dá para esquecer, de um sobrado, talvez, pelo estilo da época, revestido de listras horizontais entremeadas de cores vermelhas e brancas. Este foi construído por Manoel Felício Maciel, seringalista, ex-coronel Franco Atirador da Campanha de Integração do Acre, tio de meu pai, que morreu assassinado no seu seringal no Amazonas.

CAUSA OU INTENÇAO

domingo, 11 de outubro de 2009

No romper da década de 1950 existiam duas lojas de tecidos de maior destaque na cidade: a Nova Aurora de Mario Mendes e a Vencedora de Francisco Mesquita Pinheiro.

As duas, através dos reclames das irradiadoras, se digladiavam, cada qual oferecendo seus produtos, através de queimas, onde os preços, devido à acirrada concorrência, até, chegavam a comprometer os lucros.

Diz o velho chavão: amigos, amigos, negócios á parte.

Pois bem, afora a competição acirrada nos negócios, Mario Mendes e Mesquita Pinheiro de tão amigos que eram os dois, compraram, em sociedade, um carro, americano, modelo Rural do ano.

Essa tal Rural ficou famosa quando os donos juntaram Oziel Rabelo, José Ricardo, Adauto Pinto, José Bruno Maciel, José Francelino, José Farias, Ananias Frota, para saírem em excursão à Cachoeira de Paulo Afonso.

Ponto geográfico, então mais importante do nordeste, decantado por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, ainda mais, no momento em que o presidente Dutra tirara do papel o decreto de Getúlio para mover a construção da hidrelétrica, naquela ocasião, quem não cantava, assobiava o refrão da modinha:

- O Brasil vai, o Brasil vai, vai, vai…

Dessa viagem, ainda hoje, ninguém sabe se foi a “causalidade” ou a “intencionalidade”, quem a desviou de rota. O certo é que ao invés de Paulo Afonso ela foi esbarrar no Recife, a capital do frevo, e, pasme, em pleno carnaval..

A camioneta mal estacionou na Rua Nova enquanto trocavam o baião pelo frevo os baturiteenses eram arrancados da porta do hotel por um grupo folião arrastando-os para o meio do bloco Galo da Madrugada.

Seduzidos pela música e pela apoteose de corres, pirados pelo cheiro do lança perfume, e inebriados pela bebida, o grupo desaparece debaixo do som alucinante do legítimo ritmo pernambucano.

Assim, contagiados pela folia de Momo os baturiteenses acabaram brincando os quatro dias seguidos do melhor carnaval do Brasil, às vezes junto à multidão nas ladeiras de Olinda e outras vezes nos melhores clubes sociais da capital maurícia. De certeza, se sabe, que na cachoeira eles nunca estiveram. A prova a disso é que no montão de retratos que trouxeram, em nenhum deles, a aparece a famosa queda d’água.

Carta ao Senador.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Fortaleza (CE.) 23 de junho de 2009.

Ao
Senador José Nery
Brasília – DF

Parabéns pronunciamento Senado Federal sugerindo afastamento do seu Presidente |José Sarney.

Este cidadão sendo o responsável pela nomeação dos principais envolvidos na crise parlamentar é no mínimo co-responsável por seus atos.

Concordamos com o presidente Lula, Sarney não é um homem comum!

Realmente ele não tem nada de COMUM. Ele é mesmo INCOMUM,

As pessoas comuns não conseguem permanecer na crista política durante meio século fazendo o que ele FAZ ou não FAZ.

Já é hora deste velho moço deixar a política em paz!

Talvez fosse melhor, para ele, justificar sua imortalidade na Academia Brasileira de Letras mesmo falando de ”maribondo” – sem nenhuma alusão negativa ao himenóptero predador de muitos insetos nocivos.

Saudações

Mario Mendes Junior
Bacharel em Direito e Empresário.

A Casa do meu Avô em Baturité

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Um Toque de Distinção

O major Pedro Mendes Machado, antes da Praça Santa Luzia ser constuída, reformou uma das duas casas que possuía ali, entre a Pensão Canuto e a residência de Miguel Victor.  Assim ele oferecia à  segunda esposa, Enoe, uma resdência digna e à altura do aprazível logradouro, a seu tempo, o melhor lugar para se morar na cidade.

Fachada de platibanda,  porta de entrada com grades de ferro antecedendo-a, e, do lado, em nível mais alto, duas sacadas balaustradas, protegendo duas janelas de rasgo em madeira almofadadas e envidraçadas.

Planta baixa muito comum, constituída de sala de entrada e sala de visitas ao lado. Quatro quartos, todos com portas de bandeirolas contíguas ao corredor que terminava na a sala de jantar, único departamento a se estender em toda a largura da área construída.

No “lá dentro”, adiante da sala de jantar, do lado direito, cresce o espaço de serviço coberto de meia água com parapeito. Este departamento abrigava o quarto de empregada, a dispensa, a cozinha, e, por fim, o banheiro. À esquerda, lado de fora do parapeito, uma parreira a produzir uvas para o vinho caseiro do Major.

Costume de toda cidade, a casa se correspondia com a rua de trás através de portão no fundo do quintal. Antes do tal portão, uma coberta de telha cobria a lavanderia, depois desta um banheiro, com o tanque enorme para o banho de cuia – a água geladinha, vinda da serra, arrepiava os corpos de frio. O tanque, às vezes, servia de “piscina” – regalia liberada só quando chegavam os netos de Fortaleza. Depois do banheiro, já encostado no muro de trás ficava o depósito de lenha. Ali um empregado muito gago chamado Braulino arrumava as achas de lenha que os “botadores” traziam em carradas de 50 achas nos lombos dos jumentos. Um dia, o Braulino deixou o emprego da casa do Major por causa de um papagaio que o chamou de ladrão.

Tanto na disposiçao dos móveis como nos arranjos, brotando luxo sem ostentação,  o toque de distinção chegou à casa junto ao bom gosto da segunda esposa.

Na sala um piano, um conjunto de marquesa e cadeiras de palhinha suíça em verniz preto, embatia-se com o chão de tabuas corridas, largas e brancas, em contraste com as paredes pintadas a óleo, cinza quase azul onde o quadro, preto e branco, do Coração de Jesus era o único adorno

Das três portas da sala, uma convergia para o quarto do casal, o autêntico encanto do lar. Os moveis em verniz marfim constavam de um guarda roupa com tres portas e um gavetão abaixo delas, uma cômoda com espelho de cristal, rebaixado, dividindo-a em dois lances de gavetas, depois, uma penteadeira de banqueta estofada em veludo escarlate, e, no mais, a enorme e alta de cama.

Neste ambiente intimo, a nova senhora, perdidamente enamorada do distintíssimo cônjuge, mostrava todo o seu pendor para a decoração. O espontâneo alinho da roupa de cama, colchas, lençóis e fronhas, toda marcada com ponto cruz, o realce da disposição do lavatório, bacia e jarra de prata polida, sobre a cômoda e, até, os objetos pessoais na penteadeira, arrumadinho ao bel-prazer da dona, tudo era delicado.

Na sala de jantar a mobília não seguia o estilo dos outros moveis. A mesa com doze cadeiras não tinha nada de especial. O relógio, tipo americano, era comum aos usados na época. O contraste do espaço ficava por conta de uma imensa cristaleira, anosa, estilo, entre o bruto e o trabalhado, a guarnecer um cabal aparelho de porcelana inglesa, rosa choque com branco, bordas douradas e o decalque “Mendes”.

O Come Unha

domingo, 17 de maio de 2009

Cronista José Maciel

O Ceará, sob o governo do comendador Acioli, foi para Baturité, um período de intensa atividade política. As correntes de “Grupão” e “Grupinho” davam à cidade, por esse tempo, uma animação que consistia, muito particularmente, na ostentação com que os situacionistas conferiam certo lustre ao seu poder discricionário, e na polvorosa dos arraiais oposicionistas, festejando com bailes de gala e passeatas ruidosas o mais corriqueiro telegrama do General Piragibe, anunciando vaga esperança de uma revisão constitucional.

Para agüentar esse clima de rivalidade é que os dois partidos mantinham duas bandas de música, o que não é muito de admirar, tendo-se em conta que, nessa mesma época, dois jornais circulavam na cidade – o “Oitenta e Nove” e o “Município”, este hostilizando a situação, aquele defendendo-a.

Dessa quadra tão entusiástica é que recordo o velho Raimundo Viriato, pintor de ofício e músico integrante da charanga oposicionista. Conheci-o já velho, impressionando a minha meninice com a voz muito cheia, que tanto ajudava-o ma dramática exposição de casos fantásticos, dos quais guardo ainda certa história macabra vivida por ele, em pleno meio dia, no cemitério local. É curiosa a afinidade que descubro entre a voz maciça do velho pintor e o tom grave do grande baixo metal amarelo, que conduzia ao ombro nos desfiles jubilosos do “Grupinho”.

Mais tarde, conheci o outro – Raimundo Viriato Filho – pintor, laqueador, empalhador de cadeiras, e, como o pai, músico de ouvido. Mundinho é como o chamavam. Desde criança foi neurastênico, vivia sempre dominado por esse azedume doentio dos indivíduos envenenados pelo pessimismo. Não exercia nenhuma das suas atividades por ofício e, por isso mesmo, jamais foi mestre de qualquer delas. Contudo trabalhava.

O sestro de roer as unha talvez estivesse, para sua constituição instável de nevropata, como uma válvula de escapação, por onde surgiam fermentos de revolta, para deixá-lo, por longos trechos, alheiado da realidade.

Mas, até mesmo este derivativo, transformou-o, a rua, em instrumento de perseguição. Surgiu um desalmado que alcunhou-o de “Come Unha”.

E ainda foi adiante a adversidade. Mundinho tinha uma pronúncia nervosa agravada por um vozeirão de estentor. Falava aos arrancos. Um dia, quando dava larga ao temperamento, alguém perversamente, gritou: “Bode!”. Não foi preciso mais. A partir daí, aumentou-lhe o tormento. A cidade inteira aderiu ao gaiato, e espirrava, berrava atrás do Mundinho, num encarniçamento insuportável e cruel. De seu lado, “Come Unha” conhecia as mazelas de toda a população e vingava-se rasgando picadinhos de todos quantos o martirizavam. A luta era sem tréguas.

Muitas vezes, sua indignação, levada ao quase desvairamento, converteu em comédia a revolta intima, natural e justa, traduzida por despautérios e ameaças.

Certa ocasião, achando-se Mundinho na Mercearia de Joaquim Pinheiro, fronteira à padaria de Manoel Simões Dias, sucedeu que um feirante ofereceu a esse último um courinho de bode. Simões, português pilhérico, apontando para Mundinho, deu-o como comprador de peles e insinuou ao matuto que fosse negociar com ele o courinho. Esse foi ter com o Mundinho, e quando falou em vender-lhe a pele de bode, “Come Unha” disse-lhe as últimas. O beradeiro já estava para ir às veias de fato, mas Joaquim Pinheiro, compreendendo a pilhéria, interfere, acalma os ânimos, explicando ao vendedor a razão de tudo.

Não devo omitir a técnica pessoal com que Mundinho exercia a função de cobrador, apresentando contas que lhe confiava alguns, certíssimos de que ninguém o faria com mais eficiência. Era de ver o argumento sumário que desenvolvia, fazendo sentir a conveniência de liquidação do débito. Explicava seu minguado interesse na cobrança, quando o pagamento parecia não sair, quase responsabilizando o devedor pela inutilidade do seu esforço, uma vez que o ajuste com o credor era à base de comissão. Se o devedor era surdo à sua ponderação, nem assim decedia-se deixá-lo. Horas inteiras, ficava-se, mal humorado, resmungando, e se afastava-se, era para ficar mirando da calçada fronteira a casa do desgraçado, com olhos terríveis e disfarçando a raiva num assobiozinho imperceptível.

Dizia-se que tinha um amor. Alguns até asseveravam que esse romance enchera toda a sua mocidade e entrara com ele para a segunda metade da vida, apesar das amargas desilusões de uma vida triste e falhada. Nunca pude encontrar o fundamento desses cochichos indiscretos com que a língua do mundo enfeitava de azul a história árida de Raimundo Viriato Filho. Não ouso, entretanto, contestar a presença de um sonho, que teria sido a única esperança nos dias atormentados do músico-pintor. Afinal, Mundinho era uma criatura humana, e, como tal, sem meios para fugir ‘as grandes e eternas leis do coração.

É inegável que foi a mais expressiva das figuras curiosas de Baturité do seu tempo, dentre os quais, entretanto, não é lícito deixar de mencionar Suliça, artista completo no arremedar a fala de quantos conhecia particularmente autoridades e pessoa de destaque social; Raimundo Moreno, o homem misterioso que a inspiração escondeu neste engenhoso enigma:

“Quem é quem é: – queijo no ombro, cachimbo no queixo, bengala de arame na mão?”

Afinal já sexagenário, Mundinho partiu para a outra vida, depois dos sofrimentos terríveis com que insidiosa moléstia encerrou-lhe a peregrinarão.

Maciel, José. Minhas Idéias/Crônicas. Editora Aula. Rio. 1986. Pg. 233.

A Pedra Aguda

terça-feira, 12 de maio de 2009

PEDRA AGUDA
José Maciel

Vai para dois anos, em palestra com o Dr. José Alci Paiva, convidei-o para fazermos uma excursão a Pedra Aguda, lugarejo no município de Aracoiaba, que tira o nome do penhasco colossal que lhe fica a ilharga, espécie de munumento ciclópico isolado em meio à planície.

Sabia-o íntimo de pessoas residentes no local, desde que exerceu as funções se secretário da Prefeitura Municipal de Aracoiaba.

Estávamos, então, no inverno, e, muito naturalmente, assentamos que o passeio se efetivaria nos primeiros dias do verão. Uma coisa, porém, eram nossos planos, e outra, muito diferente, a rigidez de obrigações profissionais que, de tão imperativas, acabaram por tornar fortuitos os nossos encontros. Assim não se realizou a projeta excursão.

Não data, entretanto, desse convite o meu propósito de ir àquele arraial completar apontamentos, para uma reportagem a respeito da pedra formidável erguida a prumo naquele recanto hostil do sertão, a apontar para o céu, como se lhe dera algum gênio misterioso, a missão de indicar, através de séculos sem fim, o roteiro imutável de gerações.

Durante o decênio compreendendo de junho de 1936 a setembro de 1946, viajei regular e pontualmente, uma vez por mês, para Baturité, levado por responsabilidade de ofício. Indo e vindo pela estrada de ferro, habituei-me à soberba e onolvidável perspectiva da Pedra Aguda que, a partir da estação de Antonio Diogo, surgia altaneira, sempre que o espaço entre duas elevações do terreno deixava livre a paisagem do sertão. A pureza atmosférica emprestava ao penedo um azul magnífico, sob cuja branda impressão vinham-me à lembrança, histórias misteriosas de que a lenda urdia, com certo encanto, o romance emocional da pedra solitária. Lá estava, prisioneiro, o casal de príncipes encantados por alguma fada perversa, a contar tristes árias de amor; o galo, companheiro dos dois reclusos, cuja voz argentina ouvia-se, ao meio dia em ponto, colando o ouvido ao flanco áspero da rocha; o tênue penacho de fumaça a escapar-se do alto cimo, no crepúsculo matutino, revelando as primeiras atividades domésticas. E tantas outras quimeras deliciosas que escondem a fatalidade brutal de uma provável convulsão monstruosa, cuja força irresistível plantou ali, para sempre, o rochedo gigantesco envolto no seu manto azul.

Mas, é que a hora das fadas passou. Agora, o correspondente de um matutino na capital, em comunicado especial, conta-nos, de Baturité, que um bando de destemidos operários escalou o penhasco, deixando plantado no topo, a centenas de metros de altura, a blusa molhada de suor de um dos bravos alpinistas.

Não conheço o correspondente em causa, mas, já que sei o nome, nada me custa dizer-lhe, com o entusiasmo que me causou o seu cuidado de registrar e divulgar um acontecimento, de fato, importante para o interesse turístico da região: – Muito bem, Sr. José Augusto Pinheiro! Salve! Em meio ao desinteresse geral da terra por problemas magnos, como é hoje o turismo, o seu comunicado abre uma clareira e por ela cai um feixe de esperanças sobre os propósitos da geração nova.

Amanhã, talvez, uma estrada bem cuidada comece a levar visitantes ao pé do monólito formidável, para experimentarem a emoção daquela grandiosidade que impõe-nos à alma assustada com o fascínio irresistível das coisas eternas.

E depois, quem sabe? – Baturité começará a ser centro de atração turística,

(*) Maciel, José. Minhas Idéias/Crônicas. Aula Editora. Rio de Janeiro. 1986. Pg. 183.