UM PASSEIO AOS JESUÍTAS

8 de janeiro de 2012

Dentre as poucas maneiras de se divertir em Baturité nenhuma se comparava ao anseio de formar um grupo para subir a serra, a pé até o sítio dos jesuítas, e improvisar uma turnê em volta da Escola Apostólica.

Percorrida a parte urbana, o prazer da caminhada começava logo na casa do Tim – um negociante, tipo popular da cidade, que sabia comprar e vender como ninguém. Sem ponto certo nem tampouco especialização, antes de fazer qualquer negócio, Tim preadivinhava a necessidade do freguês. Da sua casa o alpendre guarnecido por arcos lhe cedia ares de beleza rústica.

Ainda sem a Via Sacra o que, então, mais chamava a atenção dos caminheiros, portal do Sitio Olho D’água, eram duas colunas de estilo compacto que, mesmo sem porteira, dava sentido à propriedade particular dos padres.

Daí a poucos minutos, na primeira subida, a vegetação ainda semelhante à caatinga, já revela certa robustez dada à fartura das palmeiras de coco catolés. Mais ao alto, na faixa de transição, os marmeleiros, jurema preta, juazeiros, pau branco, rareiam, enquanto os ipês amarelos começam a abundar. Dali dum arremate de grota prontamente se vislumbra um dos mais interessantes panoramas de Baturité: o casario, a Igreja Matriz, o Palácio da Prefeitura, as duas ruas paralelas, a Igreja de Santa Luzia, o Cemitério e a Cadeia Pública.

Na seqüência do caminho cada pedaço de estrada com sua característica: no corte o musgo seco das paredes convidava a cada um, fazer sua declaração de amor – bastando para tanto, com cinzel de pedra pontiaguda, desenhar seu nome ao lado do nome do amor cobiçado.

Logo depois do corte, à direita a vereda em direção à piscina natural precedida de cachoeira lindíssima, mas proibida para menores: rezava a lenda da morte de uma jovem, afogada entre as pedras do perigosíssimo lugar, por isso, batizado de Poço da Moça.

Mais adiante vista igual só na Europa! O despontar do majestoso e monumental prédio dos jesuítas antecipadamente visto dum rasgo de mata quase virgem. Adiante a ponte, muito alta, debaixo dela passeia o Aracoiaba entre as pedras lisas como sabão.

Outra vez mais acima a casa velha do sitio socada num sovaco de serra de pouca vista, mas de muita água. Depois desta, uma encosta em linha reta se acaba na ultima na curva que finalmente passa a mostrar, de perto, o prédio com a pujança impar do estilo português – quatro andares de paredes a cal e pedra, sem reboco, portas e janelas trabalhadas com vidraças e talhas pintadas de azul colossal a compor a igreja e a escola – paraíso de centenas de andorinhas que, ao menor ruído, se desprendiam do beiral de telhado com vôo e canto característico dos lugares sossegados.

Do edifício, o interior era privativo dos padres e dos alunos seminaristas. A entrada de estranhos se restringia ao templo altíssimo, fiel a expoente da espiritualidade mesma da ordem religiosa fundada pelo contra-reformista Santo Ignácio de Loyola no século XVI.

Porta voltada para o poente, dominando a vista para o sertão, a capela, de nave única, sustentada em colunas ligadas entre si por arcos estilo romano, cheia de altares flanqueados nas laterais, todos submetidos à magna arquitetura do altar maior com a imagem do Cristo Rei exaltando a eucaristia.

No mais dentro da igreja duas curiosidades silenciosas, extremamente diferentes, por impressionantes, ficavam gravadas na mente dos visitantes: uma pintura na parede lembrando o naufrágio de jesuítas nas costas do Brasil ao tempo da colonização; a outra, um ossário, onde, em urnas mortuárias, repousam os restos mortais de cada um dos padres ou irmãos leigos que morreram servindo à causa jesuítica do Baturité.
Atitude que sói costumava suceder com a maioria dos visitantes era conseguir uma confissão com o padre Artur Emílio Redondo, sacerdote jesuíta que sabia ser humilde e manso, praticar uma grande devoção a Nossa Senhora e viver continuamente unido a Deus em Espírito de Oração.

Atualmente venerado como santo, o Padre Redondo, por seus méritos, uma vez falecido, no céu, intercede junto a Deus pelos que lhe procuram para obter a graça de viver e morrer como bom cristão, ou, em particular, para conseguir outra graça desejada.

AS CURRIOLAS

29 de dezembro de 2011

Quem teve o prazer de ler os comentários do Hugo Pinheiro, remédio valoroso para a memória de qualquer um, na certa se deliciou de ver lembrado tantas personalidades, então juvenis, do universo urbano, “lá de baixo” e “lá de cima”, de Baturité, sempre reunidos na Praça Santa a valorizar a criatividade mesma das brincadeiras, próprias dali, nos anos entre 1945 e 1951.

Pesquisador percuciente Hugo Pinheiro, em primeiro lugar rende homenagem à sua turma representada pelos “lá de baixo”, moradores da própria Praça Santa Luzia da Praça Santa e adjacências, a saber: Gilson Viana Martins (o Quirrite), ao Francisco Rocha Victor (o Neném); aos irmãos Rainá e Souzinha (filhos do Sr. Napoleão e Dona Raimundinha); José Alfredo Pinheiro, o Mandioca, Hugo Pinheiro (ele próprio, o Aguía) estes dois, irmãos de numerosa família; ao João Viana, (o João Caravana); ao Paulo Rocha; ao Luiz (o Loló da Dona Lica), ao Leônidas, ao Figueiredo, o “Aviador”; aos Joacy Pereira Lima e Romualdo Pereira Lima (filhos do Sr. Leôncio do Bar); ao Heleno, da família Arruda; aos irmãos Ivanirton e Airton Garcia, da Rua de Trás; Lindenberg e Cleto (filhos do capitão Faraó); aos irmãos Edmar, Eliomar (o Chinês) e Raimundo Alexandre (o Lambe-Lambe), estes três, filhos do Sr. Clarindo, comerciante do mercado residente no Calçamento (assim era chamada a Avenida Dom Bosco); Carlos Bandeira irmão da Lalá; Chico Victor (o Chico do Zé Lopes), Fernando Simões, Joselí Viana e Pinheirinho. Da peraltice destaca o famoso Benedito Mosquito pelo costume que tinha, nos tempos de São João, de estourar bombas debaixo de latas. À mania perigosa, Benedito, ainda, acrescentava o toque de maldade. Ao acender o pavio com fósforo, estando o rojão a explodir, além da lata que, rapidamente, colocava em cima da bomba, além disso, ele deitava, em cima da lata, um sapo cururu para, mediante o estouro, vê-lo subir com lata e tudo. Dos menores “lá de baixo” – João Rodolfo Pinheiro; os irmãos, Mário Mendes Júnior (o Maninho), Pedro Alberto Mendes (o Bebeto); Marcelo Victor (Cabeça de Gato); Inácio (da Dona Lili Viana); Toinho, João Alberto, Zé de Deus, Luciano Santana, Aristóbulo, estes da Rua de Trás; por serem da raia miúdas todos eram simplesmente expulsos do patamar da igreja quando os maiores chegavam para brincar de RUBALÉ.

Da turma “lá de cima”, moradores das bandas da Rua Sete de Setembro, Rua Quinze, Avenida Proença, Praça da Matriz e seus arredores, memorialista, Hugo Pinheiro desenha o nome daqueles que não podia esquecer, dos amigos Zé Helder (o Jacaré);; dos irmãos Augusto, Luiz e Zezé Alves; dos, outros irmãos, João Batista, Bení e Ernani Furtado; Rômulo Barsi; José Ábner e seu irmão Carlos de Castro; os também, manos, Gil, Zoró e Múrcio Furtado; do José Olavo e Ernani Leal Dantas, os dois, irmãos da Tetê do Aedo e Maria do Carmo; do Juarez e Eurico Arruda, os irmão mais novos da numerosa família do Sr. Raimundo Arruda. Dos bandalhos “lá de cima” o destaque ficou por conta do Luzardo Sampaio rapaz que dava muito trabalho a seu pai (o legendário dono do bar José Sampaio) que castigava as traquinagens do filho com boa “surra” de cinturão. Como uma coisa é “mapiar à toa e outra é falar com tento” Aguía tirou da cartola das diabruras duas figuras antológicas no cenário baturiteense de seu tempo: – O Miguelzinho Arruda, grande intérprete da música italiana e portuguesa, artista obrigatório dos programas promovidos pelas irradiadoras locais com a animação do Olavo Peixoto; e – Diderot Franco, que ao se embriagar desdizia da razão rasgando dinheiro. Numa dessas, atitude de doido confesso, uma vez quando rasgou várias cédulas de “um mil cruzeiros”, teve que ser internado pelo pai, intelectual e jurista Augusto Franco, num hospital psiquiátrico.

Raimundo Raul Correia Lima

29 de dezembro de 2011

Nos últimos anos da ditadura de Getulio Vargas, a 21 de fevereiro de 1944, chegou nomeado prefeito de Baturité, pelo então governador em exercício Dr. Andrade Furtado, o crateusense Sr. Raimundo Raul Correia Lima, trazendo consigo o currículo político com a experiência de ter sido, anteriormente, prefeito, também nomeado, de Aurora e Icó.

Homem modesto, de parcos recursos, para poder se mudar, foi-lhe concedido pelo estado o custeio do transporte da família, inclusive de suas vacas preparadas para embarque na estação de José de Alencar. As vacas serviam para fornecer leite os filhos pequenos.

Chegado a Baturité com a esposa e dois filhos – José e Ana Zélia – o prefeito hospedou-se no Hotel Canuto, isso porque não gozou do privilégio de morar na residência destinada aos prefeitos, porquanto sua nomeação não agradava ao manda-chuva Ananias Arruda dono da aludida casa.

A prefeitura Raimundo Correia recebeu das mãos do professor Tito, moço muito estimado, motivo porque, até, temeu desagradar aos munícipes a quem o antecessor muito aprouvera, contudo, munido de experiência, o novo mandatário enfrenta de cabeça erguida o desafio.

Dos funcionários imediatos, Joel Furtado, José Furtado, Lica e dona Stela, esta, logo deixou a secretaria, talvez, por fidelidade ao coronal Ananias. Efetivos, os outros, de maneira profissional, principalmente diante da regulamentação de carreira que passou a remunerá-los e promovê-los de acordo com a capacidade de cada um, mostraram-se satisfeitos, ainda mais, no dia em que todos os cinqüenta, receberam os dez meses atrasados pelos antecessores, isso, mediante festa com cerveja, banda de música e espocar de foguetes sob as expensas do município. Da qualidade dos funcionários Raimundo Correia louva-se de ter nomeado secretária-tesoureira a Antonieta Alencar, moça inteligente e operosa administrativamente, ao mesmo tempo traça elogios ao Bertulino, de quem acabou compadre e seu Costa, bom eletricista, a Vicente Gregório, subprefeito de Capistrano, trazido de Aurora, de Raimundo Cosme e do Braulino responsável pela limpeza das ruas usando carrinhos de mão e uma carroça.

Naquele tempo, verdadeira apoteose, organizado por Ananias Arruda, acontecia o Primeiro Congresso Eucarístico, fazendo vibrar a cidade, mergulhada em estado de graça, de tal modo que, da população, quem não sabia cantar pelo menos lhe assoviava o hino.

Vendo-se excluído, mas forçado por Andrade Furtado, o prefeito não pôde ficar indiferente diante do acontecimento, porquanto, mandou limpar a cidade providenciou iluminação mais eficiente, estimulou a população a pintar a fachada das casas, colocou o carro da prefeitura à disposição do congresso, mandou melhorar a banda de música, muito embora o Sr. Ananias já tivesse conseguido outra em melhor condição. Na estação do trem, junto às autoridades Dr. Germiniano Jurema, Juiz de Direito, Dr. José Rolim da Nóbrega, Promotor Público, e o Sr. Pedro Silvino, Delegado de Polícia, como Prefeito Municipal recepcionou Bispos, Padres e Seminaristas convidados e, no mais os saudou-os, em discurso, no qual lhes entregava a chave da cidade.

Da lavra de Raimundo Correia, o livro “MINHA HISTÓRIA, TRABALHO, RECORDAÇÕES E PECADO, na parte dedicada a Baturité, mostra quão foi atribulada sua primeira administração, principalmente, pelo perfilhamento versus ao prestigioso Comendador. Das futricas políticas o livro destaca aquelas que o próprio prefeito executava em desfeita ao prestigioso coronel, a saber:

Achou de mandar, como realmente mandou transferir o sargento Delegado da Cidade que, por ordem do comendador, quis suspender, sem sucesso, uma festa na casa do Juiz;
Mandou podar uns fícus benjamins. Daí, acusado de destruir a arborização, acusado pelo Comendador, foi intimado a “justificar a inépcia” junto ao governador.
Acusado de não praticar a religião católica, foi argüido, pelo próprio Governador Pimentel;
Desagradou o Comendador ao facilitar que certo senhor Galvão, exibisse na prefeitura uma peça teatral já proibida por aquele;
Cedeu salão na prefeitura ao poder judiciário hostilizado pelos antecessores.
Prolongou a iluminação elétrica até o Hotel Canuto, para em conseqüência beneficiar a casa do Juiz às escuras por questões políticas;
Finalmente, acabou com o tabu que não permitia que se dançasse nos salões da prefeitura.

Da vida particular Raimundo Correia conta passagens inesquecíveis: nascimento, a 29 de maio de 1945, do quarto filho Francisco; outra ao morar no Sobrado dos Maciéis quando curou a coqueluche dos filhos com tangerina e jejum; outras ao se mudar para a antiga residência do José Pinto do Carmo, foi surpreendido por um incêndio, em seguida debelado por amigos; ainda naquela casa teve um empregado preto de nome Luiz que comprava carnes em seu nome e uma empregada que matou um peru tentando curá-lo de uma doença com água e cal; no quintal da mesma casa possuía uma engorda de porcos para venda.
Da dívida pública herdada, maiores que dois orçamentos, estas foram pagas com muito sacrifício mesmo não devidamente reconhecidas. Das outras realizações ao cortar verbas que oneravam a prefeitura, melhorou a, sempre precária, iluminação pública; instalou no sítio da prefeitura, antiga casa de Pedro Catão um campo de demonstração agrícola e venda de mudas enxertadas; tirou dos pobres necessitados a obrigação de pagar uma dívida ativa que lhes impuseram os antecessores.

Em maio de 1945. Com todo Baturité comemorando a queda de Berlim, com muita festa e o comércio totalmente fechado, a frente de tudo e de todos Raimundo Correia, partidário do acontecimento, não obstante o seu grande conceito na cidade foi demitido da prefeitura sem aviso prévio.
Certificado de que Andrade Furtado referendou sua demissão levado por Ananias Arruda, passou a prefeitura para Edmundo Bastos e, logo em seguida, mudou-se para Fortaleza, isso, com a ajuda da maçonaria e de alguns amigos, pois, na ocasião lhe faltava, até, o dinheiro para o transporte.

Pasmem os de hoje diante da honestidade dos de ontem.

A Proclamação na Mentalidade de HOJE

2 de novembro de 2011

No dia 15 de novembro de 1889, Pedro II, o reto, justo e liberal Imperador do Brasil foi destronado por questões militares.

Seu êmulo o Marechal – de Papelão – Deodoro da Fonseca, ao instalar um tipo de ditadura republicana logo foi derrubado por outro Marechal – de Ferro – Floriano Peixoto, que só agravou o regime.

Do caráter de liberdade, igualdade, honradez e, até, tolerância, que, no Império, exaltava o Brasil frente aos congêneres da America Latina, a nação brasileira, igualmente, passou a viver entregue à mesma ação de caudilhos, “salvadores da pátria”, que inundavam de sangue o continente desde o México até o Rio da Prata.

Do complexo de segurança nacional, do qual o primeiro Marechal foi pai, sob tal pretexto, o povo brasileiro suportou mais de cem anos de quarteladas e golpes militares – os soberbos remédios para suprir a deficiência das necessárias práticas parlamentares civis, na verdade, pouco acontecidas.

Do governo do Marechal Deodoro, o desempenho se restringiu atacar aos casacas – assim designavam os civis – que humilhavam a farda.

Do governo de Floriano o papel foi esmagar os movimentos contrários ao regime que ele centralizava – a Revolta da Armada ocorrida no Rio de Janeiro e a Revolta Federalista do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Da farda para a casaca, a transição não se deu por gosto.

Vitorioso pelas armas, a falta de habilidade política do metalico Marechal lhe interrompeu o desejo de permanecer ilegalmente no poder, motivo pelo qual, por desfeita, sequer compareceu à solenidade de entrega da faixa presidencial ao sucessor Prudente de Morais.

O QUARTEIRÃO SUCESSO (III)

27 de setembro de 2011

Entre o armazém do Toinho Cardoso e a sapataria São José de José Pinto Garcez no ponto com largura pelo menos o dobro de qualquer outra do pedaço, JOSÉ RICARDO DA SILVEIRA, sem qualquer tipo de especialização, negociava com tudo que podia existir dentro de um armazém.

Das quantas histórias se contam da vida de JOSÉ RICARDO DA SILVEIRA poucas falam do pioneirismo que tanto sucesso lhe trouxe na luta cotidiana que o fez vencedor em todas as diversas atividades que atuou tanto no comercio, na indústria na agropecuária e na política.

Através do trem José Ricardo recebia de Fortaleza açúcar, gêneros, enlatados, corda cordão, sabão, querosene, gasolina etc., e no mesmo trem mandava para Capital café, milho, feijão couros de animais domésticos e silvestres, mamona, oiticica, castanha e outros produtos da fauna e da flora regional comprados ou trocados em escambo.

Perdido no tempo, ninguém recorda como se dava o abastecimento de gasolina – puxada do tambor por torçal bombeado pela força pulmonar, o frentista fazia o retalho – lata ou meia lata – a despejar no tanque do veículo.

Pioneiro do abastecimento semi-automático foi Zé Ricardo quem instalou, na Rua Sete de Setembro, em frente ao seu armazém, com a bandeira da Shell, a primeira bomba de combustível de Baturité.

Da bomba de gasolina do Zé Ricardo, conta-se, houve um começo de incêndio que não se propagou graças à argúcia do seu Lulu, dono do ônibus que, agilmente, arregimentou gente que ao lançar areia sobre as chamas evitou desastre maior.

Muito atrasado, até a primeira metade da década de 1950, o povo de maneira geral, principalmente os dos arrabaldes, não conheciam sequer um picolé. Os poucos que tivessem saboreado o doce gelado, na certa o fizeram durante o Congresso do Seu Ananias – ocasião em que algum maluco comprou a idéia de trazer picolé para revender no extraordinário evento religioso.

Da viagem, o picolé chegava numa lata cilíndrica, esta, por sua vez, dentro de uma caixa de madeira cheia de gelo, raspa de madeira e sal, coisas certas para manter gélida a temperatura que garantia a vida do artigo – sem derreter.

Acontece que com o balançar do ônibus, pela trepidação própria da estrada de barro, o sal do gelo salgava o picolé que deste modo perdia a qualidade de doce, mas não de gelado.

A cidade passou mesmo a conhecer o verdadeiro delicioso picolé, e não só isso, mas também sorvete, sanduiches, salgados, refrigerantes e cerveja gelada no ponto quando, noutra vez Zé Ricardo, como desbravador, resolve instalar a moderna sorveteria que tomou a metade do seu amplíssimo armazém, a mesma que durante algum tempo passou a ser o local muito freqüentado pela população de posse.

Ainda faz parte do pioneirismo do Zé Ricardo a primeira loja de peças de veículos. Montada na Travessa Mattos a loja de peças e pneus atalhava que os motoristas e mecânicos – Zé Raimundo e Zé Aristides – que antes se dirigiam a Fortaleza para adquirir componentes necessários nos consertos.

Na política Zé Ricardo, em 1950, induziu o grupo de comerciantes amigos – Mario Mendes, Mesquita Pinheiro, Zé Farias, Zé Francelino, Zé Bruno Maciel, Oziel Rabelo, Adauto Pinto – membros de uma excursão que fizeram a Paulo Afonso para lançar candidatura própria do PSP – Partido Social Progressista. Escolhido o candidato Dr. Álcimo Aguiar, este só não se elegeu por causa da inesperada união das forças políticas antagônicas – Ananias Arruada e João Ramos – para derrotá-lo.

Candidato de muitos pleitos à Prefeitura ficou marcado no folclore político da Cidade uma suposta passagem onde o Zé Ricardo chamado para o fechamento de uma campanha, em palanque, crente de que estava munido do discurso elaborado pelo filho Aedo, tendo a frente um microfone e uma multidão aguardando sua palavra, começou a procurar o “improviso” mexendo e remexendo os bolsos do paletó.

Sem conseguir encontrar o tal discursos, como realmente não encontrou, inadvertidamente como a boca colada ao microfone, falou:

- Pois não é que os Filhos da Égua do outro lado roubaram meu discurso!

O certo é que desta ou de outra vez realizou o sonho de ser prefeito. Aconteceu em 1966 quando foi conduzido pelas urnas ao comando do município durante o período compreendido entre 25.03.1967 até o mesmo dia e ano de 1971, ocasião em que deixou toda cidade agradecida pelo muito que realizou.

José Ricardo da Silveira e sua esposa Dona Lourdes, tiveram os seguintes filhos, Aedo, Aécio, Aélio, Mirian, Adilson, Franzé e Inácio dos quais tivemos oportunidade de conviver e ser amigo dos mais velhos.

O QUARTEIRÃO SUCESSO (II)

8 de setembro de 2011

O QUARTEIRÃO SUCESSO DE BATURITÉ (II)
Subindo em lojas contíguas, vizinha das Casas Pernambucanas, o comercio continuava com a Alfaiataria do Vicente Bigodão – negócio muito proveitoso já que na época, década de 1950, inexistia venda de roupa feita.

O fato de toda casa possuir uma Singer – máquina de costura – estas não atrapalhavam a vida dos profissionais da moda. Na verdade estas máquinas – sendo de uso domestico – mais serviam para fazer consertos ou, quando muito as roupas de crianças, pois até as senhoras quando queriam se vestir bem procuravam a modista.

Da alfaiataria quem lhe garantia o sucesso era o público adulto masculino e, esse nicho de consumo, por sinal o de maior poder de compra, Vicente Bigodão dividia com o único concorrente de sua categoria, o Wilson Alfaiate, filho do mestre Permínio, o “General” da Banda de Baturité.

Nos dias de folga o Bigodão fazia lazer no mato, caçando animais e aves silvestres – hoje um pecado contra a ecologia, ontem, ainda sem o discrime de extinção animal.

Os companheiros de caçada eram os de sempre: Napoleão, comerciante do Barracão, Zé Mesquita da Vencedora e o industrial Dedim Viana, todos eméritos caçadores que, vestidos à caráter e equipados chegavam a passar noites inteiras na mata.

Junto da alfaiataria negociava o Senhor de Castro com armazém de secos e molhados, tipo de negócio que, também, praticava escambo – troca de comestíveis por matérias primas industriais, couros, mamona, oiticica, coco babaçu, etc. que juntadas em grandes quantidades eram negociadas na capital.

Homem forte, bem apessoado, sempre bem vestido o Senhor de Castro, parecia ser um homem valente e temido. Sabe-se dele que, sem motivo aparente quase mata a tiros o jovem, também temível, Airton Garcia que, conduzido para a Assistência Municipal de Fortaleza, escapou dos ferimentos à bala provocado pelo comerciante.

Do negócio do Senhor de Castro partiu o incêndio causador de prejuízos em todo quarteirão porque os vizinhos, precipitados, numa ação de “salve-se quem puder”, colocaram seus estoques mercadorias no meio da rua facilitando a ação de aproveitadores que lhes furtaram as mercadorias.

Ao se mudar da cidade, por motivos ignorados, o Senhor de Castro passou o ponto para o irmão Aluisio de Castro, industrial do ramo de serraria que, bem sucedido e influente, teve passagem, também, na política como vereador de diferentes legislaturas.

O quarteirão em continuação entra na Barbearia do Próspero, responsável pela boa aparência masculina, o velho salão viu cortados cabelos de muitas gerações.

De uma das cadeiras do salão, o Edmundo, barbeiro de voz baixa e cantada, ao ver sentado o freguês, de tesoura e pente na mão lhe perguntava quais dos cinco tipos de corte desejava:

– Cabeleira, meia cabeleira, corte de máquina, raspado de navalha ou Príncipe de Gales?

Muitas vezes sem entender a pronuncia do último corte, o matuto chamado “Boi da Serra”, nos dias de feira, ao querer retornar à casa mais bonito, respondia em cima das buchas:

– Crista de Galo! – sem comentário o “cabeleireiro” a sorrir, colocava os óculos, comprado no Zé Farias, sem receita, e começava o serviço.

Ainda da Barbearia do Seu Próspero, vele lembrar o Mudo, engraxate, terrivelmente valente que, só ao se deparar com ele muita gente, assustada, mudava de calçada.

Característica multifuncional, a Barbearia do Prospero franqueava seu quintal às necessidades urinárias dos permissionários do mercado que, inexplicavelmente, não possuía sequer um mictório e, no mais, servia de ponto de chegada e partida do ônibus do seu Lulu que fazia a linha de Fortaleza.

O QUERTEIRÃO SUCESSO (I)

3 de setembro de 2011

O Quarteirão Sucesso de Baturité (I)

Depois de “A Praça Santa Luzia Lado do Sol”, destaque do tumulto dos negócios, na frente do mercado, entre as travessas Bernardino Proença e Hildo Furtado, a partir desta crônica e em capítulos seguidos, veremos como era este pedaço da Rua Sete de Setembro.

Na década de 1950 no primeiro prédio, onde hoje funciona a loja do Niltinho, instalou-se uma filial das Casas Pernambucanas. Gerenciava-a o baturiteense João Camarão, moço que tendo aprendido a “arte de vender” com o lojista Édolo Barsi, depois aproveitou a prática para crescer no importante grupo comercial.

Merecer filial do conglomerado – Casas Pernambucanas de Lundgren Tecidos S.A.-, além de privilegiar, evidenciava a pujança da economia do município, motivo pelo qual os nativos se orgulhavam de pertencer ao seu corpo de funcionários. Quem os viu trabalhando não esquece o atendimento profissional dado, na hora da compra, pelos vendedores Carlos Gomes, Adolfo, Cesarina, Fransquinha e Manú.

Este último, o Manú tão bom no balcão quanto no trato com a bola na hora de fazê-la rolar no Estádio do Monte Mor, era ponta direita da fauna dos craques abaixo que sustentou a invencibilidade do quadro durante mais de cinqüenta jogos, a saber: Iran; Riba e Pupú; Rodolfo, João Batista e Carlos Gomes; Manú, Alberto, Mamede, Pinheirinho e Zé Sergio. (*)

Futebol à parte, ainda, é preciso dizer que a extraordinária vida profissional de João Camarão e Carlos Gomes na Lundgren Tecidos continuou quando ambos gerenciaram outras unidades do grupo muito mais importantes, até, que a de Baturité.

Quanto ao Adolfo este, por competente, desempenhou, durante anos, funções de chefia da RFFESA – Rede Ferroviária Federal, onde se aposentou.

A Cesarina trabalhou na loja enquanto era gerente o Sr. Carlos, pessoa de fora, muito branca de olhos azuis. Ao sair das Pernambucanas, Cesarina foi trabalhar com o irmão Ademar de Barros na loja de tecidos que acabara de montar.

Ah! Da Fransquinha, como é bom falar. Primorosa no papel de filha da centenária dona Maria dos Anjos, hoje orgulhosa, bem que pode mostrar o magnífico fruto que colheu do casamento com o Renato: a pessoa do já ilustre advogado Francisco Xavier.

Vai por muitos anos que, noutra vez, a Lundgren Tecidos S.A., já havia animado o comércio da santa terrinha com uma loja na própria Rua Sete de Setembro com o Beco do Pompeu num prédio construído pelo major Pedro Mendes Machado por volta de 1924.

Depois dali, então na Travessa Mattos com a Rua Sete de Setembro, em 1942, por causa da origem alemã dos donos – As Pernambucanas -, sob a gerência do Chico Campos, foi saqueada durante o quebra-quebra de quando o Brasil declarou guerra contra o Eixo Roma-Berlim-Tóquio na 2ª. Guerra Mundial.

Consta que dentre os lideres “patriotas” responsáveis pelo saque se encontrava o nada menos, sempre presente em todas, Zé Perequeté.

(*) Fonte João Rodolfo Pinheiro.

SAUDADES DOS VELHOS CARNAVAIS

31 de agosto de 2011

Saudade dos Velhos Carnavais

A nação sob a presidência de Café Filho já se preparava para eleger Juscelino Kubitschek com a promessa de fazer o Brasil crescer cinqüenta anos em cinco. No Ceará, Raul Barbosa, diferentemente dos antecessores entregaria o Estado fechado para as “futricas” políticas. No Baturité, Miguel Edgy, fazendo o município figurar na lista dos dez mais progressistas do Brasil seria, para sempre, o melhor prefeito de todos os tempos.

O otimismo de tantos indicadores com certeza animou meu pai quando resolveu se mudar de vez, com a família, para Fortaleza.

Assim foi que, por livre e espontânea sujeição, em dezembro de 1954, lacrimejavam a bordo do trem suburbano na estação do Putiú, eu, meus irmãos e minha mãe. Em Fortaleza, já alugada, aguardava-nos a casa da Av. Duque de Caxias, 1887, que mal cabia nossa mobília, como, um dia, disse minha irmã.

Companheiro naquela viagem a figura do amigo Augusto Sergio, não esqueço, passageiro do mesmo horário, no mesmo carro, não sei se coincidentemente ou porque estava querendo ou já estava namorando minha irmã.

A mudança para a Capital, nos primeiros anos, não se tratou de uma pagina virada para a família emigrada; no ano seguinte, 1955, em fevereiro, regressamos a Baturité, para gozar dos últimos dias das férias que então prosseguiam até o final do carnaval.

Falar em carnaval, naquele ano de 1955, pela primeira vez, brinquei os quatro dias nos bailes dos adultos. Na quarta feira de cinzas fui curar a ressaca como aluno, de curtíssima permanência, da Escola Apostólica dos Jesuítas.

No ano seguinte, 1956, novamente o Baturité Tênis Clube me abriu as portas para mais uma inolvidável temporada momina. Campeã da ocasião a marchinha Turma do Funil deu nome ao bloco dos amigos Alber, Albécio, Albano e Augusto, Bosco e Chiquinho, filhos e sobrinhos do Juiz Dr. Aurino Augusto.

As marcha da Turma do Funil puxando o trenzinho de passistas em volta das salas quando atingia o assoalho do salão vizinho, batendo os pés fortemente, provocava um barulho altíssimo, mas não infernal porque cadenciado acompanhava o mesmo compasso da música:

Chegou a turma do Funil
Todo mundo bebe
Mas ninguém dorme no ponto
ah! ah! ah!
Nós é que bebemos
Mas, eles ficam tontos.

Novas férias no Baturité, no ano de 1957, novamente a alegria do carnaval, desta vez com o “Vai com Jeito”, bloco de sujo que, batendo na lata, desfilou pela Rua Sete de Setembro surpreendendo a população pasmada por não reconhecer os participantes, todos vestidos de mulher.

Terminada a função descobriu-se a cara de cada um. Dos companheiros foliões lembro nitidamente do Edilson Viana, do Zé Maria, porta estandarte cunhado do Dr. Assis e do João Batista Marinho, vestido de preto, simulacro de viúva desarrumada.

Ah! O Carlinhos Viana e o Padre Orlando (Edmar), estavam lá. Os dois do lado de fora, segurando a corda de isolamento, não podiam entrar porque eram pequenos, mas nem por isso deixaram de animar o cordão cantando:

Menina vai
Com jeito vai
Senão um dia
A casa cai.

OS CORDEIROS

21 de junho de 2011

Os Cordeiros

Sem nenhuma estátua levantada para ele, João Cordeiro, pelo que representou na vida da cidade, merece, pelo menos uma pagina na historia de Baturité.

Filho João Cordeiro da Costa e Floriana Angélica da Vera Cruz Cordeiro nasceu em Santana do Acaraú em 31. 08.1842. Nos primeiros anos de vida fez o que fazem todos os meninos da sua terra – brincava com gado de osso, tomava banho no rio, andava montado nos carneiros, bezerros e cavalos, ia ao roçado buscar milho feijão e melancia.

Somente aos 11 anos ingressou na escola; aos 13, rapaz de muito propósito, começou a trabalhar com um parente e de caixeiro logo se tornou gerente de dois armazéns; aos 18 se mudou para Fortaleza e ali se empregou no escritório do Barão da Ibiapaba.

Em 1864, impetuoso, tenta viajar para os Estados Unidos, via São Luis do Maranhão, sem conseguir realizar seu intento volta para Fortaleza. Em 1868, feito guarda-livros, segue para Recife e dali se transfere para Mossoró para assumir o cargo de comprador de algodão da indústria dos irmãos Barão e Visconde de Cauípe, empresa que ele logo a transformou numa exportadora.

De Mossoró retornando à Fortaleza presta serviços de contador para diversas empresas comerciais e industriais. ((Em conseqüência da capacidade de trabalho alcança o cargo de Diretor da Caixa Econômica), líder de classe faz-se Presidente da Associação Comercial do Ceará para o biênio 1877 e 1878).

Durante a seca de 1877/79, na qualidade de Comissário Geral de Socorro Público, foi João Cordeiro quem, oportunamente, proveu às verbas destinadas as obras da Igreja Santa Luzia e Palácio da Câmara de Baturité iniciativa do intendente Pedro Pereira Castelo Branco, para empregar os flagelados que procuravam o solo fértil do lugar para escapar das agruras daquela quadra aterrorizante.

Com relação à Baturité outro episódio marcante se na vida do grande homem, “aconteceu quando a Comissão Executora do Projeto de Construção da Estrada de Ferro de Baturité resolve que a estação de Baturité deveria ser apenas um ramal a partir de Canoas, hoje Aracoiaba, deixando, assim, de ser a meta principal. Ao saber que a Comissão daria início a essa modificação, o valente e prestigioso João Cordeiro reuniu e armou duzentos homens e telegrafou ao governo, dizendo que se tentassem levar avante a infeliz idéia, ele iria arrancar os trilhos. O “governo, então, determinou à Comissão Construtora que executasse a obra como (antes) estava planejada originalmente”. (Mundim de Baturité. (Traquinices & Traquinadas) Livraria Batista Souza & Cia. Rio.)

João Cordeiro se muda para Baturité em janeiro de 1885 na ocasião se instala no Putiú com a firma comercial J. Cordeiro, e em seguida recebe a visita do empresário Isaías Boris, chefe da firma Boris Frères, que lhe abre um crédito de cem contos dinheiro com o qual monta em sociedade com Bernardino Proença a Fábrica Proença de beneficiamento de algodão com a primeira máquina de descaroçamento que se instalou na província, e outra para extração de óleo e fabrico de resíduos.

Na penúltima década do século XIX, empenhados no movimento contra a escravidão dois grupos se controvertiam no Ceará: o dos emancipacionistas – adeptos da libertação lenta e gradual – e o dos abolicionistas – favoráveis à libertação imediata. Como as divergências não admitiam a instituição de um regimento satisfatório para as duas partes surge à necessidade de um mediador.

Em Fortaleza, designado para resolver o assunto, em dia estabelecido, João Cordeiro fez entrar os interessados num recinto batizado por ele de “Sala do Aço” onde todos se acomodaram em torno de uma grande mesa.

Fechada a porta da sala, João Cordeiro, que ocupava a cabeceira, levanta-se, arranca o punhal do cavado do colete e atira-o no meio da mesa onde ficou cravado e recitou o seu alvitre:

“Art. 1º. Um por todos e todos por um. Parágrafo Único – A sociedade libertará os escravos por todos os meios ao seu alcance.”

De todos os divergentes sobraram apenas dez membros para compor a Sociedade Libertadora do Ceará, da qual João Cordeiro saiu Presidente. Estes mesmos dez nunca mais abandonaram o palco do abolicionismo do Ceará.

Par a passo com a luta pela abolição, nos momentos em que mais ressoava a peleja a sociedade presidida por João Cordeiro tinha o apoio da esposa Dona Carolina Cordeiro, vice-presidente da Sociedade Feminina Libertadora do Ceará.

Depois da abolição João Cordeiro despontou na política como Ajudante de Ordens do General Presidente Floriano Peixoto durante a Revolta da Armada, e daí exerce dois mandatos seguidos de Senador da Republica (1892-1897 e 1897-1905) e dois de Deputado Federal (1906-1908 e 1908-1911) e no pequeno intervalo entre os dois mandatos de deputado foi, ainda, prefeito do Território de Alto Juruá, parte do Acre, desta vez a convite do presidente Nilo Peçanha).

Enquanto na política os negocio da família – a fabrica de algodão e um hotel – ficaram a cargo dos sobrinhos Francisco Cordeiro de Souza, João Cordeiro de Souza e Antonio Cordeiro de Souza.

Francisco Cordeiro de Souza foi Intendente Municipal (1905-1908), casado com dona Umbilina (Biloca) Catão, irmã do advogado e historiador Pedro Catão, do casal são lembrados os nomes abaixo que formaram as famílias assinaladas entre parênteses, a saber: Pelágio (Cordeiro Brasil); Umbilino (Cordeiro Vieira); Ita (Cordeiro Oliveira); Araci (Cordeiro Maciel); e Maria Benvinda (Cordeiro Nobre); Enoe se casou com o major Pedro Mendes Machado e com ele não teve filhos; Ari se casou com um membro da família Dutra e também não constituiu família; e dos outros filhos – Juarez, Aluísio e Lincoln – esta pesquisas, ainda, não alcançou os sobrenomes gerados por casamento.

Antônio Cordeiro foi comerciante, estabelecido com loja de tecidos, no mercado de Baturité. Casado com dona Chiquinha Catão Cordeiro, também irmã de Pedro Catão, sendo os dois de Oscar (Cordeiro Portela) Lucia (Cordeiro Campos) e Osmar, deste ultimo a pesquisa também fica devendo o sobrenome completo dos descentes.

Um terceiro sobrinho do senador, João Cordeiro de Souza, gozava da intimidade do tio quando moraram em Baturité, foi ele quem traçou o perfil para o livro biografia – João Cordeiro – Abolicionista e Republicano. Nobre, Freitas. Letras Editora. São Paulo. 1943.

Extraída da memória de Mundinho do Baturité (Mundinho de Baturité (Traquinices e Traquinadas). Barros Filho, Raimundo. Tip. Batista Souza. Rio de Janeiro) é bom recordar, como se passou a velhice do ex-senador: em manga de camisa, com seu bonezinho, no alpendre do Hotel de Dona Biloca, depois de Dona Sinhá. Sempre cercado de muito carinho e consideração dos presentes.

No Livro de Ouro de Baturité, as efemérides abaixo, registram os nomes dos Cordeiros, nas diversas ocasiões que abaixo se seguem:

31.5.1895 – João Cordeiro de Souza assinou a 31.05.1895 a ata da Sessão Solene de Inauguração do Barracão das Carnes.

12.07.1903 – Francisco Cordeiro de Souza registrou sua presença ao assinar a ata da sessão de sua posse como Intendente Interino ocasião em que, ainda, e comemorou o Segundo Centenário do Descobrimento Oficial do Ceará, por Pero Coelho de Souza

15.12.1906 – Francisco Cordeiro de Souza, desta vez assina o ato de posse como Intendente Municipal Definitivo, bem como a ata de inauguração do Matadouro Modelo da Cidade. No mesmo ato encontra-se a assinatura do filho Aloísio Cordeiro.

25.01.1912 – Pelágio Cordeiro assinou a ata da aclamação do Intendente Municipal Joaquim de Alencar Mattos.

08.08.1912 – Enoe Cordeiro e Maria Benvinda Cordeiro assinaram a ata da manifestação da Câmara e do povo de Baturité ao nobre deputado Dr. Gentil Barreira.

18.05.1913 – Pelágio Cordeiro assinou o auto inaugural de assentamento da primeira pedra da Avenida Vinte e Cinco de Março.

28.05.1913 – Francisco Cordeiro de Souza e João Cordeiro de Souza assinaram a Ata da Organização do Partido Republicano de Baturité.

07.09.1922 – O coronel João Cordeiro, na qualidade de ex-senador da Republica, e um dos seus fundadores, presidente do glorioso movimento abolicionista que libertou o Ceará e o Brasil da escravidão, é convidado para tomar assento na mesa das autoridades da Sessão Solene da Municipalidade de Baturité em comemoração cívica ao 1º. Centenário da Independência do Brasil sob a Presidência do major Pedro Mendes Machado sendo secretário ad hoc o advogado Pedro Catão.

29.10.1930 – Francisco Umbelino Cordeiro assinou a ata da tomada de posse do Prefeito Municipal Alfredo Dutra de Souza.

14.01.1931 – Lucia Cordeiro assinou a ata da reunião em homenagem Capitão Juarez Távora por ter sido promovido a General.

Toinho Cardoso

14 de junho de 2011

TOINHO CARDOSO

Certo dia, pela caixa do meu blog, www.maninhodobaturite.com.br, Valério A. Cavalcanti de Albuquerque Figueiredo, residente em Pernambuco, me pedia informações sobre seus parentes descendentes de Teotônio Evangelista de Abreu, personalidade ilustre do Baturité do século XIX, trazida a propósito na crônica que publiquei enaltecendo o grado comendador Ananias Arruda.

Sem nem mesmo entrar nos intricados caminhos da genealogia, pelo nome TEOTÔNIO e não pelo sobrenome ABREU, alguém me trouxe, como fio de meada, a figura de Toinho (TEOTÔNIO) Cardoso, homem do tipo daqueles que só ao dirigir a palavra para alguma pessoa já revelava a nobreza de sua origem.

Do Toinho Cardoso, baturiteense também muito ilustre, por ser grande amigo de meu pai, deste tive o prazer de herdar e desfrutar da mesma amizade para a qual sempre devotei estima especial.

Da sua Mucunã nunca me esqueço da casa da fazenda, de arquitetura simples, alpendrada, sempre muito bem cuidada, situada na elevação do terreno com vista para o açude.

O açude represava dois lados desiguais: pelas bandas da casa uma ribanceira de terra quase despida de vegetação arbórea; na outra beira, na frente das margens planas, praias do meu mar infantil, multiplicavam-se cajueiros quase silvestres.

Além da fazenda Toinho possuía um armazém na Rua Sete de Setembro e morava na Rua Quinze de Novembro.

Quando Toinho passou a residir em Fortaleza inúmeras vezes o visitei na companhia de meu pai, depois sozinho ou com meus filhos ainda pequenos que, bem recebidos, gostavam de passear pelo jardim florido que rodeava a casa do seu agradabilíssimo sítio no bairro do Mondubim.

Quanto a Valério Cavalcanti o encaminhei para contatar Roberto Câmara Cardoso, filho do Toinho residente na Bahia. Internautas, os dois se descobriram descendentes do mesmo Teotônio Evangelista de Abreu e sua esposa dona Rufina de Castro Abreu, avôs de Toinho Cardoso e bisavôs de dona Zilma de Abreu Perdigão, esta bisavó de Valério.

Depois quando Valério Cavalcanti passou a trocar emails com Augusto Sérgio Câmara Cardoso, o filho mais velho de Toinho, ambos relembraram outros parentes como Francisca de Castro Abreu, Julieta de Castro Abreu, Augusto Cavalcanti de Albuquerque, Dr. Hélio Abreu, pai do Dr. César Abreu.

A moral dessa história é mostrar que, para muitos, família não é só pai, mãe e irmão. As grandes famílias estão cheias de ascendentes que para os parentes mais novos têm a mesma importancia que a História devota aos seus considerados grandes vultos.