Os Cordeiros
Sem nenhuma estátua levantada para ele, João Cordeiro, pelo que representou na vida da cidade, merece, pelo menos uma pagina na historia de Baturité.
Filho João Cordeiro da Costa e Floriana Angélica da Vera Cruz Cordeiro nasceu em Santana do Acaraú em 31. 08.1842. Nos primeiros anos de vida fez o que fazem todos os meninos da sua terra – brincava com gado de osso, tomava banho no rio, andava montado nos carneiros, bezerros e cavalos, ia ao roçado buscar milho feijão e melancia.
Somente aos 11 anos ingressou na escola; aos 13, rapaz de muito propósito, começou a trabalhar com um parente e de caixeiro logo se tornou gerente de dois armazéns; aos 18 se mudou para Fortaleza e ali se empregou no escritório do Barão da Ibiapaba.
Em 1864, impetuoso, tenta viajar para os Estados Unidos, via São Luis do Maranhão, sem conseguir realizar seu intento volta para Fortaleza. Em 1868, feito guarda-livros, segue para Recife e dali se transfere para Mossoró para assumir o cargo de comprador de algodão da indústria dos irmãos Barão e Visconde de Cauípe, empresa que ele logo a transformou numa exportadora.
De Mossoró retornando à Fortaleza presta serviços de contador para diversas empresas comerciais e industriais. ((Em conseqüência da capacidade de trabalho alcança o cargo de Diretor da Caixa Econômica), líder de classe faz-se Presidente da Associação Comercial do Ceará para o biênio 1877 e 1878).
Durante a seca de 1877/79, na qualidade de Comissário Geral de Socorro Público, foi João Cordeiro quem, oportunamente, proveu às verbas destinadas as obras da Igreja Santa Luzia e Palácio da Câmara de Baturité iniciativa do intendente Pedro Pereira Castelo Branco, para empregar os flagelados que procuravam o solo fértil do lugar para escapar das agruras daquela quadra aterrorizante.
Com relação à Baturité outro episódio marcante se na vida do grande homem, “aconteceu quando a Comissão Executora do Projeto de Construção da Estrada de Ferro de Baturité resolve que a estação de Baturité deveria ser apenas um ramal a partir de Canoas, hoje Aracoiaba, deixando, assim, de ser a meta principal. Ao saber que a Comissão daria início a essa modificação, o valente e prestigioso João Cordeiro reuniu e armou duzentos homens e telegrafou ao governo, dizendo que se tentassem levar avante a infeliz idéia, ele iria arrancar os trilhos. O “governo, então, determinou à Comissão Construtora que executasse a obra como (antes) estava planejada originalmente”. (Mundim de Baturité. (Traquinices & Traquinadas) Livraria Batista Souza & Cia. Rio.)
João Cordeiro se muda para Baturité em janeiro de 1885 na ocasião se instala no Putiú com a firma comercial J. Cordeiro, e em seguida recebe a visita do empresário Isaías Boris, chefe da firma Boris Frères, que lhe abre um crédito de cem contos dinheiro com o qual monta em sociedade com Bernardino Proença a Fábrica Proença de beneficiamento de algodão com a primeira máquina de descaroçamento que se instalou na província, e outra para extração de óleo e fabrico de resíduos.
Na penúltima década do século XIX, empenhados no movimento contra a escravidão dois grupos se controvertiam no Ceará: o dos emancipacionistas – adeptos da libertação lenta e gradual – e o dos abolicionistas – favoráveis à libertação imediata. Como as divergências não admitiam a instituição de um regimento satisfatório para as duas partes surge à necessidade de um mediador.
Em Fortaleza, designado para resolver o assunto, em dia estabelecido, João Cordeiro fez entrar os interessados num recinto batizado por ele de “Sala do Aço” onde todos se acomodaram em torno de uma grande mesa.
Fechada a porta da sala, João Cordeiro, que ocupava a cabeceira, levanta-se, arranca o punhal do cavado do colete e atira-o no meio da mesa onde ficou cravado e recitou o seu alvitre:
“Art. 1º. Um por todos e todos por um. Parágrafo Único – A sociedade libertará os escravos por todos os meios ao seu alcance.”
De todos os divergentes sobraram apenas dez membros para compor a Sociedade Libertadora do Ceará, da qual João Cordeiro saiu Presidente. Estes mesmos dez nunca mais abandonaram o palco do abolicionismo do Ceará.
Par a passo com a luta pela abolição, nos momentos em que mais ressoava a peleja a sociedade presidida por João Cordeiro tinha o apoio da esposa Dona Carolina Cordeiro, vice-presidente da Sociedade Feminina Libertadora do Ceará.
Depois da abolição João Cordeiro despontou na política como Ajudante de Ordens do General Presidente Floriano Peixoto durante a Revolta da Armada, e daí exerce dois mandatos seguidos de Senador da Republica (1892-1897 e 1897-1905) e dois de Deputado Federal (1906-1908 e 1908-1911) e no pequeno intervalo entre os dois mandatos de deputado foi, ainda, prefeito do Território de Alto Juruá, parte do Acre, desta vez a convite do presidente Nilo Peçanha).
Enquanto na política os negocio da família – a fabrica de algodão e um hotel – ficaram a cargo dos sobrinhos Francisco Cordeiro de Souza, João Cordeiro de Souza e Antonio Cordeiro de Souza.
Francisco Cordeiro de Souza foi Intendente Municipal (1905-1908), casado com dona Umbilina (Biloca) Catão, irmã do advogado e historiador Pedro Catão, do casal são lembrados os nomes abaixo que formaram as famílias assinaladas entre parênteses, a saber: Pelágio (Cordeiro Brasil); Umbilino (Cordeiro Vieira); Ita (Cordeiro Oliveira); Araci (Cordeiro Maciel); e Maria Benvinda (Cordeiro Nobre); Enoe se casou com o major Pedro Mendes Machado e com ele não teve filhos; Ari se casou com um membro da família Dutra e também não constituiu família; e dos outros filhos – Juarez, Aluísio e Lincoln – esta pesquisas, ainda, não alcançou os sobrenomes gerados por casamento.
Antônio Cordeiro foi comerciante, estabelecido com loja de tecidos, no mercado de Baturité. Casado com dona Chiquinha Catão Cordeiro, também irmã de Pedro Catão, sendo os dois de Oscar (Cordeiro Portela) Lucia (Cordeiro Campos) e Osmar, deste ultimo a pesquisa também fica devendo o sobrenome completo dos descentes.
Um terceiro sobrinho do senador, João Cordeiro de Souza, gozava da intimidade do tio quando moraram em Baturité, foi ele quem traçou o perfil para o livro biografia – João Cordeiro – Abolicionista e Republicano. Nobre, Freitas. Letras Editora. São Paulo. 1943.
Extraída da memória de Mundinho do Baturité (Mundinho de Baturité (Traquinices e Traquinadas). Barros Filho, Raimundo. Tip. Batista Souza. Rio de Janeiro) é bom recordar, como se passou a velhice do ex-senador: em manga de camisa, com seu bonezinho, no alpendre do Hotel de Dona Biloca, depois de Dona Sinhá. Sempre cercado de muito carinho e consideração dos presentes.
No Livro de Ouro de Baturité, as efemérides abaixo, registram os nomes dos Cordeiros, nas diversas ocasiões que abaixo se seguem:
31.5.1895 – João Cordeiro de Souza assinou a 31.05.1895 a ata da Sessão Solene de Inauguração do Barracão das Carnes.
12.07.1903 – Francisco Cordeiro de Souza registrou sua presença ao assinar a ata da sessão de sua posse como Intendente Interino ocasião em que, ainda, e comemorou o Segundo Centenário do Descobrimento Oficial do Ceará, por Pero Coelho de Souza
15.12.1906 – Francisco Cordeiro de Souza, desta vez assina o ato de posse como Intendente Municipal Definitivo, bem como a ata de inauguração do Matadouro Modelo da Cidade. No mesmo ato encontra-se a assinatura do filho Aloísio Cordeiro.
25.01.1912 – Pelágio Cordeiro assinou a ata da aclamação do Intendente Municipal Joaquim de Alencar Mattos.
08.08.1912 – Enoe Cordeiro e Maria Benvinda Cordeiro assinaram a ata da manifestação da Câmara e do povo de Baturité ao nobre deputado Dr. Gentil Barreira.
18.05.1913 – Pelágio Cordeiro assinou o auto inaugural de assentamento da primeira pedra da Avenida Vinte e Cinco de Março.
28.05.1913 – Francisco Cordeiro de Souza e João Cordeiro de Souza assinaram a Ata da Organização do Partido Republicano de Baturité.
07.09.1922 – O coronel João Cordeiro, na qualidade de ex-senador da Republica, e um dos seus fundadores, presidente do glorioso movimento abolicionista que libertou o Ceará e o Brasil da escravidão, é convidado para tomar assento na mesa das autoridades da Sessão Solene da Municipalidade de Baturité em comemoração cívica ao 1º. Centenário da Independência do Brasil sob a Presidência do major Pedro Mendes Machado sendo secretário ad hoc o advogado Pedro Catão.
29.10.1930 – Francisco Umbelino Cordeiro assinou a ata da tomada de posse do Prefeito Municipal Alfredo Dutra de Souza.
14.01.1931 – Lucia Cordeiro assinou a ata da reunião em homenagem Capitão Juarez Távora por ter sido promovido a General.