UMA CARTA PARA O AGUÍA

15 de maio de 2012

Fortaleza, 2012-05-15
Prezado amigo Hugo Moreira

Em primeiro lugar agradeço os inesgotáveis comentários responsáveis por manter vivo nosso blog WWW.maninhodobaturite.com.br no período em que, mesmo sem escrever, pude curtir seus diálogos com Roberto Cardoso, este amigo que, talvez sem querer, acaba nos incentivando a relatar proezas inerentes a nossa terra, muitas delas desprovidas de valor para alguns mas que, para outros como nós, têm a mesma importância dos grandes feitos da história trilhada nas escolas.

Em segundo lugar fiquei sensibilizado pela preocupação do amigo com a falta de notícias principalmente sobre minha saúde.

Em outubro do ano passado fui diagnosticado com câncer de próstata. Daí, diante das opções de cura, ai invés de cirurgia, me submeti a 37 aplicações de rádio terapia. Destas, depois de cumpridas, recebi alta no dia 20 de maio corrente. Mesmo assim, fiquei sujeito a acompanhamento de três em três meses durante pelo menos dois anos e meio.

Da terapêutica de seis meses me marcou a dedicação dos que fazem o Hospital Haroldo Juaçaba, do Instituto do Câncer do Ceará, a começar pelos porteiros, passando por atendentes, enfermeiras, técnicos da aparelhagem e dos renomados médicos da especialidade acreditados como referência no nordeste.

Naquele hospital, talvez movidos pela atenção extremamente humana que recebem, até os doentes, pouco a pouco, vão se confraternizando entre si até se tornarem amigos.

Agora curado, voltarei a bacorejar – é o novo – outras boas histórias da quais já escolhi a próxima: ocorrida entre o seu Próspero, o sisudo barbeiro da urbe e, mecânico do tipo Raimundo Faz Tudo de nome Genésio dono de uma oficina ao lado as igreja de Santa Luzia que se dizia comunista dos quatro costados.

Aguarde

Mario Mendes Jr
O Maninho do Baturité

UM PROJETO DE HISTÓRIA DO VELHO CASARÃO DA PRAÇA VALDEMAR FALCÃO

12 de abril de 2012

Construção típica do século XVIII o velho casarão da Praça Waldemar Falcão, foi construído para servir de residência ao agropecuarista, coronel Alfredo Dutra de Souza, prestigioso chefe político, deputado estadual em várias legislaturas numa das quais (1919) foi presidente da Assembléia Legislativa, vice-presidente do Estado, duas vezes Intendente (assim eram chamados os prefeitos) e mais duas Prefeito de Baturité.

Erguido em terreno declinado, com cerca de 100 metros de fachada sul, a partir do poente, com a metade assobradada, o casarão consagrava o piso superior aos dormitórios e às inúmeras dependências necessárias ao serviço doméstico, de pasmar, a escadaria de cedro maciço no fim do acesso se abria para a proeminência das amplas salas, de visita e jantar, ambas a ostentar rico mobiliário colonial alinhando a riqueza das louças e ornamentos.

Homem rico, de hábitos e costumes apurados e posição social saliente, Alfredo Dutra foi o principal vulto da nobreza proveniente dos cafezais baturiteenses e cabeça política dominante durante quatro décadas sobre todo o Maciço de Baturité e demais municípios da sua área de influência.

Casado com dona Amélia Dutra de Souza, esta lhe deu os seguintes filhos: Alfredinho, major Horácio, Otávio, Edgar, Olavo e as filhas Alzira, Adelaide, Odete e Cleonice. A propósito pioneiramente a Empresa de Luz de Baturité fundada em 1918 pelo filho do coronel, o major Horácio Dutra apresentou a honra de a cidade possuir energia elétrica antes mesmo do que a capital do Estado.

De Alfredo Dutra o casarão, por herança, passou para João Ramos Filho, advogado e tabelião da cidade quando este se casou com sua filha, Dona Adelaide Dutra “uma senhora de porte elegante e altivo”, tendo o casal residido ali até 1962, ano em que se mudou para o Rio de Janeiro. (Nina Moreira Viana. Casarão da Família Dutra-Ramos. Crônica de 30.06.2005).

Do casamento de João Ramos com Dona Adelaide nasceram os seguintes filhos: Francisco Rosuel Dutra Ramos, engenheiro e ex-prefeito de Baturité (Adm. 1955-59), Leni, casada com o Dr. Francisco Saraiva Xavier, Elial Dutra Ramos, oficial do Exército nacional e Emanuel Dutra Ramos, advogado e Promotor Público.

Um fato marcante na vida de Dr. João Ramos; anos após anos, enquanto viveu no casarão em todas as Sextas Feiras Santas distribuía o “jejum” dos pobres composto de bacalhau, pão, farinha e moedinhas de mil réis. (Nina Moreira Viana. Idem, ibidem).
Ao deixar, no dia 4 de junho de 1932, do seu quarto mandato na prefeitura, ao que tudo indica, Alfredo Dutra fez do genro João Ramos seu sucessor político. Coincidentemente, na mesma época, o bispo Manuel da Silva Gomes fez de Ananias Arruda presidente da LEC – Liga Eleitoral Católica, espécie de partido político que abriu o caminho da próspera vida do líder católico de Baturité.

Dos caminhos cruzados recebidos por missão – João Ramos, do sogro e Ananias Arruda do bispo – nasceu a rivalidade onde a astúcia do primeiro não se dobrava a prática beata do segundo.

Dono do jornal A VERDADE, Ananias Arruda já possuía uma folha de serviços prestados ao lugar. Da sua auréola de líder, bem antes de possuir cargo público, por seu prestígio, a cidade de enchia de padres e religiosas, excelentes na arte de ensinar, que pouco a pouco faziam Baturité se rivalizar com os com os maiores centros de ensino do nordeste.

O velho coronal Dr. João Ramos da Silva avaliando uma safra do Sítio Álvaro na Serra de Baturité
De 1932 a 1934 enquanto Baturité vivia um verdadeiro troca-troca de prefeitos de fora, nomeados pelos interventores politicamente neutros, o devotado e inteligente Ananias Arruda obtém maioria, na sede e nos distritos, para eleições de 3/05/1933 para Deputado Federal Constituinte e, outra vez a 14/10/1934 para Deputado Estadual Constituinte.

Assim sendo, quando, em 1935, os mesmos deputados que formavam a maioria da LEC elegeram Menezes Pimentel a Governador do Ceará, este, por sua vez, nomeia Ananias Arruda prefeito de Baturité.

Resumindo a história: execrável, sucedendo o sogro, João Ramos agüentou, no cimo do poder, Ananias Arruda até 1947, ano em que a UDN – União Democrática Nacional elegeu Faustino de Albuquerque ao governo, tendo este, por sua vez, ajudado Raimundo Viana a vencer o mesmo Ananias nas eleições seguintes para prefeitos municipais.

Naquele pleito, entre as farpas que trocavam entre si – coisas de políticos – quando o coronel Ananias, do novo PSD – Partido Social Democrático, taxou o coronel udenista João Ramos de miserável, porque não pintava a fachada de sua casa, o outro respondeu que era melhor ter a casa suja e consciência limpa do que a casa limpa e a consciência suja.

Piadas ou verdades as são histórias, se aconteceram ou não aconteceram, pelo menos, passaram para o folclore político baturiteense.

Outra vez no apogeu da fama o casarão volta a brilhar com a figura do legendário Dr. Francisco Saraiva Xavier, um médico elegante, enérgico, de estatura acima da média, postura sempre empenada para frente, cabelo liso e lustroso e de pele da cor de oliva que lhe dava um ar de sultão.

Ao chegar à cidade montou um consultório na Rua 15 de Novembro onde, dia a dia, operando sem parar ganhou a reputação de médico cirurgião, fama que lhe acarretava, às centenas, pacientes não somente da sede do município, mas de todo maciço e cidades vizinhas.

O Dr. Saraiva casou-se com Leni, moça muito bonita, espécie de monumento da cidade, muito desejada e admirada não só pelo fato de ser uma Dutra-Ramos, família mais rica da cidade, mas, também, pelo seu ar de diva do cinema americano.

Residente em Fortaleza o glamoroso casal causava verdadeiro frisson ao chegar a Baturité com os filhos Delano e Diana num luxuoso automóvel da divisão Mercury da Ford, quando na cidade só existiam jipes e caminhões.

Nascido em Lavras da Mangabeira, no Cariri, o Dr. Saraiva elegeu-se, duas vezes, deputado da UDN pelo colégio eleitoral de Baturité.

Em dia de eleição, na companhia do fiel escudeiro Pedro Penicilina, o doutor Saraiva corria uma por uma das sessões eleitorais às vezes para saudar prosélitos e noutras vezes para intimidar, com o revolver à mostra, a quem lhe ameaçasse tirar votos.
Incluída nos anais da política de Baturité existe, afamada, indisposição do valente deputado contra o apego da Lei do juiz Manoel Sales de Andrade, que não cedeu à intransigência do parlamentar diante da negação de sursis a um cabo eleitoral.

Da veemência de paixões própria do gênio do Dr. Saraiva, consta da crônica do legislativo cearense, uma passagem em que ele teve que disparar, sem êxito, dois tiros de sua arma, em sessão plenária, contra outro parlamentar que insistia em contrariar seus méritos.

Impulsivo e impetuoso, como se vê, nosso deputado Dr. Francisco Saraiva Xavier era assim, do tipo que além do talento inato se distinguia, muito mais, pela coragem.

Em 1962 o casarão foi vendido ao Sr. Raimundo Viana, ano em que o Dr. João Ramos veio a falecer no Rio de Janeiro cidade para onde se mudou com a família.

Na primeira década deste século o casarão, vetusto monumento patrimonial da região, escapou de ser demolido pelas providências de outro baturiteense ilustre, o Dr. Francisco da Rocha Victor, naquela ocasião Desembargador Presidente do Tribunal de Justiça do Estado, que mandou reformá-lo para, perpetuado, servir de Palácio da Justiça da sua e nossa terra.

UM PASSEIO AOS JESUÍTAS

8 de janeiro de 2012

Dentre as poucas maneiras de se divertir em Baturité nenhuma se comparava ao anseio de formar um grupo para subir a serra, a pé até o sítio dos jesuítas, e improvisar uma turnê em volta da Escola Apostólica.

Percorrida a parte urbana, o prazer da caminhada começava logo na casa do Tim – um negociante, tipo popular da cidade, que sabia comprar e vender como ninguém. Sem ponto certo nem tampouco especialização, antes de fazer qualquer negócio, Tim preadivinhava a necessidade do freguês. Da sua casa o alpendre guarnecido por arcos lhe cedia ares de beleza rústica.

Ainda sem a Via Sacra o que, então, mais chamava a atenção dos caminheiros, portal do Sitio Olho D’água, eram duas colunas de estilo compacto que, mesmo sem porteira, dava sentido à propriedade particular dos padres.

Daí a poucos minutos, na primeira subida, a vegetação ainda semelhante à caatinga, já revela certa robustez dada à fartura das palmeiras de coco catolés. Mais ao alto, na faixa de transição, os marmeleiros, jurema preta, juazeiros, pau branco, rareiam, enquanto os ipês amarelos começam a abundar. Dali dum arremate de grota prontamente se vislumbra um dos mais interessantes panoramas de Baturité: o casario, a Igreja Matriz, o Palácio da Prefeitura, as duas ruas paralelas, a Igreja de Santa Luzia, o Cemitério e a Cadeia Pública.

Na seqüência do caminho cada pedaço de estrada com sua característica: no corte o musgo seco das paredes convidava a cada um, fazer sua declaração de amor – bastando para tanto, com cinzel de pedra pontiaguda, desenhar seu nome ao lado do nome do amor cobiçado.

Logo depois do corte, à direita a vereda em direção à piscina natural precedida de cachoeira lindíssima, mas proibida para menores: rezava a lenda da morte de uma jovem, afogada entre as pedras do perigosíssimo lugar, por isso, batizado de Poço da Moça.

Mais adiante vista igual só na Europa! O despontar do majestoso e monumental prédio dos jesuítas antecipadamente visto dum rasgo de mata quase virgem. Adiante a ponte, muito alta, debaixo dela passeia o Aracoiaba entre as pedras lisas como sabão.

Outra vez mais acima a casa velha do sitio socada num sovaco de serra de pouca vista, mas de muita água. Depois desta, uma encosta em linha reta se acaba na ultima na curva que finalmente passa a mostrar, de perto, o prédio com a pujança impar do estilo português – quatro andares de paredes a cal e pedra, sem reboco, portas e janelas trabalhadas com vidraças e talhas pintadas de azul colossal a compor a igreja e a escola – paraíso de centenas de andorinhas que, ao menor ruído, se desprendiam do beiral de telhado com vôo e canto característico dos lugares sossegados.

Do edifício, o interior era privativo dos padres e dos alunos seminaristas. A entrada de estranhos se restringia ao templo altíssimo, fiel a expoente da espiritualidade mesma da ordem religiosa fundada pelo contra-reformista Santo Ignácio de Loyola no século XVI.

Porta voltada para o poente, dominando a vista para o sertão, a capela, de nave única, sustentada em colunas ligadas entre si por arcos estilo romano, cheia de altares flanqueados nas laterais, todos submetidos à magna arquitetura do altar maior com a imagem do Cristo Rei exaltando a eucaristia.

No mais dentro da igreja duas curiosidades silenciosas, extremamente diferentes, por impressionantes, ficavam gravadas na mente dos visitantes: uma pintura na parede lembrando o naufrágio de jesuítas nas costas do Brasil ao tempo da colonização; a outra, um ossário, onde, em urnas mortuárias, repousam os restos mortais de cada um dos padres ou irmãos leigos que morreram servindo à causa jesuítica do Baturité.
Atitude que sói costumava suceder com a maioria dos visitantes era conseguir uma confissão com o padre Artur Emílio Redondo, sacerdote jesuíta que sabia ser humilde e manso, praticar uma grande devoção a Nossa Senhora e viver continuamente unido a Deus em Espírito de Oração.

Atualmente venerado como santo, o Padre Redondo, por seus méritos, uma vez falecido, no céu, intercede junto a Deus pelos que lhe procuram para obter a graça de viver e morrer como bom cristão, ou, em particular, para conseguir outra graça desejada.

AS CURRIOLAS

29 de dezembro de 2011

Quem teve o prazer de ler os comentários do Hugo Pinheiro, remédio valoroso para a memória de qualquer um, na certa se deliciou de ver lembrado tantas personalidades, então juvenis, do universo urbano, “lá de baixo” e “lá de cima”, de Baturité, sempre reunidos na Praça Santa a valorizar a criatividade mesma das brincadeiras, próprias dali, nos anos entre 1945 e 1951.

Pesquisador percuciente Hugo Pinheiro, em primeiro lugar rende homenagem à sua turma representada pelos “lá de baixo”, moradores da própria Praça Santa Luzia da Praça Santa e adjacências, a saber: Gilson Viana Martins (o Quirrite), ao Francisco Rocha Victor (o Neném); aos irmãos Rainá e Souzinha (filhos do Sr. Napoleão e Dona Raimundinha); José Alfredo Pinheiro, o Mandioca, Hugo Pinheiro (ele próprio, o Aguía) estes dois, irmãos de numerosa família; ao João Viana, (o João Caravana); ao Paulo Rocha; ao Luiz (o Loló da Dona Lica), ao Leônidas, ao Figueiredo, o “Aviador”; aos Joacy Pereira Lima e Romualdo Pereira Lima (filhos do Sr. Leôncio do Bar); ao Heleno, da família Arruda; aos irmãos Ivanirton e Airton Garcia, da Rua de Trás; Lindenberg e Cleto (filhos do capitão Faraó); aos irmãos Edmar, Eliomar (o Chinês) e Raimundo Alexandre (o Lambe-Lambe), estes três, filhos do Sr. Clarindo, comerciante do mercado residente no Calçamento (assim era chamada a Avenida Dom Bosco); Carlos Bandeira irmão da Lalá; Chico Victor (o Chico do Zé Lopes), Fernando Simões, Joselí Viana e Pinheirinho. Da peraltice destaca o famoso Benedito Mosquito pelo costume que tinha, nos tempos de São João, de estourar bombas debaixo de latas. À mania perigosa, Benedito, ainda, acrescentava o toque de maldade. Ao acender o pavio com fósforo, estando o rojão a explodir, além da lata que, rapidamente, colocava em cima da bomba, além disso, ele deitava, em cima da lata, um sapo cururu para, mediante o estouro, vê-lo subir com lata e tudo. Dos menores “lá de baixo” – João Rodolfo Pinheiro; os irmãos, Mário Mendes Júnior (o Maninho), Pedro Alberto Mendes (o Bebeto); Marcelo Victor (Cabeça de Gato); Inácio (da Dona Lili Viana); Toinho, João Alberto, Zé de Deus, Luciano Santana, Aristóbulo, estes da Rua de Trás; por serem da raia miúdas todos eram simplesmente expulsos do patamar da igreja quando os maiores chegavam para brincar de RUBALÉ.

Da turma “lá de cima”, moradores das bandas da Rua Sete de Setembro, Rua Quinze, Avenida Proença, Praça da Matriz e seus arredores, memorialista, Hugo Pinheiro desenha o nome daqueles que não podia esquecer, dos amigos Zé Helder (o Jacaré);; dos irmãos Augusto, Luiz e Zezé Alves; dos, outros irmãos, João Batista, Bení e Ernani Furtado; Rômulo Barsi; José Ábner e seu irmão Carlos de Castro; os também, manos, Gil, Zoró e Múrcio Furtado; do José Olavo e Ernani Leal Dantas, os dois, irmãos da Tetê do Aedo e Maria do Carmo; do Juarez e Eurico Arruda, os irmão mais novos da numerosa família do Sr. Raimundo Arruda. Dos bandalhos “lá de cima” o destaque ficou por conta do Luzardo Sampaio rapaz que dava muito trabalho a seu pai (o legendário dono do bar José Sampaio) que castigava as traquinagens do filho com boa “surra” de cinturão. Como uma coisa é “mapiar à toa e outra é falar com tento” Aguía tirou da cartola das diabruras duas figuras antológicas no cenário baturiteense de seu tempo: – O Miguelzinho Arruda, grande intérprete da música italiana e portuguesa, artista obrigatório dos programas promovidos pelas irradiadoras locais com a animação do Olavo Peixoto; e – Diderot Franco, que ao se embriagar desdizia da razão rasgando dinheiro. Numa dessas, atitude de doido confesso, uma vez quando rasgou várias cédulas de “um mil cruzeiros”, teve que ser internado pelo pai, intelectual e jurista Augusto Franco, num hospital psiquiátrico.

Raimundo Raul Correia Lima

29 de dezembro de 2011

Nos últimos anos da ditadura de Getulio Vargas, a 21 de fevereiro de 1944, chegou nomeado prefeito de Baturité, pelo então governador em exercício Dr. Andrade Furtado, o crateusense Sr. Raimundo Raul Correia Lima, trazendo consigo o currículo político com a experiência de ter sido, anteriormente, prefeito, também nomeado, de Aurora e Icó.

Homem modesto, de parcos recursos, para poder se mudar, foi-lhe concedido pelo estado o custeio do transporte da família, inclusive de suas vacas preparadas para embarque na estação de José de Alencar. As vacas serviam para fornecer leite os filhos pequenos.

Chegado a Baturité com a esposa e dois filhos – José e Ana Zélia – o prefeito hospedou-se no Hotel Canuto, isso porque não gozou do privilégio de morar na residência destinada aos prefeitos, porquanto sua nomeação não agradava ao manda-chuva Ananias Arruda dono da aludida casa.

A prefeitura Raimundo Correia recebeu das mãos do professor Tito, moço muito estimado, motivo porque, até, temeu desagradar aos munícipes a quem o antecessor muito aprouvera, contudo, munido de experiência, o novo mandatário enfrenta de cabeça erguida o desafio.

Dos funcionários imediatos, Joel Furtado, José Furtado, Lica e dona Stela, esta, logo deixou a secretaria, talvez, por fidelidade ao coronal Ananias. Efetivos, os outros, de maneira profissional, principalmente diante da regulamentação de carreira que passou a remunerá-los e promovê-los de acordo com a capacidade de cada um, mostraram-se satisfeitos, ainda mais, no dia em que todos os cinqüenta, receberam os dez meses atrasados pelos antecessores, isso, mediante festa com cerveja, banda de música e espocar de foguetes sob as expensas do município. Da qualidade dos funcionários Raimundo Correia louva-se de ter nomeado secretária-tesoureira a Antonieta Alencar, moça inteligente e operosa administrativamente, ao mesmo tempo traça elogios ao Bertulino, de quem acabou compadre e seu Costa, bom eletricista, a Vicente Gregório, subprefeito de Capistrano, trazido de Aurora, de Raimundo Cosme e do Braulino responsável pela limpeza das ruas usando carrinhos de mão e uma carroça.

Naquele tempo, verdadeira apoteose, organizado por Ananias Arruda, acontecia o Primeiro Congresso Eucarístico, fazendo vibrar a cidade, mergulhada em estado de graça, de tal modo que, da população, quem não sabia cantar pelo menos lhe assoviava o hino.

Vendo-se excluído, mas forçado por Andrade Furtado, o prefeito não pôde ficar indiferente diante do acontecimento, porquanto, mandou limpar a cidade providenciou iluminação mais eficiente, estimulou a população a pintar a fachada das casas, colocou o carro da prefeitura à disposição do congresso, mandou melhorar a banda de música, muito embora o Sr. Ananias já tivesse conseguido outra em melhor condição. Na estação do trem, junto às autoridades Dr. Germiniano Jurema, Juiz de Direito, Dr. José Rolim da Nóbrega, Promotor Público, e o Sr. Pedro Silvino, Delegado de Polícia, como Prefeito Municipal recepcionou Bispos, Padres e Seminaristas convidados e, no mais os saudou-os, em discurso, no qual lhes entregava a chave da cidade.

Da lavra de Raimundo Correia, o livro “MINHA HISTÓRIA, TRABALHO, RECORDAÇÕES E PECADO, na parte dedicada a Baturité, mostra quão foi atribulada sua primeira administração, principalmente, pelo perfilhamento versus ao prestigioso Comendador. Das futricas políticas o livro destaca aquelas que o próprio prefeito executava em desfeita ao prestigioso coronel, a saber:

Achou de mandar, como realmente mandou transferir o sargento Delegado da Cidade que, por ordem do comendador, quis suspender, sem sucesso, uma festa na casa do Juiz;
Mandou podar uns fícus benjamins. Daí, acusado de destruir a arborização, acusado pelo Comendador, foi intimado a “justificar a inépcia” junto ao governador.
Acusado de não praticar a religião católica, foi argüido, pelo próprio Governador Pimentel;
Desagradou o Comendador ao facilitar que certo senhor Galvão, exibisse na prefeitura uma peça teatral já proibida por aquele;
Cedeu salão na prefeitura ao poder judiciário hostilizado pelos antecessores.
Prolongou a iluminação elétrica até o Hotel Canuto, para em conseqüência beneficiar a casa do Juiz às escuras por questões políticas;
Finalmente, acabou com o tabu que não permitia que se dançasse nos salões da prefeitura.

Da vida particular Raimundo Correia conta passagens inesquecíveis: nascimento, a 29 de maio de 1945, do quarto filho Francisco; outra ao morar no Sobrado dos Maciéis quando curou a coqueluche dos filhos com tangerina e jejum; outras ao se mudar para a antiga residência do José Pinto do Carmo, foi surpreendido por um incêndio, em seguida debelado por amigos; ainda naquela casa teve um empregado preto de nome Luiz que comprava carnes em seu nome e uma empregada que matou um peru tentando curá-lo de uma doença com água e cal; no quintal da mesma casa possuía uma engorda de porcos para venda.
Da dívida pública herdada, maiores que dois orçamentos, estas foram pagas com muito sacrifício mesmo não devidamente reconhecidas. Das outras realizações ao cortar verbas que oneravam a prefeitura, melhorou a, sempre precária, iluminação pública; instalou no sítio da prefeitura, antiga casa de Pedro Catão um campo de demonstração agrícola e venda de mudas enxertadas; tirou dos pobres necessitados a obrigação de pagar uma dívida ativa que lhes impuseram os antecessores.

Em maio de 1945. Com todo Baturité comemorando a queda de Berlim, com muita festa e o comércio totalmente fechado, a frente de tudo e de todos Raimundo Correia, partidário do acontecimento, não obstante o seu grande conceito na cidade foi demitido da prefeitura sem aviso prévio.
Certificado de que Andrade Furtado referendou sua demissão levado por Ananias Arruda, passou a prefeitura para Edmundo Bastos e, logo em seguida, mudou-se para Fortaleza, isso, com a ajuda da maçonaria e de alguns amigos, pois, na ocasião lhe faltava, até, o dinheiro para o transporte.

Pasmem os de hoje diante da honestidade dos de ontem.

A Proclamação na Mentalidade de HOJE

2 de novembro de 2011

No dia 15 de novembro de 1889, Pedro II, o reto, justo e liberal Imperador do Brasil foi destronado por questões militares.

Seu êmulo o Marechal – de Papelão – Deodoro da Fonseca, ao instalar um tipo de ditadura republicana logo foi derrubado por outro Marechal – de Ferro – Floriano Peixoto, que só agravou o regime.

Do caráter de liberdade, igualdade, honradez e, até, tolerância, que, no Império, exaltava o Brasil frente aos congêneres da America Latina, a nação brasileira, igualmente, passou a viver entregue à mesma ação de caudilhos, “salvadores da pátria”, que inundavam de sangue o continente desde o México até o Rio da Prata.

Do complexo de segurança nacional, do qual o primeiro Marechal foi pai, sob tal pretexto, o povo brasileiro suportou mais de cem anos de quarteladas e golpes militares – os soberbos remédios para suprir a deficiência das necessárias práticas parlamentares civis, na verdade, pouco acontecidas.

Do governo do Marechal Deodoro, o desempenho se restringiu atacar aos casacas – assim designavam os civis – que humilhavam a farda.

Do governo de Floriano o papel foi esmagar os movimentos contrários ao regime que ele centralizava – a Revolta da Armada ocorrida no Rio de Janeiro e a Revolta Federalista do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Da farda para a casaca, a transição não se deu por gosto.

Vitorioso pelas armas, a falta de habilidade política do metalico Marechal lhe interrompeu o desejo de permanecer ilegalmente no poder, motivo pelo qual, por desfeita, sequer compareceu à solenidade de entrega da faixa presidencial ao sucessor Prudente de Morais.

O QUARTEIRÃO SUCESSO (III)

27 de setembro de 2011

Entre o armazém do Toinho Cardoso e a sapataria São José de José Pinto Garcez no ponto com largura pelo menos o dobro de qualquer outra do pedaço, JOSÉ RICARDO DA SILVEIRA, sem qualquer tipo de especialização, negociava com tudo que podia existir dentro de um armazém.

Das quantas histórias se contam da vida de JOSÉ RICARDO DA SILVEIRA poucas falam do pioneirismo que tanto sucesso lhe trouxe na luta cotidiana que o fez vencedor em todas as diversas atividades que atuou tanto no comercio, na indústria na agropecuária e na política.

Através do trem José Ricardo recebia de Fortaleza açúcar, gêneros, enlatados, corda cordão, sabão, querosene, gasolina etc., e no mesmo trem mandava para Capital café, milho, feijão couros de animais domésticos e silvestres, mamona, oiticica, castanha e outros produtos da fauna e da flora regional comprados ou trocados em escambo.

Perdido no tempo, ninguém recorda como se dava o abastecimento de gasolina – puxada do tambor por torçal bombeado pela força pulmonar, o frentista fazia o retalho – lata ou meia lata – a despejar no tanque do veículo.

Pioneiro do abastecimento semi-automático foi Zé Ricardo quem instalou, na Rua Sete de Setembro, em frente ao seu armazém, com a bandeira da Shell, a primeira bomba de combustível de Baturité.

Da bomba de gasolina do Zé Ricardo, conta-se, houve um começo de incêndio que não se propagou graças à argúcia do seu Lulu, dono do ônibus que, agilmente, arregimentou gente que ao lançar areia sobre as chamas evitou desastre maior.

Muito atrasado, até a primeira metade da década de 1950, o povo de maneira geral, principalmente os dos arrabaldes, não conheciam sequer um picolé. Os poucos que tivessem saboreado o doce gelado, na certa o fizeram durante o Congresso do Seu Ananias – ocasião em que algum maluco comprou a idéia de trazer picolé para revender no extraordinário evento religioso.

Da viagem, o picolé chegava numa lata cilíndrica, esta, por sua vez, dentro de uma caixa de madeira cheia de gelo, raspa de madeira e sal, coisas certas para manter gélida a temperatura que garantia a vida do artigo – sem derreter.

Acontece que com o balançar do ônibus, pela trepidação própria da estrada de barro, o sal do gelo salgava o picolé que deste modo perdia a qualidade de doce, mas não de gelado.

A cidade passou mesmo a conhecer o verdadeiro delicioso picolé, e não só isso, mas também sorvete, sanduiches, salgados, refrigerantes e cerveja gelada no ponto quando, noutra vez Zé Ricardo, como desbravador, resolve instalar a moderna sorveteria que tomou a metade do seu amplíssimo armazém, a mesma que durante algum tempo passou a ser o local muito freqüentado pela população de posse.

Ainda faz parte do pioneirismo do Zé Ricardo a primeira loja de peças de veículos. Montada na Travessa Mattos a loja de peças e pneus atalhava que os motoristas e mecânicos – Zé Raimundo e Zé Aristides – que antes se dirigiam a Fortaleza para adquirir componentes necessários nos consertos.

Na política Zé Ricardo, em 1950, induziu o grupo de comerciantes amigos – Mario Mendes, Mesquita Pinheiro, Zé Farias, Zé Francelino, Zé Bruno Maciel, Oziel Rabelo, Adauto Pinto – membros de uma excursão que fizeram a Paulo Afonso para lançar candidatura própria do PSP – Partido Social Progressista. Escolhido o candidato Dr. Álcimo Aguiar, este só não se elegeu por causa da inesperada união das forças políticas antagônicas – Ananias Arruada e João Ramos – para derrotá-lo.

Candidato de muitos pleitos à Prefeitura ficou marcado no folclore político da Cidade uma suposta passagem onde o Zé Ricardo chamado para o fechamento de uma campanha, em palanque, crente de que estava munido do discurso elaborado pelo filho Aedo, tendo a frente um microfone e uma multidão aguardando sua palavra, começou a procurar o “improviso” mexendo e remexendo os bolsos do paletó.

Sem conseguir encontrar o tal discursos, como realmente não encontrou, inadvertidamente como a boca colada ao microfone, falou:

- Pois não é que os Filhos da Égua do outro lado roubaram meu discurso!

O certo é que desta ou de outra vez realizou o sonho de ser prefeito. Aconteceu em 1966 quando foi conduzido pelas urnas ao comando do município durante o período compreendido entre 25.03.1967 até o mesmo dia e ano de 1971, ocasião em que deixou toda cidade agradecida pelo muito que realizou.

José Ricardo da Silveira e sua esposa Dona Lourdes, tiveram os seguintes filhos, Aedo, Aécio, Aélio, Mirian, Adilson, Franzé e Inácio dos quais tivemos oportunidade de conviver e ser amigo dos mais velhos.

O QUARTEIRÃO SUCESSO (II)

8 de setembro de 2011

O QUARTEIRÃO SUCESSO DE BATURITÉ (II)
Subindo em lojas contíguas, vizinha das Casas Pernambucanas, o comercio continuava com a Alfaiataria do Vicente Bigodão – negócio muito proveitoso já que na época, década de 1950, inexistia venda de roupa feita.

O fato de toda casa possuir uma Singer – máquina de costura – estas não atrapalhavam a vida dos profissionais da moda. Na verdade estas máquinas – sendo de uso domestico – mais serviam para fazer consertos ou, quando muito as roupas de crianças, pois até as senhoras quando queriam se vestir bem procuravam a modista.

Da alfaiataria quem lhe garantia o sucesso era o público adulto masculino e, esse nicho de consumo, por sinal o de maior poder de compra, Vicente Bigodão dividia com o único concorrente de sua categoria, o Wilson Alfaiate, filho do mestre Permínio, o “General” da Banda de Baturité.

Nos dias de folga o Bigodão fazia lazer no mato, caçando animais e aves silvestres – hoje um pecado contra a ecologia, ontem, ainda sem o discrime de extinção animal.

Os companheiros de caçada eram os de sempre: Napoleão, comerciante do Barracão, Zé Mesquita da Vencedora e o industrial Dedim Viana, todos eméritos caçadores que, vestidos à caráter e equipados chegavam a passar noites inteiras na mata.

Junto da alfaiataria negociava o Senhor de Castro com armazém de secos e molhados, tipo de negócio que, também, praticava escambo – troca de comestíveis por matérias primas industriais, couros, mamona, oiticica, coco babaçu, etc. que juntadas em grandes quantidades eram negociadas na capital.

Homem forte, bem apessoado, sempre bem vestido o Senhor de Castro, parecia ser um homem valente e temido. Sabe-se dele que, sem motivo aparente quase mata a tiros o jovem, também temível, Airton Garcia que, conduzido para a Assistência Municipal de Fortaleza, escapou dos ferimentos à bala provocado pelo comerciante.

Do negócio do Senhor de Castro partiu o incêndio causador de prejuízos em todo quarteirão porque os vizinhos, precipitados, numa ação de “salve-se quem puder”, colocaram seus estoques mercadorias no meio da rua facilitando a ação de aproveitadores que lhes furtaram as mercadorias.

Ao se mudar da cidade, por motivos ignorados, o Senhor de Castro passou o ponto para o irmão Aluisio de Castro, industrial do ramo de serraria que, bem sucedido e influente, teve passagem, também, na política como vereador de diferentes legislaturas.

O quarteirão em continuação entra na Barbearia do Próspero, responsável pela boa aparência masculina, o velho salão viu cortados cabelos de muitas gerações.

De uma das cadeiras do salão, o Edmundo, barbeiro de voz baixa e cantada, ao ver sentado o freguês, de tesoura e pente na mão lhe perguntava quais dos cinco tipos de corte desejava:

– Cabeleira, meia cabeleira, corte de máquina, raspado de navalha ou Príncipe de Gales?

Muitas vezes sem entender a pronuncia do último corte, o matuto chamado “Boi da Serra”, nos dias de feira, ao querer retornar à casa mais bonito, respondia em cima das buchas:

– Crista de Galo! – sem comentário o “cabeleireiro” a sorrir, colocava os óculos, comprado no Zé Farias, sem receita, e começava o serviço.

Ainda da Barbearia do Seu Próspero, vele lembrar o Mudo, engraxate, terrivelmente valente que, só ao se deparar com ele muita gente, assustada, mudava de calçada.

Característica multifuncional, a Barbearia do Prospero franqueava seu quintal às necessidades urinárias dos permissionários do mercado que, inexplicavelmente, não possuía sequer um mictório e, no mais, servia de ponto de chegada e partida do ônibus do seu Lulu que fazia a linha de Fortaleza.

O QUERTEIRÃO SUCESSO (I)

3 de setembro de 2011

O Quarteirão Sucesso de Baturité (I)

Depois de “A Praça Santa Luzia Lado do Sol”, destaque do tumulto dos negócios, na frente do mercado, entre as travessas Bernardino Proença e Hildo Furtado, a partir desta crônica e em capítulos seguidos, veremos como era este pedaço da Rua Sete de Setembro.

Na década de 1950 no primeiro prédio, onde hoje funciona a loja do Niltinho, instalou-se uma filial das Casas Pernambucanas. Gerenciava-a o baturiteense João Camarão, moço que tendo aprendido a “arte de vender” com o lojista Édolo Barsi, depois aproveitou a prática para crescer no importante grupo comercial.

Merecer filial do conglomerado – Casas Pernambucanas de Lundgren Tecidos S.A.-, além de privilegiar, evidenciava a pujança da economia do município, motivo pelo qual os nativos se orgulhavam de pertencer ao seu corpo de funcionários. Quem os viu trabalhando não esquece o atendimento profissional dado, na hora da compra, pelos vendedores Carlos Gomes, Adolfo, Cesarina, Fransquinha e Manú.

Este último, o Manú tão bom no balcão quanto no trato com a bola na hora de fazê-la rolar no Estádio do Monte Mor, era ponta direita da fauna dos craques abaixo que sustentou a invencibilidade do quadro durante mais de cinqüenta jogos, a saber: Iran; Riba e Pupú; Rodolfo, João Batista e Carlos Gomes; Manú, Alberto, Mamede, Pinheirinho e Zé Sergio. (*)

Futebol à parte, ainda, é preciso dizer que a extraordinária vida profissional de João Camarão e Carlos Gomes na Lundgren Tecidos continuou quando ambos gerenciaram outras unidades do grupo muito mais importantes, até, que a de Baturité.

Quanto ao Adolfo este, por competente, desempenhou, durante anos, funções de chefia da RFFESA – Rede Ferroviária Federal, onde se aposentou.

A Cesarina trabalhou na loja enquanto era gerente o Sr. Carlos, pessoa de fora, muito branca de olhos azuis. Ao sair das Pernambucanas, Cesarina foi trabalhar com o irmão Ademar de Barros na loja de tecidos que acabara de montar.

Ah! Da Fransquinha, como é bom falar. Primorosa no papel de filha da centenária dona Maria dos Anjos, hoje orgulhosa, bem que pode mostrar o magnífico fruto que colheu do casamento com o Renato: a pessoa do já ilustre advogado Francisco Xavier.

Vai por muitos anos que, noutra vez, a Lundgren Tecidos S.A., já havia animado o comércio da santa terrinha com uma loja na própria Rua Sete de Setembro com o Beco do Pompeu num prédio construído pelo major Pedro Mendes Machado por volta de 1924.

Depois dali, então na Travessa Mattos com a Rua Sete de Setembro, em 1942, por causa da origem alemã dos donos – As Pernambucanas -, sob a gerência do Chico Campos, foi saqueada durante o quebra-quebra de quando o Brasil declarou guerra contra o Eixo Roma-Berlim-Tóquio na 2ª. Guerra Mundial.

Consta que dentre os lideres “patriotas” responsáveis pelo saque se encontrava o nada menos, sempre presente em todas, Zé Perequeté.

(*) Fonte João Rodolfo Pinheiro.

SAUDADES DOS VELHOS CARNAVAIS

31 de agosto de 2011

Saudade dos Velhos Carnavais

A nação sob a presidência de Café Filho já se preparava para eleger Juscelino Kubitschek com a promessa de fazer o Brasil crescer cinqüenta anos em cinco. No Ceará, Raul Barbosa, diferentemente dos antecessores entregaria o Estado fechado para as “futricas” políticas. No Baturité, Miguel Edgy, fazendo o município figurar na lista dos dez mais progressistas do Brasil seria, para sempre, o melhor prefeito de todos os tempos.

O otimismo de tantos indicadores com certeza animou meu pai quando resolveu se mudar de vez, com a família, para Fortaleza.

Assim foi que, por livre e espontânea sujeição, em dezembro de 1954, lacrimejavam a bordo do trem suburbano na estação do Putiú, eu, meus irmãos e minha mãe. Em Fortaleza, já alugada, aguardava-nos a casa da Av. Duque de Caxias, 1887, que mal cabia nossa mobília, como, um dia, disse minha irmã.

Companheiro naquela viagem a figura do amigo Augusto Sergio, não esqueço, passageiro do mesmo horário, no mesmo carro, não sei se coincidentemente ou porque estava querendo ou já estava namorando minha irmã.

A mudança para a Capital, nos primeiros anos, não se tratou de uma pagina virada para a família emigrada; no ano seguinte, 1955, em fevereiro, regressamos a Baturité, para gozar dos últimos dias das férias que então prosseguiam até o final do carnaval.

Falar em carnaval, naquele ano de 1955, pela primeira vez, brinquei os quatro dias nos bailes dos adultos. Na quarta feira de cinzas fui curar a ressaca como aluno, de curtíssima permanência, da Escola Apostólica dos Jesuítas.

No ano seguinte, 1956, novamente o Baturité Tênis Clube me abriu as portas para mais uma inolvidável temporada momina. Campeã da ocasião a marchinha Turma do Funil deu nome ao bloco dos amigos Alber, Albécio, Albano e Augusto, Bosco e Chiquinho, filhos e sobrinhos do Juiz Dr. Aurino Augusto.

As marcha da Turma do Funil puxando o trenzinho de passistas em volta das salas quando atingia o assoalho do salão vizinho, batendo os pés fortemente, provocava um barulho altíssimo, mas não infernal porque cadenciado acompanhava o mesmo compasso da música:

Chegou a turma do Funil
Todo mundo bebe
Mas ninguém dorme no ponto
ah! ah! ah!
Nós é que bebemos
Mas, eles ficam tontos.

Novas férias no Baturité, no ano de 1957, novamente a alegria do carnaval, desta vez com o “Vai com Jeito”, bloco de sujo que, batendo na lata, desfilou pela Rua Sete de Setembro surpreendendo a população pasmada por não reconhecer os participantes, todos vestidos de mulher.

Terminada a função descobriu-se a cara de cada um. Dos companheiros foliões lembro nitidamente do Edilson Viana, do Zé Maria, porta estandarte cunhado do Dr. Assis e do João Batista Marinho, vestido de preto, simulacro de viúva desarrumada.

Ah! O Carlinhos Viana e o Padre Orlando (Edmar), estavam lá. Os dois do lado de fora, segurando a corda de isolamento, não podiam entrar porque eram pequenos, mas nem por isso deixaram de animar o cordão cantando:

Menina vai
Com jeito vai
Senão um dia
A casa cai.