UM CERTO CABO NAURÍCIO
A SUSPEIÇAO
A Revolução de 1930, distanciada do ideário tenentista, nomeou o civil Fernandes Távora primeiro interventor do Ceará. Desses que distribuem os privilégios do cargo de acordo com os interesses clientelistas, o dito, tradicional politiqueiro, também fazia uso da intransigência para acusar e perseguir aos que não rezavam pelos “estatutos” de sua facção política.
O diminuto período de oito meses em que esteve à frente do governo só lhe serviu para acossar, desarmar, prender e reabrir processos criminais esquecidos no tempo, principalmente, é claro, quando os incriminados não pertenciam seu grupo oligárquico.
Para falar a verdade, além de prejudicar os outros, tal interveniente nada realizou.
Sem mostrar a cara, em Baturité, ele resolve jogar duro com dois líderes da passeata de janeiro de 1912, durante a qual o delegado Manoel do Rego Falcão, foi morto com um tiro no pescoço. Um crime, perpetrado há justos dezoito anos, sem solução, por absoluta falta de provas da autoria.
Como as aparências do delito respingavam suspeição nos cidadãos Júlio Severiano da Silveira e Francisco Mendes Machado os dois não escaparam da sanha do justiçoso.
Vítima de pistolagem, Julio Severiano da Silveira enquanto bebia no bar do cinema local foi alvejado por um tiro que Antonio Ramos, arrendatário do referido bar, lhe deu à traição. Durante muito tempo prostrado pelo balaço que o atingiu na coluna, Julio, nunca mais se levantou. Depois de sua morte a viúva, dona Honorina Maciel Severiano, renunciando aos recursos familiares, mudou-se para Fortaleza, onde conseguiu, a duras penas, com o suor do seu rosto, educar seus filhos, Dr. Lauro Maciel Severiano e Laysce Severiano Bonfim.
O infortúnio de Francisco Mendes Machado saiu da caneta do implacável interventor: foi exonerado do emprego de Coletor Estadual.
Inapto para o comércio, depois da exoneração Chico Mendes, como era conhecido, fracassa como lojista e, em seguida, como dono de caminhão de cargas, dois negócios montados com a fiança do tio major Pedro Mendes Machado.
Depois de passar maus bocados em Baturité, pai de grande família, Chico Mendes só consegue, mesmo, ter uma vida digna quando se muda para Fortaleza, ocasião em que os sete filhos vão se acomodando em diferentes atividades de labor, principalmente, com a orientação da mãe Noemi.
PRIMEIRO EMPRÊGO
Naurício Maciel Mendes, um dos filhos, de Chico Mendes e Noemi, estudante do Colégio Militar de Fortaleza, devido à nova situação financeira, que criaram para o pai, tranca sua matricula.
Através de ex-professor, major Coutinho, se emprega como desenhista do IFOCS - Instituto Federal de Obras Conta as Secas, sendo lotado na “frente de serviços” destinada a empregar os flagelados da seca de 1932 que construíam a rodovia Fortaleza-Russas.
No ano seguinte, com a suspensão da obra, Naurício perde o emprego, mas, antes de sair de Russas, consegue montar, ali, uma célula da Juventude Comunista, entidade atrelada à Secção de Fortaleza da Juventude Internacional Comunista de Moscou, também, fundada por ele juntamente com os primos Heitor Maciel, Pedro Wilson Mendes e outros.
PELOS CAMINHOS DA FARDA
Uma vez de volta a Fortaleza, inclinado para a carreira militar, Naurício Mendes se alista, como voluntário, no Batalhão Ferroviário de Mato Grosso. No final de 1933, se despede dos parentes e amigos na Ponte Metálica da Praia de Iracema, onde embarca num “Ita” para São Paulo, em busca de conexão para Cuiabá.
Ao desembarcar no porto de Santos, Naurício, por coincidência, se depara com outro ex-professor do Colégio Militar, o capitão Silva Barros que o convence a desistir da incumbência de Mato Grosso. Em atenção aos conselhos do mestre, senta praça como soldado raso na Segunda Formação de Intendência Divisionária de São Paulo, no bairro da Barra Funda, onde, dentro de pouco tempo é promovido a cabo.
O baixo soldo de cabos e sargentos, além da regra do Exército, que, depois de algum tempo os dispensavam de suas fileiras, fez com que Naurício, aos 22 anos, solteiro, resolvesse estudar para os preparatórios de acesso à Escola de Aviação do Exército, e, dessa maneira, continuar trilhando os caminhos da farda.
LUIS CARLOS PRESTES
Na segunda metade da década de trinta, apavorada com a ascensão da Alemanha, a III Internacional Comunista, que antes não admitia parcerias com terceiros, resolveu conviver com frentes alheias ao bolchevismo, desde que, estivessem dispostas a combater o nazismo. Foi por essa brecha que Luis Carlos Prestes, Presidente de Honra da Aliança Nacional Libertadora, mergulhou no Partido Comunista Brasileiro.
O Partidão acreditava na influência de Prestes junto à tropa, para angariar a adesão de boa ala de tenentes, sargentos e cabos do exército dispostos a apoiar uma iminente Greve Geral, futuro embrião de um levante militar. Com o entusiasmo dos relatórios enviados à Moscou, até, a III Internacional via com bons olhos a incentivava do levante no Brasil.
A INTENTONA
Escolhido o dia 23 de novembro de 1935, como o momento certo para começar o movimento, na verdade, os lideres aliancistas se precipitaram. Eles não sabiam, que, por outro lado, Getúlio Vargas, tomava conhecimento de todas as suas ações.
Como o Ditador já aguardava o levante, não somente o sufoca como, ainda, ordena a prisão de centenas de pessoas envolvidas ou não na “subversão”.
Depois dessa Intentona Comunista, o governo pratica uma verdadeira “caça as bruxas” e acende uma página de sangue e muita traição na História do Brasil.
ESTADO DE TERROR
No Rio de Janeiro, então capital do Brasil, dentro do estado de terror, se sobressai a ação de Felinto Muller chefe de polícia de Getúlio, pelo modo violento como conduziu a repressão. Uma insânia que deixou a marca de sadismo da “autoridade” no trato dos considerados inimigos do regime.
Carlos Prestes é preso e sujeito a um isolamento total; sua esposa Olga Benário é deportada, teve uma filha na cadeia, morreu num campo de concentração na Alemanha.
Artur Evert, ex-deputado alemão, que fora enviado ao Brasil pela Internacional Comunista, é descoberto e apreendido pela polícia - durante sua prisão foi tão brutalmente torturado que enlouqueceu. Sua mulher foi estuprada por policiais diante dele. O advogado Sobral Pinto, mesmo sendo anticomunista, tentou melhorar as condições do alemão, na prisão, enquadrando-o na lei de proteção aos animais.
O PRESÍDIO MARIA ZÉLIA EM SAO PAULO
Armando Sales, interventor paulista, pré-candidato à Presidência, na esperança de suceder Getulio Vargas no mandato que terminaria em 1938, para angariar o apoio do ditador adota, no seu Estado, o mesmo esquema de Felinto Muller no Rio.
O quartel general da repressão “armandista” era a Prisão de Maria Zélia. Situada em uma zona ribeirinha e pantanosa, cheia de mosquitos, responsáveis pelo surto de impaludismo nos cortiços das cercanias, portanto, um lugar dos mais insalubres da capital paulista. O vento, a chuva que entravam pelas janelas gradeadas, e as águas que escorriam pelas goteiras do teto tornavam o ambiente, ainda, mais úmido, gerando na prisão, focos de infecção, onde somente alguns presos excepcionalmente fortes resistiam à gripe, ao reumatismo e a ciática -, males contraídos nas péssimas condições carcerárias, agravadas pela má alimentação. No cardápio apenas em arroz com feijão e café com pão. As sobras de comida eram reaproveitadas nas próximas refeições dos encarcerados.
Na Prisão Maria Zélia, porém, o mau trato, era seu o ponto mais forte. Naquele “Estado Maior das Grades”, de tantos, contam-se, a seguir, os tormentos que se sabem: o gráfico Manoel de Medeiros, dali saiu para ser operado de úlcera no estomago - morreu de “moléstia súbita e indeterminada; o martírio carcerário fez o comerciário de nome Barreiros tentar o suicídio no desespero de uma sinusite sem tratamento; por sofrimento o gráfico Meireles contraiu uma ciática; pelo mesmo mal o iugoslavo Yedo Gratz, foi levado a Santos, e, depois, jogado dentro de um navio de volta a sua terra natal; tomados pela agonia Durvalino Peixoto, Marcílio Arruda e outro homem, enfraqueceram na masmorra e acabaram num leprosário onde morreram lentamente.
QUADRO DE AUTORIDADES
A hierarquia da Prisão Maria Zélia, exposta num quadro em letras garrafais no corpo da guarda, era encabeçada pelo próprio interventor Armando Sales, depois pelo Cardoso Melo Neto, a seguir pelo Comandante da Guarda Civil, e, no mais, por uma serie de nomes exóticos, como Kaufman, um alemão, que, imperava ali com a mesma desenvoltura de um oficial nazista. Sua guarda era constituída de mercenários, também estrangeiros, especializados em tortura, chefiados por um russo de nome Gregório Kovalenko, elemento da confiança do interventor.
A PRISÃO DE NAURÍCIO
No dia 21 de dezembro de 1936, Naurício Maciel Mendes, sob a acusação de ser comunista, recebe ordem de prisão do delegado Ergas Botelho, de sangrenta memória, e, é entregue à Prisão de Maria Zélia onde já encontravam inapelavelmente encarcerados mais 26 rapazes imaturos, como ele, todos presos políticos.
TENTATIVA DE FUGA
Vivendo no maior desamparo, há meses nos cubículos do calabouço, sem a mínima perspectiva de julgamento, era de se prever, que fosse traçado um plano de fuga. Construíram um túnel, e, para escapar, escolheram a madrugada do dia 21 de abril de 1937.
Para atingir o buraco eles tinham que atravessar o pátio do xadrez. Nessa travessia eles são vistos pelo guarda sentinela. Este, de carabina em punho, consegue impedir a evasão. Segue-se o soar do alarme. Daí uma chuva de balas de metralhadoras. Todas disparadas para o ar. A fuga é reprimida de uma vez por todas. A propósito, até aí, nenhum dos prisioneiros foi atingido.
Dominados pela guarda, que já conhecia o plano da fuga - informada por elementos de espionagem infiltrados entre eles - os jovens foram colocados no pátio sob a mira da guarda.
Naquela ocasião, os presos Valdemar Schultz e Celso Nascimento Rosa, estirados por terra, foram obrigados a roer o cimento do piso com os dentes. Postos de pé um guarda os obrigava a pular mediante tiros nos pés. Uma bala atinge o pé esquerdo de Schultz. Outros rapazes foram colocados em fila, revistados e surrados como animais e logo depois, divididos em três grupos. Os dois primeiros grupos foram escoltados às selas sob agressões físicas.
O terceiro grupo, do qual faziam parte, Naurício Mendes, João Verlota e Antonio Danoso Vidal, Augusto Pinto e José Constancio da Costa, escolhidos, pelos guardas estrangeiros, permanecem no pátio. Eles foram apontados pelos espiões como cabeças do movimento.
Gregório Kovalenko, barbaramente, manda espancar Naurício para obter, dele, informações sobre oficiais comunistas dentro das forças armadas. Sabia que Naurício sendo um jovem inteligente e correto, tinha muitos amigos, entre os quais militares com patentes muito acima da sua. Apesar das torturas que lhe abalaram a resistência Naurício honrou seu nome sem a ninguém entregar.
A SINISTRA VIOLÊNCIA
Kaufman, o alemão comandante da guarda, que a tudo assistia, resolve ir à secretaria, para, de lá, telefonar para o chefe de polícia. Depois de dialogar com aquela autoridade, retorna ao palco da tortura. Trazia ódio na cara de bandido. De repente envia um aceno fatal para Gregório Kovalenko.
O verdugo russo, que já tinha uma escolta pronta, ordena o fuzilamento dos cinco apontados. Verlota, Danoso, Augusto e Constâncio, cosidos pelas balas, morreram instantaneamente. Somente Naurício não morreu de pronto. Estirado no chão, arquejante, sem poder avaliar a sua situação. Quando os guardas verificaram que ainda respirava, receberam ordens do carrasco Kovalenko para lhe tirar a sobrevida a coronhadas de fuzil. A sinistra violência lhe mutilou a fronte e lhe arrancou uma orelha.
EPÍLOGO
Meses depois, em Fortaleza, na casa dos pais, num dia de imensa tristeza e revolta, chega pelo correio um recorte de jornal anônimo contando os acontecimentos do Presídio Maria Zélia que terminava dizendo:
“Vitima do “armandismo” paulista, dentre os fuzilados, conta-se em maioria nortistas, e, dentre eles Naurício Mendes Maciel cearense ex-aluno do Colégio Militar, de Fortaleza, que servia na Segunda Formação de Intendência Divisionária de São Paulo, na Barra Funda”
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Datada de 05/06/37, Dona Noemi, a mãe de Naurício, sobre o filho querido recebe uma carta de Atibaia-Sp, assinada por certa D. Sebastiana, terminava assim:
“… a sepultura do sempre lembrado Naurício tem o n. 177, quadra 77; eu e a moça que ele namorava sempre vamos visitá-la e sempre levamos flores para ele”.
A última lembrança do filho chega pelo vapor “Afonso Pena”: o espólio de Naurício.
O pai diante do tão pouco que restou do “bom queridinho” – assim chamava o filho – amassa no peito, molhado de lagrimas, o papel da carta que detalhava o fuzilamento do filho. O autor da missiva era um amigo, operário de São Paulo, que, ainda, ensaiou um protesto, ao publicar, contra os criminosos, um artigo na imprensa paulista comentando que:
“Só a perversidade sem peias, o ódio do Brasil estrangeirado de São Paulo, poderia produzir tamanha desumanidade! Mataram as alegrias de muitos lares brasileiros. Bandidos!”.
Com o passar dos tempos, soube-se que impune Gregório Kovalenko, ainda vivia numa fazenda no interior de São Paulo, Estado onde, ainda, explorava os trabalhadores humildes do campo.