Brincadeiras de Baturité (I)

janeiro 30th, 2010 - Publicado por: Maninho

AS BRINCADEIRAS DE BATURITÉ

Na primeira metade dos anos 50, os filmes “westerns”, geralmente protagonizados por Tom Mix, Roy Rogers, John Mac Brow, John Wayne, Charles Starret, e outros astros, sem exceção, desenvolviam enredos de lutas e aventuras de um xerife e seus auxiliares contra um numeroso bando de bandidos e, muitas vezes, versus tribos de índios.

As roupas diferenciadas, a cartucheira com um revolver na altura da mão com o braço estendido, os cavalos, a diligência, e a briga final no “saloon”, eram detalhes que, juntos, deslumbravam a cabeça infantil fiel ao gênero.

Exaltados com a fictícia heroicidade, o pré-adolescente, ao sair do cinema trazia a mesma pose dos atores.

Era como se dizia: saía todo inchado!

Pois bem. Foi da trama destes filmes, onde eram comuns as figuras do mocinho, do menininho, e do inseparável “doidão”, sempre as turras com os bandidos, que floriu a brincadeira do “cow boys”. Pelas cercanias da Praça Santa Luzia o trio heróico era representado respectivamente por João Rodolfo, Maninho e Chiquinho Goiaba, e, a quadrilha pelos outros: Marcelo Victor, Ideovar, Luciano Santana, Bebeto, João Saraiva, Everton Caúla e outros que fossem chegando.

Um dos esconderijos dos “bandidos” era a garagem da casa do português Manoel Simões, pela rua de trás, o mesmo local onde pernoitava e estacionava o ônibus do seu Lulú.

Num dia de brincadeira, estrategicamente oculto em cima do ônibus, na espreita de “prender um adversário”, de repente, o Bebeto ouviu um ruído, e, inadvertidamente, sem ver ninguém, foi logo bradando:

- “Mãos ao alto”.

A resposta não demorou:

- “Mãos o alto” o que? Desça já daí de cima do meu ônibus cabra traquina, senão vou mandar seu pai lhe dar uma sova.

Ninguém se lembra da cara do Bebeto descendo a escada trazeira do carro, e pior, tendo a frente o próprio, para ele temível, seu Lulú, o todo poderoso dono do ônibus… O que há de certo, porém, é que, o ralho foi tão grande que, nunca mais, nenhuma criança se atreveu jamais usar o dito esconderijo.

Baturité - Praça Santa Luzia, Lado do Sol

janeiro 27th, 2010 - Publicado por: Maninho

BATURITÉ PRAÇA SANTA LUZIA LADO DO SOL

CAPITULO I

A pequena história das residências da Praça Santa Luzia lado do sol, no sentido norte-sul, começam no Sobrado dos Maciéis.

Casarão concluído por volta de 1903, sua amplitude revela o desejo dos donos, coronel Raimundo Ferreira Maciel (1851-1923) e sua digníssima esposa Emília Barbosa Maciel (1862-1946) de constituir uma família amoldada à magnitude da mansão. Dessa forma, tal qual foi planejado, dona Emília, em vinte e um partos, com três abortos e criou dezoito filhos - coisa muito difícil naqueles tempos formou três, um em medicina, dois em direito:

Francisco Barbosa Maciel (1882-1947), o filho mais velho, formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, prestou residência em hospital na Alemanha onde se casou com Ema Khrozwinski Maciel. Medido Oftalmologista pouco trabalhou no Baturité, mas se radicou em Mayrink no Estado de São Paulo, ali, prestando serviços para a estrada de ferro;

O segundo filho do sobrado, Godofredo Maciel (1884-1951), advogado, casado com Maria Diana Alcântara Maciel, foi duas vezes prefeito de Fortaleza (1921-1924 e 1924-1928), Deputado Federal e Prefeito do Alto Purus na Amazônia;

Julio Maciel (1888-1967), terceiro filho, foi Promotor e Juiz de Direito em diversas comarcas do interior e na capital casado com Nabirra Acário Maciel. Célebre por compor obras poéticas do porte de “Terra Mártir” (1918), “Poemas da Solidão” (1943), “ABC do Padre Cícero (1944), e “Os versos de Ouro de Pitágoras” (1956), ocupou a Cadeira de n. 28 da Academia Cearense de Letras.

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Dos outros filhos do casal, sem embargo da intelectualidade de cada um, pelo menos os quatro abaixo, são figuras inesquecíveis que, há seu tempo, ajudaram a colorir o cotidiano urbano de Baturité:

Honorina Maciel Severiano, nascida em 1886, esposa de Julio Severiano da Silveira, (1884-1923), o ativista político que em 1912 organizou a passeata para comemorar o fim da oligarquia (1896-1912) de Nogueira Acioli. Em determinado momento dessa caminhada o delegado Manoel do Rego Falcão foi morto com um tiro no pescoço. Acusado de autoria do disparo Julio Severiano foi submetido a processo arquivado por falta de provas. Apesar de inocente, anos depois Julio Severiano foi justiçado com um tiro, à traição, que o deixou prostrado por muito tempo. Júlio e Honorina, enquanto casados moraram no anexo vizinho ao sobrado.

Jehovah Barbosa Maciel (1896-1952), Tesoureiro, Secretário e Orador da Prefeitura de Baturité casado com Araci Cordeiro, filha de Francisco Cordeiro de Souza, Intendente Municipal eleito em 1906, este irmão do senador João Cordeiro; na era Vargas Jeovah Maciel foi nomeado Prefeito da então cidade de União, hoje Jaguaruana pelo interventor Carneiro de Mendonça.

Iza Maciel, batizada Luíza (1903-198X), foi vulto impar da sociedade baturiteense na segunda e terceira década do século passado, viveu os momentos de grande rivalidade entre os então jovens perequetés, chefiados por ela, versus os rotschilderes da casa burguesa Jose Pinto do Carmo. A disputa entre os dois grupos consistia em saber qual deles era capaz de realizar os melhores bailes. O baile vencedor, além do critério animação, seria o simultaneamente mais longo. Numa dessas festas, enquanto os rotschilderes se viam vencedores, eis que um músico dos perequetés tocou o último clarim de alto de uma mongunbeira da praça. Casou-se Iza Maciel com o Sr. Eurico Lopes, ambos em idade avançada, sendo ela a última filha de Raimundo e Emilia a se mudar para Fortaleza, isso na década de 1970.

Heitor Maciel (1914-1972), casado com Elsa Barros Maciel, não havia na cidade quem não conhecesse esse que era o filho caçula do sobrado. Heitor Maciel, agricultor, destacou-se como um comunista sempre perseguido, mas nunca encontrado pelo sargento Sebastião. Homem irreverente Heitor, quando jovem, foi expulso do Colégio Militar, e, homem feito, gastava o lucro de uma safra numa única farra. Heitor Maciel era freguês do Bar do seu Leôncio aonde, quando chegava da serra, mandava servir quatro garrafas de cerveja à sua montaria, a burra de nome Favela, enquanto ela sorvia a Bohemia, ele tomava seu uísque com os amigos.

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Em algumas ocasiões o sobrado teve inquilinos:

Na década de 1940, foi alugado para residência do Prefeito-Interventor Raul Correia Lima. Este certa feita, aproveitando a grandiosidade da casa, hospedou, em seus treze quartos, um grande grupo de religiosos vindos de Fortaleza para assistir um Congresso Eucarístico dirigido pelo comendador Ananias Arruda. Nesse acontecimento religioso, lembrava o saudoso edil que, o envolvimento do acontecimento era de tal forma que: quem se encontrava na cidade e não sabia cantar, pelo menos, assoviava o hino do congresso.

De 1952-1954, também na qualidade de inquilino morou no sobrado o então comerciante e político, Mário Maciel Mendes (1917-2001) esposo de dona Rita Carneiro Mendes, pais de Pedro Alberto, o Bebeto; Mario Junior, o Maninho; e Maria Augusta, a Duduia; Luiz Eduardo, falecido criança, e Pedro Mendes Machado Neto, caçula.

Pelas mãos do renomado médico cirurgião Dr. Marcelo Holanda o sobrado, também, teve seus dias de Hospital, a lembrança desse momento é tão marcante que muitos ao referir ao prédio o lembram como o HOSPITAL DO DOUTOR MARCELO.

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Hoje o sobrado pertence ao advogado Dr. João Viana, de tradicionalíssima família baturiteense. Pelo zelo que o tem conservado, se vê o respeito do dono pelo valor histórico do imóvel.

Aos que visitam a casa, ainda hoje, se impressionam, logo à primeira vista, com a escada rotatória que há mais de cem anos serve de ligação do térreo com o andar superior.

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Aguardem, no Capitulo II, a pequena história das residências das irmãs, cunhados e irmão do industrial, comerciante e político Raimundo Viana.

As Cavalhadas da Rua Sete

janeiro 15th, 2010 - Publicado por: Maninho

As Cavalhadas da Rua Sete

A Rua Sete de Setembro até os primeiros anos da década de 1930 não tinha pavimentação; no espaço do quarteirão do Beco do Pompeu até a rua entre o Barracão das Carnes e o Mercado Central, apenas as coxias eram cimentadas, naturalmente, para evitar erosão durante as chuvas de inverno.

No trecho compreendido entre a demolida Igreja do Rosário e a residência do banqueiro Raimundo Arruda, o logradouro, em dias de festas, servia de palco das cavalhadas, representações das tradições herdadas de Portugal que se impregnaram no folclore nacional notadamente no interior.

Rudes cavaleiros de Baturité, muitos filhos de gente importante, dentre outros aficionados Luiz Liberato, Zé Perequeté, Zé Bruno Maciel, Edmundo Victor e os irmãos Toinho, Carlos e Almir Cardoso se dividiam em partidos – azul e encarnado – para disputarem a impetuosa aposta eqüestre.

Cada concorrente, a cavalo, disparava de determinado ponto para, de lança em punho, sacar uma argola estrategicamente posta a, mais ou menos, cem metros de distância.

O feliz cavalariano vencedor, ao cumprir o objetivo, de peito erguido, cavalgando a passo lento, se aproximava do público espectador em busca da namorada para lhe oferecer a aldrava valiosa e, dessa forma, compartilhar com a amada a gloria de ser o campeão da temporada.

Urbanizada na administração do interventor capitão Ozimo de Alencar, nascido iguatuense, assim, vaidosa, a Rua Sete, de prado, passou a ser a principal artéria da cidade, não só pela modernização, mas, por merecimento, haja vista o número de estabelecimentos que lhe garantiram a fama de rua do comercio, designação, antes, pertencente à Rua Quinze de Novembro.

Do lado do sol um conjunto arquitetônico de seis prédios abonava a pujança das antigas lojas: Sapataria São José, de José Pinto Garcez, As Variedades, do Major Pedro Mendes, a Casa Síria, de Elias Salomão, a “Casa Pernambucana”, dos Irmãos Lundgren, e, depois de algumas residências, as oficinas da redação de “A Verdade” o semanário do coronel Ananias Arruda; do outro lado a usina e luz e força e o cinema, ambos de José Pinto do Carmo, o imponente prédio do Banco Comercial e Agrícola da família Arruda.

Antes de se extinguirem por completo, as cavalhadas usaram a Rua Senador João Cordeiro a popular Rua de Trás, em frente a Fábrica Velha do major Horácio Dutra.

UNIVERSIDADE VALE DO ACARAÚ EM BATURITÉ

dezembro 14th, 2009 - Publicado por: Maninho

UNIVERSIDADE VALE DO ACARAÚ EM BATURITÉ

Mario Mendes Junior

Nas décadas 1930-1950, com a instalação de estabelecimentos religiosos de ensino – jesuítas, salesianos e irmãs de caridade – Baturité, em três décadas, exportou dezenas de milhares de humanistas, nativos e de fora, para alcançar maior instrução nos grandes centros.

Na transição dos séculos XX e XXI, a iniciativa de trazer uma unidade da Universidade Vale do Acaraú ao Maciço de Baturité preencheu uma lacuna no justo lugar que há anos clamava por uma ação que pudesse preservar sua vocação cultural.

A Câmara Municipal, nesta dada, 14/12/2009, ao outorgar o titulo de Cidadão Baturiteense, agradece enquanto reconhece o Sr. Adegildo Ferrer, como o mentor que fez de Baturité a sede da faculdade que já formou centenas de jovens inteligentes que não precisaram mais sair para estudar nas capitais de onde não voltariam.

Para escolher Baturité como sede de Faculdade da UVA, o mestre do ensino superior atendeu a reivindicação da professora Gracinda Calado que, na ocasião, recomendou a também professora Nina Moreira Viana para ajudá-lo no procedimento de implantação e identificação de cursos de acordo com a necessidade do município.

A cidade ao adotar Adegildo Ferrer, agora tem mais um novo filho ilustre, e muito, capaz de mostrar-lhe que A EDUCAÇÃO É O MELHOR CAMINHO PARA O DESENVOLVIMENTO.

O PADEIRO

novembro 29th, 2009 - Publicado por: Maninho

O PADEIRO

Cesto, lona, e fregueses, além disso, João Papôco não precisava de nada para sair, lá das bandas da Praça da Matriz até o Putiú vendendo pão.

Não me lembro a que hora ele religiosamente descia. Não esqueço, porém, do canto alto, arrastado, e extremamente agudo com que oferecia o comestível simplório:

- Pãooooooooo….. quenteeee!!! Da Padaria São Vicente!!!!!!

Ao que a negrada continuava em cima das buchas:

- Quem come dele cai os denteees!

Se ele gostava ou não do repique, também, não sei.

O certo, porém, é que ao coro insultante, ele treplicava, o mesmo jargão, desta vez e com a veemência que podia alcançar ele esbraveja o grito:

- Pãooooooooooooo….. quenteeeeeeeee!!!, Da Padaria São Vicenteeeee!!!!!

Pelo que a negrada, do mesmo modo, respondia, com a ênfase de mais adeptos do insultar:

- Quem come dele cai os denteeeeeeeeees!

Incansável, cesto ao ombro, cesto ao chão, ele, pacientemente, ia despachando os fregueses, indiferente aos agravos.

Quem tinha algum dinheiro saciava o bucho com a saudável merenda recém saída do forno. Quem não tinha nenhum, ao invés de encher os olhos de lagrimas pela fome, como consolo, enchiam os pulmões de ar para aumentar o volume do coro que insultava ao João.

novembro 22nd, 2009 - Publicado por: Maninho

O BRASIL DO FUTURO

O eterno PAÍS DO FUTURO, não pelos filhos, mas pela diversidade, surpreendentemente, dentro da crise econômica, aparece ao mundo como iminente potência mundial.

O trabalhador brasileiro, a se ver diante dessa realidade, no entanto, não sabe como a potencialidade vai lhe beneficiar.

Desconfiado de tudo. Ele não sabe se o estudante de hoje está se preparando para dar destinação a tanta riqueza, ou, do contrário, se vão loteá-la, como os mais velhos já estão loteando o pré-sal?

Pegajosos maus exemplos não lhes faltam. Basta ver um governo que para poder governar, tem que: mentir, nomear ministros corruptos, conviver com parlamentares suspeitos, faltar com a ética, e, ainda, não cumprir promessas de campanha.

Fruto dessa inversão valorativa já existe ministro, ex-bancário, lutando contra os aposentados e senador comunista afrontando o social.

Foi dessa realidade nua e crua que nasceu o slogan: EM 2010, NÃO REELEJA NINGUÉM! Para falar a verdade, com os políticos que aí estão o Brasil não tem futuro!

O Café Central

novembro 22nd, 2009 - Publicado por: Maninho

O CAFÉ CENTRAL

No sudeste da Travessa Mattos, em frente ao Mercado, esquina com a Rua Sete Setembro, ponto de convergência da cidade de Baturité, o Café Central, exalava, pelos quatro cantos do comercio a fragrância da rubiácea passada na hora.
Nos dias de feira, o aroma se misturava ao odor das baforadas dos cigarros ordinários dos matutos que, vindos das zonas rurais; dos povoados, das vilas das cidades satélites, efervesciam o comércio com os produtos que traziam para vender no meio da rua.

O vozeirão dos fregueses, os pigarros, os escarros, as batidas da colherinha na xícara para apressar a garçonete, nada, superava os gritos dos donos, seu Fransquim e dona Raimundinha a cobrar eficiência dos empregados.
As mezinhas de ferro fundido espalhadas no salão, com quatro cadeiras em volta, tinham, em cada uma, em cima do tampo de mármore, um açucareiro de vidro com tampa de metal. Estas quando viradas para baixo, derramavam o açúcar grosseiro que adoçava a especialidade da casa: café recém coado, puro, em xícaras pequenas, ou, com leite, em xícaras médias, acompanhado do tradicional pão passado com nata, ou, da fatia de bolo do tipo Luiz Felipe ou Souza Leão, assado na forma que delimitada o corte dos nacos.

Pioneiro o Café Central, uma vez, ensaiou, até, mudar de nome para Sorveteria Rainha, isso se deu, quando começou a fabricar o picolé Rei, produto vendido além do local, nas feiras, nos colégios e noutros pontos estratégicos, por vendedores avulsos que ofereciam a mercadoria gritando o conhecido jargão:

- Doce gelado! Abacaxi, maracujá, oi doce!

A famosa esquina teve seu momento de terror na Segunda Guerra Mundial. Nessa ocasião, ali, funcionava uma filial das Casas Pernambucanas, pertencente ao grupo Lundgren, de origem germânica. Assim, sob a gerência de Chico Campos, a loja sofreu o mesmo quebra-quebra que movimentou a nação quando da Declaração de Guerra, pelo Brasil, ao eixo Roma-Berlim-Tóquio.
Depois do saque das Casas Pernambucanas o ponto comercial sediou uma loja de João Paulino, irmão de Francisco Mesquita Pinheiro, o então dono do prédio, e, também, proprietário da “A Vencedora”, uma loja muito sortida estabelecida na principal esquina do mercado público que explorava o mesmo ramo do irmão - tecidos, chapéus e miudezas.

O Café Central teve seu dia de maior gloria quando o governador Raul Barbosa prestigiou o estabelecimento com sua presença para, lá, tomar uísque com seus correligionários, quando esteve em Baturité para inaugurar a Barragem Tijuquinha na década de 1950.

No local onde funcionou o Café Central está um prédio onde as linhas arquitetônias mostram o bom gosto do empreendedor que o reformou.

Um Certo Cabo Naurício

novembro 17th, 2009 - Publicado por: Maninho

UM CERTO CABO NAURÍCIO

A SUSPEIÇAO

A Revolução de 1930, distanciada do ideário tenentista, nomeou o civil Fernandes Távora primeiro interventor do Ceará. Desses que distribuem os privilégios do cargo de acordo com os interesses clientelistas, o dito, tradicional politiqueiro, também fazia uso da intransigência para acusar e perseguir aos que não rezavam pelos “estatutos” de sua facção política.

O diminuto período de oito meses em que esteve à frente do governo só lhe serviu para acossar, desarmar, prender e reabrir processos criminais esquecidos no tempo, principalmente, é claro, quando os incriminados não pertenciam seu grupo oligárquico.

Para falar a verdade, além de prejudicar os outros, tal interveniente nada realizou.

Sem mostrar a cara, em Baturité, ele resolve jogar duro com dois líderes da passeata de janeiro de 1912, durante a qual o delegado Manoel do Rego Falcão, foi morto com um tiro no pescoço. Um crime, perpetrado há justos dezoito anos, sem solução, por absoluta falta de provas da autoria.

Como as aparências do delito respingavam suspeição nos cidadãos Júlio Severiano da Silveira e Francisco Mendes Machado os dois não escaparam da sanha do justiçoso.

Vítima de pistolagem, Julio Severiano da Silveira enquanto bebia no bar do cinema local foi alvejado por um tiro que Antonio Ramos, arrendatário do referido bar, lhe deu à traição. Durante muito tempo prostrado pelo balaço que o atingiu na coluna, Julio, nunca mais se levantou. Depois de sua morte a viúva, dona Honorina Maciel Severiano, renunciando aos recursos familiares, mudou-se para Fortaleza, onde conseguiu, a duras penas, com o suor do seu rosto, educar seus filhos, Dr. Lauro Maciel Severiano e Laysce Severiano Bonfim.

O infortúnio de Francisco Mendes Machado saiu da caneta do implacável interventor: foi exonerado do emprego de Coletor Estadual.

Inapto para o comércio, depois da exoneração Chico Mendes, como era conhecido, fracassa como lojista e, em seguida, como dono de caminhão de cargas, dois negócios montados com a fiança do tio major Pedro Mendes Machado.

Depois de passar maus bocados em Baturité, pai de grande família, Chico Mendes só consegue, mesmo, ter uma vida digna quando se muda para Fortaleza, ocasião em que os sete filhos vão se acomodando em diferentes atividades de labor, principalmente, com a orientação da mãe Noemi.

PRIMEIRO EMPRÊGO

Naurício Maciel Mendes, um dos filhos, de Chico Mendes e Noemi, estudante do Colégio Militar de Fortaleza, devido à nova situação financeira, que criaram para o pai, tranca sua matricula.

Através de ex-professor, major Coutinho, se emprega como desenhista do IFOCS - Instituto Federal de Obras Conta as Secas, sendo lotado na “frente de serviços” destinada a empregar os flagelados da seca de 1932 que construíam a rodovia Fortaleza-Russas.

No ano seguinte, com a suspensão da obra, Naurício perde o emprego, mas, antes de sair de Russas, consegue montar, ali, uma célula da Juventude Comunista, entidade atrelada à Secção de Fortaleza da Juventude Internacional Comunista de Moscou, também, fundada por ele juntamente com os primos Heitor Maciel, Pedro Wilson Mendes e outros.

PELOS CAMINHOS DA FARDA

Uma vez de volta a Fortaleza, inclinado para a carreira militar, Naurício Mendes se alista, como voluntário, no Batalhão Ferroviário de Mato Grosso. No final de 1933, se despede dos parentes e amigos na Ponte Metálica da Praia de Iracema, onde embarca num “Ita” para São Paulo, em busca de conexão para Cuiabá.

Ao desembarcar no porto de Santos, Naurício, por coincidência, se depara com outro ex-professor do Colégio Militar, o capitão Silva Barros que o convence a desistir da incumbência de Mato Grosso. Em atenção aos conselhos do mestre, senta praça como soldado raso na Segunda Formação de Intendência Divisionária de São Paulo, no bairro da Barra Funda, onde, dentro de pouco tempo é promovido a cabo.

O baixo soldo de cabos e sargentos, além da regra do Exército, que, depois de algum tempo os dispensavam de suas fileiras, fez com que Naurício, aos 22 anos, solteiro, resolvesse estudar para os preparatórios de acesso à Escola de Aviação do Exército, e, dessa maneira, continuar trilhando os caminhos da farda.

LUIS CARLOS PRESTES

Na segunda metade da década de trinta, apavorada com a ascensão da Alemanha, a III Internacional Comunista, que antes não admitia parcerias com terceiros, resolveu conviver com frentes alheias ao bolchevismo, desde que, estivessem dispostas a combater o nazismo. Foi por essa brecha que Luis Carlos Prestes, Presidente de Honra da Aliança Nacional Libertadora, mergulhou no Partido Comunista Brasileiro.

O Partidão acreditava na influência de Prestes junto à tropa, para angariar a adesão de boa ala de tenentes, sargentos e cabos do exército dispostos a apoiar uma iminente Greve Geral, futuro embrião de um levante militar. Com o entusiasmo dos relatórios enviados à Moscou, até, a III Internacional via com bons olhos a incentivava do levante no Brasil.

A INTENTONA

Escolhido o dia 23 de novembro de 1935, como o momento certo para começar o movimento, na verdade, os lideres aliancistas se precipitaram. Eles não sabiam, que, por outro lado, Getúlio Vargas, tomava conhecimento de todas as suas ações.

Como o Ditador já aguardava o levante, não somente o sufoca como, ainda, ordena a prisão de centenas de pessoas envolvidas ou não na “subversão”.

Depois dessa Intentona Comunista, o governo pratica uma verdadeira “caça as bruxas” e acende uma página de sangue e muita traição na História do Brasil.

ESTADO DE TERROR

No Rio de Janeiro, então capital do Brasil, dentro do estado de terror, se sobressai a ação de Felinto Muller chefe de polícia de Getúlio, pelo modo violento como conduziu a repressão. Uma insânia que deixou a marca de sadismo da “autoridade” no trato dos considerados inimigos do regime.

Carlos Prestes é preso e sujeito a um isolamento total; sua esposa Olga Benário é deportada, teve uma filha na cadeia, morreu num campo de concentração na Alemanha.

Artur Evert, ex-deputado alemão, que fora enviado ao Brasil pela Internacional Comunista, é descoberto e apreendido pela polícia - durante sua prisão foi tão brutalmente torturado que enlouqueceu. Sua mulher foi estuprada por policiais diante dele. O advogado Sobral Pinto, mesmo sendo anticomunista, tentou melhorar as condições do alemão, na prisão, enquadrando-o na lei de proteção aos animais.

O PRESÍDIO MARIA ZÉLIA EM SAO PAULO

Armando Sales, interventor paulista, pré-candidato à Presidência, na esperança de suceder Getulio Vargas no mandato que terminaria em 1938, para angariar o apoio do ditador adota, no seu Estado, o mesmo esquema de Felinto Muller no Rio.

O quartel general da repressão “armandista” era a Prisão de Maria Zélia. Situada em uma zona ribeirinha e pantanosa, cheia de mosquitos, responsáveis pelo surto de impaludismo nos cortiços das cercanias, portanto, um lugar dos mais insalubres da capital paulista. O vento, a chuva que entravam pelas janelas gradeadas, e as águas que escorriam pelas goteiras do teto tornavam o ambiente, ainda, mais úmido, gerando na prisão, focos de infecção, onde somente alguns presos excepcionalmente fortes resistiam à gripe, ao reumatismo e a ciática -, males contraídos nas péssimas condições carcerárias, agravadas pela má alimentação. No cardápio apenas em arroz com feijão e café com pão. As sobras de comida eram reaproveitadas nas próximas refeições dos encarcerados.

Na Prisão Maria Zélia, porém, o mau trato, era seu o ponto mais forte. Naquele “Estado Maior das Grades”, de tantos, contam-se, a seguir, os tormentos que se sabem: o gráfico Manoel de Medeiros, dali saiu para ser operado de úlcera no estomago - morreu de “moléstia súbita e indeterminada; o martírio carcerário fez o comerciário de nome Barreiros tentar o suicídio no desespero de uma sinusite sem tratamento; por sofrimento o gráfico Meireles contraiu uma ciática; pelo mesmo mal o iugoslavo Yedo Gratz, foi levado a Santos, e, depois, jogado dentro de um navio de volta a sua terra natal; tomados pela agonia Durvalino Peixoto, Marcílio Arruda e outro homem, enfraqueceram na masmorra e acabaram num leprosário onde morreram lentamente.

QUADRO DE AUTORIDADES

A hierarquia da Prisão Maria Zélia, exposta num quadro em letras garrafais no corpo da guarda, era encabeçada pelo próprio interventor Armando Sales, depois pelo Cardoso Melo Neto, a seguir pelo Comandante da Guarda Civil, e, no mais, por uma serie de nomes exóticos, como Kaufman, um alemão, que, imperava ali com a mesma desenvoltura de um oficial nazista. Sua guarda era constituída de mercenários, também estrangeiros, especializados em tortura, chefiados por um russo de nome Gregório Kovalenko, elemento da confiança do interventor.

A PRISÃO DE NAURÍCIO

No dia 21 de dezembro de 1936, Naurício Maciel Mendes, sob a acusação de ser comunista, recebe ordem de prisão do delegado Ergas Botelho, de sangrenta memória, e, é entregue à Prisão de Maria Zélia onde já encontravam inapelavelmente encarcerados mais 26 rapazes imaturos, como ele, todos presos políticos.

TENTATIVA DE FUGA

Vivendo no maior desamparo, há meses nos cubículos do calabouço, sem a mínima perspectiva de julgamento, era de se prever, que fosse traçado um plano de fuga. Construíram um túnel, e, para escapar, escolheram a madrugada do dia 21 de abril de 1937.

Para atingir o buraco eles tinham que atravessar o pátio do xadrez. Nessa travessia eles são vistos pelo guarda sentinela. Este, de carabina em punho, consegue impedir a evasão. Segue-se o soar do alarme. Daí uma chuva de balas de metralhadoras. Todas disparadas para o ar. A fuga é reprimida de uma vez por todas. A propósito, até aí, nenhum dos prisioneiros foi atingido.

Dominados pela guarda, que já conhecia o plano da fuga - informada por elementos de espionagem infiltrados entre eles - os jovens foram colocados no pátio sob a mira da guarda.

Naquela ocasião, os presos Valdemar Schultz e Celso Nascimento Rosa, estirados por terra, foram obrigados a roer o cimento do piso com os dentes. Postos de pé um guarda os obrigava a pular mediante tiros nos pés. Uma bala atinge o pé esquerdo de Schultz. Outros rapazes foram colocados em fila, revistados e surrados como animais e logo depois, divididos em três grupos. Os dois primeiros grupos foram escoltados às selas sob agressões físicas.

O terceiro grupo, do qual faziam parte, Naurício Mendes, João Verlota e Antonio Danoso Vidal, Augusto Pinto e José Constancio da Costa, escolhidos, pelos guardas estrangeiros, permanecem no pátio. Eles foram apontados pelos espiões como cabeças do movimento.

Gregório Kovalenko, barbaramente, manda espancar Naurício para obter, dele, informações sobre oficiais comunistas dentro das forças armadas. Sabia que Naurício sendo um jovem inteligente e correto, tinha muitos amigos, entre os quais militares com patentes muito acima da sua. Apesar das torturas que lhe abalaram a resistência Naurício honrou seu nome sem a ninguém entregar.

A SINISTRA VIOLÊNCIA

Kaufman, o alemão comandante da guarda, que a tudo assistia, resolve ir à secretaria, para, de lá, telefonar para o chefe de polícia. Depois de dialogar com aquela autoridade, retorna ao palco da tortura. Trazia ódio na cara de bandido. De repente envia um aceno fatal para Gregório Kovalenko.

O verdugo russo, que já tinha uma escolta pronta, ordena o fuzilamento dos cinco apontados. Verlota, Danoso, Augusto e Constâncio, cosidos pelas balas, morreram instantaneamente. Somente Naurício não morreu de pronto. Estirado no chão, arquejante, sem poder avaliar a sua situação. Quando os guardas verificaram que ainda respirava, receberam ordens do carrasco Kovalenko para lhe tirar a sobrevida a coronhadas de fuzil. A sinistra violência lhe mutilou a fronte e lhe arrancou uma orelha.

EPÍLOGO

Meses depois, em Fortaleza, na casa dos pais, num dia de imensa tristeza e revolta, chega pelo correio um recorte de jornal anônimo contando os acontecimentos do Presídio Maria Zélia que terminava dizendo:

“Vitima do “armandismo” paulista, dentre os fuzilados, conta-se em maioria nortistas, e, dentre eles Naurício Mendes Maciel cearense ex-aluno do Colégio Militar, de Fortaleza, que servia na Segunda Formação de Intendência Divisionária de São Paulo, na Barra Funda”
.
Datada de 05/06/37, Dona Noemi, a mãe de Naurício, sobre o filho querido recebe uma carta de Atibaia-Sp, assinada por certa D. Sebastiana, terminava assim:

“… a sepultura do sempre lembrado Naurício tem o n. 177, quadra 77; eu e a moça que ele namorava sempre vamos visitá-la e sempre levamos flores para ele”.

A última lembrança do filho chega pelo vapor “Afonso Pena”: o espólio de Naurício.

O pai diante do tão pouco que restou do “bom queridinho” – assim chamava o filho – amassa no peito, molhado de lagrimas, o papel da carta que detalhava o fuzilamento do filho. O autor da missiva era um amigo, operário de São Paulo, que, ainda, ensaiou um protesto, ao publicar, contra os criminosos, um artigo na imprensa paulista comentando que:

“Só a perversidade sem peias, o ódio do Brasil estrangeirado de São Paulo, poderia produzir tamanha desumanidade! Mataram as alegrias de muitos lares brasileiros. Bandidos!”.

Com o passar dos tempos, soube-se que impune Gregório Kovalenko, ainda vivia numa fazenda no interior de São Paulo, Estado onde, ainda, explorava os trabalhadores humildes do campo.

O Teco Teco

novembro 10th, 2009 - Publicado por: Maninho

O TECO-TECO
Como um assunto puxa outro, a propósito de minha crônica A Rua de Trás, recebi, diretamente de Michigan – Us, um email de João Alberto Figueiredo, que antes habitou naquele pedaço. Lembrava a queda de um teco-teco no canavial do seu Nenzim Lopes. Acontecimento que por incomum, ainda, não caiu no esquecimento.

Nesses tempos, João Alberto, filho de Manoel Figueiredo e Dona Puri acompanhado de seu melhor amigo e vizinho, o Stenio, filho do coletor federal Rubens Santana, procuravam o azulão, um cachorro, talvez.
Pelo lugar onde se encontravam, com certeza, também, saboreavam seriguelas, coisa conhecidamente proibida no sítio de Chagas Mariano e Dona Doria que não permitiam ninguém transpor o muro construído, justamente, para evitar visitas inoportunas deste tipo. Mas, como com menino a coisa é diferente, os dois, mais ou menos, aos oito anos de idade, sem dúvidas estavam ali sem permissão, às escondidas e, principalmente, escapados da vigilância rigorosa das mães.

O estridulado dos sanhaçus em disputa com silencio profundo, pouco a pouco, vai sendo superado pela zuada de mortor falhando, no rumo do canavial. Curiosos os meninos saíram debaixo das fruteiras em busca de uma clareira que pudesse lhes mostrar um pedaço de horizonte. Ao atingirem a plena luz, hipnotizados e deslumbrados, avistaram um teco-teco ainda baixando até cair de vez em cima a plantação de canas..

Sem pensar duas vezes os dois pestinhas, armados de baladeira, e ao atingirem uma distancia segura, sem saber por que começaram a “bombardear” o pássaro de ferro que na realidade já estava abatido.
Ao ver dois sobreviventes cambaleando ate o chão, gritando com eles, os amiguinhos saíram correndo para casa - cada um para sua.

Logo em seguida, ainda com muito medo, João Alberto saiu de casa, desceu pelo quintal, e viu uma multidão em volta da aeronave decerto socorrendo os tripulantes da aeronave que por sua fez tiveram ferimentos, mas, somente o susto.

Dentre os que vieram socorrer o piloto chegou à frente o Fernando Simões - apareceu por lá com uma “Bicicleta a Motor”, atrás dele, outros ciclistas tentando acompanhá-lo com suas bicicletas a pedal mesmo.

O piloto de nome Faria, não sei dizer ao certo, se já tinha alguma amizade com a família Simões ou se esta começou com o socorro do Fernando, mesmo porque, dar acolhida a quem precisa sempre foi uma característica daquela família portuguesa, com certeza.

A Rua de Trás

novembro 4th, 2009 - Publicado por: Maninho

As casas do lado da sombra da Praça Santa Luzia, por um portão nos fundos, se correspondiam com a Rua João Cordeiro, mais conhecida como a Rua de Trás, isso, porque ficava nos fundos da Igreja de Santa Luzia.

Em seguida à ladeira de acesso ao Sítio do Seu Nezim, a Rua de Trás começava num monturo com muitos focus de queima.

Pegada ao munturo a primeira casa era da Dona Olindina, fincada num sítio grande e intransponível, de lá, nunca se via, ninguém, entrando ou saindo.

O sitio logo acima à Dona Olindina, que antigamente pertenceu ao meu avô, Pedro Mendes, este ao contrário daquele, era escancarado para todos e qualquer um. Ali morava o modestíssimo casal Manezinho e Ana criando seus filhos Zé Goiaba e Chiquinho. O casal vivia de prestar serviços domésticos, ele na pensão do seu Canuto e ela nas casas das famílias mais intimas, principalmente da dona Altair do seu Victor. O resultado do trabalho, com certeza mal dava para criar os filhos no meio das criações dos porcos e outros bichos que o Manezinho sempre os tinha.

Depois deste sítio residiam os Garcías. Parentes da minha mãe, antigos donos das Cajazeiras, no distrito de Pesqueiro no Capistrano. Chefe da família Dona Maria Garcia tinha seus agregados. Uma prima a Belinha, uma empregada a Raimunda Matias, e os sobrinhos afilhados Airton, Leni, Ivanirton e Valdeliz, Nicinha e Enide. O Ivanirton era um exímio fabricante de brinquedos. Fazia perfeitas replicas dos caminhões que circulavam em Baturité.

Imediatamente acima destes últimos o vizinho era Antonio Porfírio, casado com Dona Iza Victor, os dois pais de Hildão, que se casou com Enide sobrinha de Dona Maria Garcia, Antonildo que se casou com Olga, Edson, que se destacava por beber muita cachaça e ser meio “imbuanceiro”, sempre armado de amolada peixeira. Os irmãos mais novos eram o Paulo Victor, solteiro vacinado e muito namorador e a única irmã de nome Hilda. O velho Antonio Porfírio era um homem muito bom, calmo, fala mansa de católico dos mais fervorosos. Vivia da agricultura explorando um sítio no começo da Rua São Paulo, atrás do Sobrado dos Maciéis, perto da Boa Vista, onde produzia uvas, macaxeiras e outros produtos.

Meia parede com o Porfírio a rua prosseguia na casa mais bem cuidada do pedaço. Seus donos eram Dona Clarice e Zé Mesquita. Os filhos eram os gêmeos Antonio Augusto e Odília, a Noélia – já falecida -, o muito bom de bola Carlinhos, Titico e mais dois irmãos que por serem menores não tive o prazer de tê-los como colega de infância: o José, Dudé para os íntimos e Fátima. Essa última acabou sendo a administradora da casa quando os pais ficaram velhos em Fortaleza. O Carlinhos, hoje, tem um restaurante na Praça da Rua Érico Mota, muito freqüentado por baturiteenses.

Posteriormente à casa do Zé Mesquita, minha lembrança se confunde. Lembro-se da casa dos Viana, onde, então, não residiam, mas sim o português José Dias da Farmácia Mattos, pai de Gilberto e da Fátima. Não me lembro, também, se foi nesta mesma casa que habitou o coletor federal Rubens Santana, pais do Mário Edson que casou com a Leene Viana, Roberto, depois engenheiro da Reffsa, Luciano, Stênio e Socorrinha, uma linda criança, muito branquinha que falava com a língua pregada, ao responder como se chamava ela falava:

- Malia do Totorro Maciel Tantana.

Mais adiante moravam os Figueiredo, enquanto o marido cuidava do imenso sítio na serra a esposa, Dona Puri, cuidava dos filhos que não eram poucos, o Chico Aviador, amigo do Ivanirton, a Angélica, cujo nome fazia justiça a sua pessoa realmente angelical; o Toinho, meu colega em várias passagens, na infância, juventude e agora na boa idade; o João Alberto e o Pedro Ângelo que pela pouca idade, na época, não se fizeram amigos de infância de nossa geração. .

Posteriormente aos Figueiredo, moravam os Campos. Raimundo, padrinho do meu irmão Bebeto, sua esposa Dona Maria Campos, o casal tinha a filha Auxiliadora, uma linda criaturinha, muito amiga da minha irmã Duduia, e, o filho Francisco, hoje apelidado de Chico Papa, dizem, porque, na família do seu pai, cheia de padres e bispos, só faltava o papa que ficou sendo ele. Moravam com eles os tios, quase irmãos, Wilza, e Aristóbulo, esse um grande companheiro nas brincadeiras, os dois, se diziam de Acopiara, mas por tudo, e, por todos eram considerados baturiteenses.

Ainda subindo um pouco mais me lembro dos Lopes, do Aloísio, de inteligência impar, do Audísio, eles tinham duas irmãs solteiras, todos e todas, de gênese mais velha que a nossa.

Depois dos Lopes tenho na lembrança um rapaz de nome Zé de Deus, outro bom de bola e de outras brincadeiras, dele nunca mais se teve notícias.

Antes de chegar à Fábrica Velha, e para terminar, não dá para esquecer, de um sobrado, talvez, pelo estilo da época, revestido de listras horizontais entremeadas de cores vermelhas e brancas. Este foi construído por Manoel Felício Maciel, seringalista, ex-coronel Franco Atirador da Campanha de Integração do Acre, tio de meu pai, que morreu assassinado no seu seringal no Amazonas.