BRINCADEIRAS DE BATURITÉ (III)

23 de julho de 2010

O aparecer dos primeiros cajus, agora, no segundo semestre, aguça a saudade do baturiteense, que, criança dos anos 1950, com um cruzado, comprava uma bacia média, cheia de cajus, colhidos debaixo dos cajueiros, no sítio dos Maciéis, detrás do sobrado.

Da casa do morador, ao lado do portão da Rua São Paulo, até o rio, no final do sitio, e a meio caminho destes, do lado direito, havia um lote destinado aos cajueiros.

Diferentes dos exemplares do litoral, rasteiros, juntos, acotovelados em ramos caídos e com poucos frutos, no interior, os cajueiros, mais distantes uns dos outros, erguem-se em troncos altos e grossos, galhos compridos sustentando, ao longo, folhas enxutas, e, nas extremidades, flores acanhadas gerando frutos graúdos e de exuberante beleza.

Inspirados por artistas e artesãos, da formosura do caju abrolham quadros e trabalhos manuais que, além das exposições mais elegantes, também, enchem os mercados e feiras de todo o nordeste de artesanatos em forma de toalhas, panos de copas, objetos de decoração em barro etc.

Rico em quase todas as vitaminas, naquele tempo em Baturité, os adultos, durante a safra do caju, não precisavam se preocupar com a merenda das crianças, porque, elas mesmas se encarregavam de adquirir o pedúnculo que, então, de tão barato, chegava a fazer lama no chão.

Do não dito, vale a pena dizer, que, no meio da garotada baturiteense, não obstante o valor nutritivo do caju, nele, havia outro apego muito maior: a castanha.

Os cajus passavam, mas, ficavam as castanhas.

A castanha circulava junto à criançada, e, mais que as cédulas de carteiras de cigarros, elas representavam uma verdadeira moeda, objeto de apostas em diferentes jogos.

O jogo de castanha, mais apostado, se disputava nas calçadas. Ali, com um pedaço de carvão, se desenhava um triangulo distante alguns paços de uma linha. A dificuldade consistia em impelir o dedo indicador de uma mão, esticado com o mesmo dedo da outra mão, isso, para, a partir da linha, mover uma tampa, chamada castelo, tudo ou nada, para tirar as castanhas apostadas de dentro do triângulo.

Cada um jogava sua vez, e, ganhava aquele que mais castanhas conseguia tirar do triângulo, acionando o castelo.

APÊLO

22 de julho de 2010

A propósito da reforma da Praça Santa Luzia, já é do conhecimento de todos, que o coreto – antigo palco, a céu aberto, de inolvidáveis retretas – não faz parte do projeto de reforma que, em tão boa hora, foi programada para nosso querido logradouro.

Coitadinho!

Obsoleto pela ausência das retretas, coisas que o tempo levou, hoje mal usado por gente mundana que não tem o que fazer, apesar de não ser a obra de arte com a beleza que deveria ter, ninguém pode negar que o coreto faz parte da memória da cidade.

Pela capacidade inata da profissão, os arquitetos, culturalmente, sabem muito bem enriquecer o moderno aproveitando antiguidades. Para muitos deles isto é, até, missão, principalmente quando se trata de patrimônio histórico.

No caso especifico do coreto por mais utilitaristas que possamos ser não é conveniente a demolição dele em nome do progresso, porque, o verdadeiro progresso respeita o passado.

Assim sendo, e, por acreditar na sensibilidade de nossos jovens dirigentes, tomamos a liberdade de apelar para que salvem o velho coreto! Deixem-no que, mesmo velhinho, faça parte do novo!

A cidade toda agradece!

UMA PEQUENA HISTORIA DA PRAÇA SANTA LUZIA LADO DO SOL V

16 de julho de 2010

PRAÇA SANTA LUZIA LADO DO SOL

CAPITULO V

Na década de 1950, no final do turno da manhã a Praça Santa Luiza se maravilhava com o alarido de moças e rapazes, adolescentes, estudantes dos dois colégios salesianos – dos padres e das irmãs – que subiam a Rua Dom Bosco num matiz colossal.

No meio deles, dois alunos dignos de memória: Lisete, uniformizada, saia azul marinho plissada, blusa branca, gravatinha da mesma cor da saia; e, o irmão, Inácio, farda em caqui, calça de Brim Floriano e camisa de tricoline a ostentar sobre tom.

Filhos do Seu Almeida e Dona Lili Viana, irmãos de Joseli e Nazaré, eles moravam na quinta casa da PRAÇA SANTA LUZIA LADO DO SOL a mesma da Tia Rosenda enquanto não se mudou para Fortaleza.

Da candura da mãe, Lisete herdou seu jeito doce de ser – apaixonada pela vida.

Muito espontaneamente, Lizete exerceu liderança entre suas amigas que não eram poucas; quem pode esquecer, das meninas, lindas, na flor da idade, aprendendo a fumar, naturalmente para imitar as artitas de cinema e outras celebridades que mostravam sua elegancia fumando cigaros.

Sentadas em roda, elas acendiam o cigarro que passava de mao para se deliciarem em gostosas tragadas. Isso tudo escondido dos adultos, alias se chegasse algum de surpresa, elas eram, até, capazes de engolir o cigarro aceso.

Também gente muito boa, o irmao mais mais novo de Lisete, o Inácio, era o tipo de filho que todo pai gostaria de ter: inteligente, criativo e trabalhador.

Inácio, desde rapazinho, sabia ganhar dinheiro mesmo com a pouca idade que tinha. Sem televisão, naquele tempo, com um projetor manual ele fazia funcionar, em casa, o Cine Cai, Cai Balão.

Exibindo, quase sempre, o mesmo filme de curta metragem com 16 mm, a preços irrisórios, conseguia lotar a sala. Ali, na dupla função de bilheteira e porteira a Nazaré se gabava de não deixar ninguém entrar sem pagar.

Chegado o mês de junho Inácio montava sua bodega de fogos: expunha a mercadoria numa caixa de charuto; destaque para as caixas de traques embaladas em papel de seda de diferentes cores. Seus concorrentes na bodega eram o Chinês, filho do Seu Clarindo, e o Souzinha do Seu Napoleão, estes, mais especializados, vendiam bombas de pipoco fabricadas por um certo Mudo ou pela Dona Isabel das Lages.

Depois do ano letivo o Inácio, no mais, era o preparador dos alunos reprovados que tinham direito a segunda época – recuperação.

Quando o reforço escolar não dava jeito, os atrasados repetiam o ano uma, duas, três vezes até conseguir passar, sem embargo das chineladas na bunda ou castigos hoje substituídos por sessões de psicologia terapêuticas.

Antes de se mudar para Fortaleza, onde se destacou como jornalista, a outra atividade exercida pelo jovem Inácio em Baturité, foi de distribuidor de revistas, mas, sendo que, desta feita, ele já se valia de auxiliar: o “free lancer” Elias, o popular Meio Quilo.

Em próxima edição virão mais duas casas que completam as quatro ocupadas pelos irmãos do Seu Raimundo Viana.

Aguardem.

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA PRAÇA SANTA LUZIA LADO DO SOL VI

16 de julho de 2010

PRAÇA SANTA LUZIA LADO DO SOL

CAPÍTULO VI

A Pequena História da Praça Santa Luzia Lado do Sol VII ao chegar a sexta casa lembra de Seu Quincas Neri casado com Dona Lica Viana Neri.

Sua casa de comercio ficava, também, na Praça Santa Luzia, esquina com a Rua D. Bosco, e, era especializada na compra e venda de produtos da terra.

Mal comparada ao quase imponente prédio onde funcionava, a bodega do Seu Quincas era um contraste: por fora um imóvel bem construído, pé direito alto, com cinco portas para o lado da praça e duas para a D. Bosco, paredes com destaques em relevo, portas altas, mas, por dentro, as instalações eram extremamente rústicas, um velho balcão, coroado com balança antiga, dessas de dois pratos, com os pesos de aferição desarrumados em volta e um monte de surrões espalhados pelo chão.

Caboclo do maciço, de tronco robusto, braços morrudos de pegador de queda de braço, dentadura, forte e completa, de sorriso sincero a suavizar a fisionomia de homem rude, indumentária espartana, calça de brim com slack desengomado, nada disso, porém impedia do Seu Quincas dá bom atendimento aos fregueses e atenção toda especial quando se tratava de crianças pelas quais tinha imensa devoção.

Das manias de Seu Quincas, a mais intensa era sua paixão pelo Monte Mor Futebol Clube, aliás, neste time, ninguém mais do que ele, trabalhou para erigir seu estádio localizado entre a cadeia e o cemitério.

Os filhos do casal eram Ilka, João Dionísio, Aíla, Raquel, Neiva, Luis e Eleonora.

CANUTO FERRO DE ALENCAR

29 de junho de 2010

Canuto Ferro de Alencar
José Maciel

Crônica publicada em “A VERDADE” em 18/04/1972 – Seção “O velho Torrão – n. 166

Eu não saberia dizer o tempo certo em que chegou a Baturité esse sujeito metódico, determinado, constante e simples que foi Canuto Ferro de Alencar.

Também não juraria, mas tenho cá como certo, ter vindo das bandas do Amazonas, terra misteriosa onde se é obrigado a ser e saber de tudo, como acontecia ao magrelo incansável, surgido de surpresa na cidade a qual tomou como sua, servil, e se não deu nenhum privilégio, indiscutivelmente concedeu um notável título de divulgação, através dessa entidade famosa pelo Brasil inteiro – a “Pensão Canuto”.

No sobradinho da Praça Santa Luzia, parede meia com o major Pedro Mendes, outrora pertencente às irmãs Pinto, gente de boa felpa, ligada a história social da Cidade, ali, após esbarros de acomodação, esbarrou seu Canuto, acredito que um pouco antes desses dias tristes que foram os da terrível seca de Quinze.

Entrou e ficou, pois o homem, primando pela constância, instalou no interior do sobradão arcaico a sua miniatura de amazonas, e começou a trabalhar.

A pensão constituía-se em espinha dorsal da economia. A ela, depressa, juntaram-se pequenas indústrias exploradas com persistência e seriedade.

Além dessa habilidade já considerável, Seu Canuto tinha tempo para fazer valer certo jeito de lidar com algarismos. Não sei até onde ia esse pendor, mas admito que quando o conheci dando um expediente no escritório de Raimundo Viana, ocupava-se em contas-correntes.

Tal habilidade explica, certamente, a presença do hoteleiro na Coletoria Federal, ao tempo em que era titular da repartição o Doutor Virgílio Ramos.

Por esse tempo, nos fins de ano, o processo arcaico de arrecadação dos impostos federais tornava o serviço exaustivo, impondo a contratação de auxiliares até que superada a pletora de serviços.
Veio daí, muito provavelmente, o encontra-se Seu Canuto, naquela fase trabalhando na tarefa de arrecadação.

Virgílio Ramos, o Coletor, filho de respeitável e antiga família baturiteense, era um temperamento esquisito. Retraído, cauteloso, não tomava parte em nenhum movimento social, embora fossem gerais os encômios ao seu talento, à sua cultura. Muitas vezes ouvi tais louvores de Júlio Maciel, seu antigo companheiro de pensão, nos tempos de estudante.

Canuto impunha-se, pois, à confiança do Doutor Virgílio e, dessa sorte, tinha, além das outras fontes, esse ganchinho na Coletoria Federal, a que se obrigava exatamente no último trimestre, quando a fumaça das queimadas e o rechino das cigarras anunciavam a proximidade com o ano novo.

Pois bem. Uma tarde, voltando do almoço, apressado o hoteleiro, com os miolos queimando, ao chegar à porta da Coletoria encontrou-a fechada à chave. Não era possível esperar. Aperreado bateu. Nem um sinal de vida. Bateu com mais força e já ia bater outra vez, quando viu por escassa abertura de uma polegada, se tanto, qualquer forma cilíndrica brilhando ao sol. Esticando bem o pescoço, comprovou alarmado – era um cano de revolver. Mais que a pressa, grita: “é o Canuto, doutor…”. Virgílio abre a porta, explicando discretamente “que a época é de muito dinheiro no caixa da repartição… ninguém pode adivinhar… toda cautela é pouco.
Canuto entra, retoma a tarefa e a comédia se encerra.

PREFEITOS DE BATURITÉ

27 de junho de 2010

EX-ADMINISTRADORES BATURITÉ(*)

1. Capitão João Rodrigues de Freitas, primeiro Diretor da Vila Real de Monte Mor o Novo da América. Nomeado por ocasião de sua fundação, a 14 de abril de 1764, na qualidade de Administrador da Vila, por força do ato de nomeação pode-se qualificá-lo como o primeiro prefeito da cidade, pois o administrador de então possuía essa autoridade.

A seguir a relação dos administradores a partir da elevação da Vila à categoria de cidade.
1. Pedro José Castelo Branco 1858 – 1859 Presidente da Câmara
2. José Pacífico da Costa Caracas 1859 – 1861 Presidente da Câmara
3. Pedro José Castelo Branco 1861 – 1863 Presidente da Câmara
4. André Epifânio Ferreira Lima 1863 – 1866 Presidente da Câmara
5. Pedro José Castelo Branco 1866 – 1868 Presidente da Câmara
6. Venâncio Pereira Castelo Branco 1869 – 1872 Presidente da Câmara
7. Balduíno José de Oliveira 1873 – 1877 Presidente da Câmara
8. Pedro José Castelo Branco 1877 – 1880 Presidente da Câmara
9. Raimundo Cicero Sampaio 1880 – 1882 Presidente da Câmara
10. Clementino de Oliveira Lima 1883 – 1886 Presidente da Câmara
11. Francisco Rodrigues de Oliveira 1887 – 1888 Presidente da Câmara
12. Francisco Alves Linhares 1888 – 1889 Presidente da Câmara
13. Francisco Ernesto de Oliveira 1890 – 1890 Intendente Municipal
14. Montezuma Peixoto Leão 1890 – 1891 Intendente Municipal
15 Joao Benício de Souza 1891 – 1892 Intendente Municipal
16. Balduíno José de Oliveira 1892 – 1892 Intendente Municipal
17. Joao Arruda de Aguiar Silva 1892 – 1892 Intendente Municipal
18. João Ramos da Silva 1892 – 1893 Intendente Municipal
19. Bernardino Proença 1893 – 1898 Intendente Municipal
20. Cândido Thaumaturgo 1899 – 1900 Intendente Municipal
21. Alfredo Dutra de Souza 1900 – 1905 Intendente Municipal
22. Francisco Cordeiro de Souza 1905 – 1908 Intendente Municipal
23. José Arruda 1908 – 1910 Intendente Municipal
24. Alfredo Dutra de Souza 1910 – 1912 Intendente Municipal
25. Joaquim de Alencar Mattos 1912 – 1914 Prefeito Municipal
26. Alfredo Dutra de Souza 1914 – 1919 Prefeito Municipal
27. José Pacífico Caracas Filho 1919 – 1920 Prefeito Municipal
28. Pedro Lopes Pereira 1921 – 1924 Prefeito Municipal
29. João Paulino de Barros Leal Filho 1924 – 1928 Prefeito Municipal
30. Pedro Catão 1928 – 1930 Prefeito Municipal
29. José Joaquim de Almeida 1930 – 1930 Prefeito Municipal
30. Alfredo Dutra de Souza 1930 – 1932 Prefeito Municipal Nomeado
31. Heitor Fiúza Pequeno 1932 – 1933 Prefeito Municipal Nomeado
32. Capitão Ozimo de Alencar Lima 1932 – 1934 Prefeito Municipal Nomeado
33. Luiz Rolim da Nobrega 1934 – 1934 Prefeito Municipal Nomeado
34. Cândido Silveira 1934 – 1935 Prefeito Municipal Nomeado
35. Francisco Chagas de Souza 1935 – 1935 Prefeito Municipal Nomeado
36. Ananias Arruda 1935 – 1943 Prefeito Municipal Nomeado
37. Francisco das Chagas Tito 1943 – 1944 Prefeito Municipal Nomeado
38. Raimundo Raul Correia Lima 1944 – 1944 Prefeito Municipal Nomeado
39. Edmundo Bastos 1944 – 1945 Prefeito Municipal Nomeado
40. Thomas Gomes da Silva 1945 – 1946 Prefeito Municipal Nomeado
41. Hermenegildo Furtado Filho 1946 – 1947 Prefeito Municipal Nomeado
42. Raimundo Raul Correia Lima 1947 – 1948 Prefeito Municipal Nomeado
43. Raimundo Viana 1948 – 1951 Prefeito Municipal Eleito
44. Miguel Edgy Távora Arruda 1951 – 1955 Prefeito Municipal Eleito
45. Rosuel Dutra Ramos 1955 – 1959 Prefeito Municipal Eleito
46. Miguel Edgy Távora Arruda 1959 – 1963 Prefeito Municipal Eleito
47. Antônio Wellington Viana 1963 – 1964 Prefeito Municipal Eleito
48. Manoel Castelo Branco 1964 – 1967 Prefeito Municipal Eleito
49. José Ricardo da Silveira 1967 – 1971 Prefeito Municipal Eleito
50. Dr. José Marcelo Holanda 1971 – 1973 Prefeito Municipal Eleito
51. Raimundo Ivo dos Santos Oliveira 1973 – 1977 Prefeito Municipal Eleito
52. Dr. José Marcelo Holanda 1977 – 1983 Prefeito Municipal Eleito

(*) Fonte Edson André

SAUDADES DO CRATO

15 de maio de 2010

No século passado viveu em Baturité, o imigrante sírio Elias Salomão comerciante de tecidos na Rua Sete de Setembro, no mesmo local onde muito depois funcionou a loja de Montezuma Peixoto.

Em 1934 o Sr. Elias Salomão, deixa sua Casa Síria, de Baturité, sob a gerência de Sr. Abel Pereira, e segue para o Crato a fim de gerenciar uma loja de Aziz Jereissati.

Quando viajou, Sr. Elias a pedido do seu amigo e compadre major Pedro Mendes, levou o filho deste Mario Mendes, para que, como empregado, aprendesse a arte de comprar e vender, coisa que o sírio já trazia no sangue.

Na abençoada região do Cariri, o recém chegado Mário se seduz com a beleza da Chapada do Araripe, que, como dizia o poeta, era coberta pela floresta donde jorram nascentes de águas puríssimas.

Rapaz de boa aparência e distinto, enquanto se enleva pelo lugar, cativa as colegiais, que não eram poucas, e, por causa delas, fica mais propenso aos namoros do que ao trabalho.

Por esse tempo também se encontrava no Crato, seu primo Heitor Maciel, que fora mandado, pela mãe, dona Emília Maciel, para lá se empregar, naturalmente a contra gosto do filho, como caixeiro nas Casas Pernambucanas, para que, dessa forma, deixasse de mão suas idéias comunistas.

Inconformado com o pouco tempo que lhe sobrava das obrigações para as farras e para a liça de combate aos integralistas apelidados de galinhas verdes, Heitor passou a odiar ao maldito balcão de loja, que não tinha nada a ver com seu gênio que nunca teve de se sujeitar a qualquer tipo de horário.

Mario e Heitor, pouco demoraram no Crato. Mario por se achar já capaz de suceder o pai, que, por sua vez, já queria lhe entregar a loja, e, Heitor, por que: “em sonho, ouviu a sua mãe chorando a lhe chamar”!

Em data combinada os dois pegaram o trem para Baturité. Numa madrugada de céu estrelado, no silencio só perturbado pelo movimento da estação, os dois, já acomodados no carro, passam a relembrar os momentos de liberdade na companhia de tantos e tantas de quem nem sequer se despediram.

Quando o agente ferroviário autorizou a partida com o tocar do sino, ao primeiro sopapo da locomotiva, os dois ficaram se olhando, e, ao mesmo tempo, recitaram parte da poesia do poeta popular Zé de Matos, quando, uma vez, deixou a terra amada:

Adeus! Cidade do Crato.
Quereres da minha vida,
Levo saudades de ti,
Rapadura e rapariga.

AS FARMACIAS DE BATURITÉ

10 de maio de 2010

AS FARMÁCIAS DE BATURITÉ

Na década de 1950 Baturité tinha duas farmácias: A Farmácia do sisudo Oziel, bom na arte de vender e, até, manusear medicamentos – ofício que herdou do pai o seu Rabelo; a outra a Farmácia Dias, do português seu José Dias, pai do Gilberto Dias e da Fátima.

Os próprios farmacêuticos eram os mesmos donos das boticas e consultavam remédios de fabricação própria ou de terceiros.

Pharmácia Mattos de Murilo Alvez Bessa

Os tratamentos, quase sempre eram os mesmos, quem não se lembra do interoviofórmio para caganeira; e dos xaropres, dos purgantes, da Emulsão de Scott, a única feita com fígado de Bacalhau, em cuja caixa mostrava um homem carregando um enorme peixe nas costas. Deste remédio bastava só de abrir a tampa do vidro já dava para vomitar!

Naqueles tempos o menino mais forte era o mais gordo. Os magrinhos, para ganhar gordura, eram obrigados a tomar Biotônico Fontoura, mais bem aceito pelo brinde que trazia dentro da embalagem do que pelo efeito que podia produzir. O brinde era a história do Jeca Tatu, que ficou forte por tomar o leque de medicamentos do Laboratório Fontoura que para cada mal tinha um produto especifico.

Ao contrair algum mal que provocasse febre, as crianças ganhavam o direito a uma merendinha mais leve: Meia dúzia de bolachas “cream” com guaraná champagne. Essa era uma das poucas possibilidades que tinham para beber refrigerante, cujo gás, então, de tão forte, chegava a sair pelo nariz.

Quando a doença era para valer, não tinha outro jeito, a não ser uma penicilina aplicada no traseiro pela mão santa do Oziel ou do Murilo, o enfermeiro do seu Zé Dias, que depois chegou a ser o dono da farmácia.

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA PRAÇA SANTA LUZIA LADO DO SOL IV

27 de abril de 2010

Praça Santa Luzia Lado do Sol IV

Antes de chegar na casa do seu Tolentino e dona Rosenda, um adendo sobre o Cine Baturité, da dona Emília, recordaçoes da Ligene Barsi de duas ótimas, como a do Costa (eletricista), que tendo assistindo a 1ª sessão ( eram duas pra cada filme, não era? ) repetia as cenas e contava o que ia acontecer, atrapalhando e irritando os cinéfilos da 2ª sessão, que gritavam “cala a boca Costa”.

Outra era a do Lindenberg (irmão da Gracinda) que usava, de propósito, tamancos barulhentos, e que depois do cinema descia as ruas acordando a população já recolhida.

Coisas simples do cotidiano da cidade que ficaram no consciente coletivo, nunca é de mais, recontá-las.

Voltando porém à sequencia da Pequena História da Praça Santa Luzia Lado do Sol, ninguem também esquece, do Seu Tolentino e Dona Rosenda, gente dos Vianas, que cedo se mudaram para Fortaleza, de onde, ainda, se recorda a casa sempre aberta aos baturiteenses na Rua Clarindo de Queiros próxima ao Mercado São Sebastião.

Dona Rosenda, sem nunca se desligar afetivamente de Baturité mudou-se para Fortaleza, com certeza, pelo atrativo do centro maior para dar formação profissional aos filhos, que não eram poucos, Leene, Clinton, Maria Augusta, Gilson, Raquel e Telma, donde colheu futuro melhor para todos.

Das tantas lembranças que a família deixou na Praça Santa Luzia, a mais sentida, foi a falta que Gilson fez, que digam seus amigos Zé Alfredo, o Mandioca, o Hugo, popular Aguía, o Eliomar, chamado de Chinês por que era pequeno, o Rainá, e seu irmão Souzinha, o Ivanirton Garcia e o Neném, apelido carinhoso do Victor, hoje, como ele, desembargador aposentado – os dois galgaram todos os degraus do magistrado.

Foi do meio dessa turma que nasceu a brincadeira do RUBALÉ, da qual o Gilson era o campeão.

ESTRANHA HOMENAGEM

24 de abril de 2010

No alvorecer do dia sete de julho de 1942, em Baturité, na residência do cliente, na Rua Quinze de Novembro, lado do sol, poucos metros acima da Rua Hildo Furtado, o contador dava os últimos retoques na Declaração do Imposto de Renda da NOVA AURORA, loja de tecidos, chapéus, camas, colchões e miudezas da Rua Sete de Setembro. O guarda livro era José Maciel, cunhado e primo do dono da casa e da loja o Mario Mendes.

Terminada a missão os dois se aproximam do rádio. Ansiosos. Sintonizados na BBC de Londres, eles queriam escutar as notícias da Guerra da Europa.

A transmissão, direta para o Brasil, estava quase inaudível, por causa dos chiados e da zoada, lá de fora, porque, em plena madrugada, os comboieiros, aos gritos, estralavam os chicotes nas traseiras dos jumentos.

Os pobres animais com pesadíssimos caçoares arriados em cada lado das cangalhas, sem ninguém para controlar excessos, escambichados com tanto peso, traziam da serra produtos agrícolas destinados à feira.

Lá de dentro, da casa, de repente, ouvem-se gemidos nervosos da dona da casa. Ela estava em procedimento de parto. Os gritos de dor superam todos os sons, até que o alarido, pouco a pouco vai sumindo, e, enfim, dá lugar ao choro forte do segundo filho.

Quando dona Maroca Maciel de Paiva, a parteira, trouxe o recém nascido, todo asseado, e vestido num jaleco branco, para os primeiros afagos do pai, foi José Maciel quem primeiro falou:

- Este vai ser contador!

- Disso, não sei – respondeu o pai -, mas seu nome será uma homenagem a mim mesmo, Mario Mendes Junior!