Construção típica do século XVIII o velho casarão da Praça Waldemar Falcão, foi construído para servir de residência ao agropecuarista, coronel Alfredo Dutra de Souza, prestigioso chefe político, deputado estadual em várias legislaturas numa das quais (1919) foi presidente da Assembléia Legislativa, vice-presidente do Estado, duas vezes Intendente (assim eram chamados os prefeitos) e mais duas Prefeito de Baturité.
Erguido em terreno declinado, com cerca de 100 metros de fachada sul, a partir do poente, com a metade assobradada, o casarão consagrava o piso superior aos dormitórios e às inúmeras dependências necessárias ao serviço doméstico, de pasmar, a escadaria de cedro maciço no fim do acesso se abria para a proeminência das amplas salas, de visita e jantar, ambas a ostentar rico mobiliário colonial alinhando a riqueza das louças e ornamentos.
Homem rico, de hábitos e costumes apurados e posição social saliente, Alfredo Dutra foi o principal vulto da nobreza proveniente dos cafezais baturiteenses e cabeça política dominante durante quatro décadas sobre todo o Maciço de Baturité e demais municípios da sua área de influência.
Casado com dona Amélia Dutra de Souza, esta lhe deu os seguintes filhos: Alfredinho, major Horácio, Otávio, Edgar, Olavo e as filhas Alzira, Adelaide, Odete e Cleonice. A propósito pioneiramente a Empresa de Luz de Baturité fundada em 1918 pelo filho do coronel, o major Horácio Dutra apresentou a honra de a cidade possuir energia elétrica antes mesmo do que a capital do Estado.
De Alfredo Dutra o casarão, por herança, passou para João Ramos Filho, advogado e tabelião da cidade quando este se casou com sua filha, Dona Adelaide Dutra “uma senhora de porte elegante e altivo”, tendo o casal residido ali até 1962, ano em que se mudou para o Rio de Janeiro. (Nina Moreira Viana. Casarão da Família Dutra-Ramos. Crônica de 30.06.2005).
Do casamento de João Ramos com Dona Adelaide nasceram os seguintes filhos: Francisco Rosuel Dutra Ramos, engenheiro e ex-prefeito de Baturité (Adm. 1955-59), Leni, casada com o Dr. Francisco Saraiva Xavier, Elial Dutra Ramos, oficial do Exército nacional e Emanuel Dutra Ramos, advogado e Promotor Público.
Um fato marcante na vida de Dr. João Ramos; anos após anos, enquanto viveu no casarão em todas as Sextas Feiras Santas distribuía o “jejum” dos pobres composto de bacalhau, pão, farinha e moedinhas de mil réis. (Nina Moreira Viana. Idem, ibidem).
Ao deixar, no dia 4 de junho de 1932, do seu quarto mandato na prefeitura, ao que tudo indica, Alfredo Dutra fez do genro João Ramos seu sucessor político. Coincidentemente, na mesma época, o bispo Manuel da Silva Gomes fez de Ananias Arruda presidente da LEC – Liga Eleitoral Católica, espécie de partido político que abriu o caminho da próspera vida do líder católico de Baturité.
Dos caminhos cruzados recebidos por missão – João Ramos, do sogro e Ananias Arruda do bispo – nasceu a rivalidade onde a astúcia do primeiro não se dobrava a prática beata do segundo.
Dono do jornal A VERDADE, Ananias Arruda já possuía uma folha de serviços prestados ao lugar. Da sua auréola de líder, bem antes de possuir cargo público, por seu prestígio, a cidade de enchia de padres e religiosas, excelentes na arte de ensinar, que pouco a pouco faziam Baturité se rivalizar com os com os maiores centros de ensino do nordeste.
O velho coronal Dr. João Ramos da Silva avaliando uma safra do Sítio Álvaro na Serra de Baturité
De 1932 a 1934 enquanto Baturité vivia um verdadeiro troca-troca de prefeitos de fora, nomeados pelos interventores politicamente neutros, o devotado e inteligente Ananias Arruda obtém maioria, na sede e nos distritos, para eleições de 3/05/1933 para Deputado Federal Constituinte e, outra vez a 14/10/1934 para Deputado Estadual Constituinte.
Assim sendo, quando, em 1935, os mesmos deputados que formavam a maioria da LEC elegeram Menezes Pimentel a Governador do Ceará, este, por sua vez, nomeia Ananias Arruda prefeito de Baturité.
Resumindo a história: execrável, sucedendo o sogro, João Ramos agüentou, no cimo do poder, Ananias Arruda até 1947, ano em que a UDN – União Democrática Nacional elegeu Faustino de Albuquerque ao governo, tendo este, por sua vez, ajudado Raimundo Viana a vencer o mesmo Ananias nas eleições seguintes para prefeitos municipais.
Naquele pleito, entre as farpas que trocavam entre si – coisas de políticos – quando o coronel Ananias, do novo PSD – Partido Social Democrático, taxou o coronel udenista João Ramos de miserável, porque não pintava a fachada de sua casa, o outro respondeu que era melhor ter a casa suja e consciência limpa do que a casa limpa e a consciência suja.
Piadas ou verdades as são histórias, se aconteceram ou não aconteceram, pelo menos, passaram para o folclore político baturiteense.
Outra vez no apogeu da fama o casarão volta a brilhar com a figura do legendário Dr. Francisco Saraiva Xavier, um médico elegante, enérgico, de estatura acima da média, postura sempre empenada para frente, cabelo liso e lustroso e de pele da cor de oliva que lhe dava um ar de sultão.
Ao chegar à cidade montou um consultório na Rua 15 de Novembro onde, dia a dia, operando sem parar ganhou a reputação de médico cirurgião, fama que lhe acarretava, às centenas, pacientes não somente da sede do município, mas de todo maciço e cidades vizinhas.
O Dr. Saraiva casou-se com Leni, moça muito bonita, espécie de monumento da cidade, muito desejada e admirada não só pelo fato de ser uma Dutra-Ramos, família mais rica da cidade, mas, também, pelo seu ar de diva do cinema americano.
Residente em Fortaleza o glamoroso casal causava verdadeiro frisson ao chegar a Baturité com os filhos Delano e Diana num luxuoso automóvel da divisão Mercury da Ford, quando na cidade só existiam jipes e caminhões.
Nascido em Lavras da Mangabeira, no Cariri, o Dr. Saraiva elegeu-se, duas vezes, deputado da UDN pelo colégio eleitoral de Baturité.
Em dia de eleição, na companhia do fiel escudeiro Pedro Penicilina, o doutor Saraiva corria uma por uma das sessões eleitorais às vezes para saudar prosélitos e noutras vezes para intimidar, com o revolver à mostra, a quem lhe ameaçasse tirar votos.
Incluída nos anais da política de Baturité existe, afamada, indisposição do valente deputado contra o apego da Lei do juiz Manoel Sales de Andrade, que não cedeu à intransigência do parlamentar diante da negação de sursis a um cabo eleitoral.
Da veemência de paixões própria do gênio do Dr. Saraiva, consta da crônica do legislativo cearense, uma passagem em que ele teve que disparar, sem êxito, dois tiros de sua arma, em sessão plenária, contra outro parlamentar que insistia em contrariar seus méritos.
Impulsivo e impetuoso, como se vê, nosso deputado Dr. Francisco Saraiva Xavier era assim, do tipo que além do talento inato se distinguia, muito mais, pela coragem.
Em 1962 o casarão foi vendido ao Sr. Raimundo Viana, ano em que o Dr. João Ramos veio a falecer no Rio de Janeiro cidade para onde se mudou com a família.
Na primeira década deste século o casarão, vetusto monumento patrimonial da região, escapou de ser demolido pelas providências de outro baturiteense ilustre, o Dr. Francisco da Rocha Victor, naquela ocasião Desembargador Presidente do Tribunal de Justiça do Estado, que mandou reformá-lo para, perpetuado, servir de Palácio da Justiça da sua e nossa terra.